Pobreza, família, dever

“O Gebo e a Sombra”, o mais recente trabalho de Manoel de Oliveira, foi apresentado pela primeira vez no Festival de Veneza e depois em Paris, onde a Cinemateca Francesa organiza uma retrospectiva integral da obra do cineasta português, que começou no passado dia 6 de Setembro e terminará no dia 22 de Outubro.

Entre nós, o filme teve a sua antestreia nacional no Palácio de S. Bento, no dia 19 de Setembro, numa homenagem que a Assembleia da República prestou ao realizador, que esteve presente apesar dos seus 103 anos de idade, e que assinalou também a abertura do novo ano parlamentar. O espaço encheu-se com as cerca de duzentas pessoas onde se incluíam, para além da Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, alguns deputados e actores, vários jovens curiosos em relação a um dos maiores vultos do cinema mundial.

Baseado numa peça de Raul Brandão, de 1923, a história passa-se no século XIX e versa sobre a pobreza, a família e o respectivo sentido de dever e de sacrifício. Manoel de Oliveira afirmou que “apesar de a peça ser do século passado adapta-se facilmente à nossa situação actual, tanto ética como economicamente, sem preconceitos. Pelo contrário, continua a ser contemporânea e universal”.

O elenco é de peso e conta com a participação de Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e do neto do realizador, Ricardo Trêpa. A realização é sóbria e formal, optando pela alternância de planos e pela ausência de movimento de câmara, fiel a um registo teatral que já marcou outros filmes de Oliveira. Mais uma obra a apreciar, do nosso centenário cineasta que é um dos maiores nomes da sétima arte contemporânea. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]


Fogo fátuo

O escritor francês Pierre Drieu la Rochelle foi por muitos condenado à lista dos “malditos”, pelas suas ideias políticas. No entanto, o seu extraordinário talento conseguiu derrubar muitas barreiras e ultrapassar a intolerância dos que se consideram donos da verdade. Talvez por isso só este ano é que a sua obra foi publicada na prestigiada biblioteca da Pléiade. Em 1931, publicou “Le feu follet”, um romance inspirado no suicídio do seu amigo Jacques Rigaut, um escritor dadaísta toxicómano. A obra seria passada ao cinema em 1963 por Louis Malle, que a adaptou à época e na qual o protagonista, interpretado por Maurice Ronet, era alcoólico.

Em entrevista, Joachim Trier disse que chegou até o livro de Drieu depois de ver o filme de Malle. Daí veio a ideia de transpor a história para a Oslo dos nossos dias. O resultado foi impressionante.

Anders é um toxicodependente que está internado numa clínica de recuperação. No último dia de Agosto é autorizado a sair por um dia para ir a Oslo a uma entrevista de emprego numa revista. Neste regresso à cidade, que também é um regresso ao seu passado, vai encontrar-se com os amigos e locais dos quais se tinha afastado.

A sobriedade mostra-lhe a realidade como ela é. Algo que está longe de ser bom e uma das razões que o levaram ao abuso de drogas e álcool.

Anders tem 34 anos e sente que nada fez na vida e que nada tem a fazer. As experiências dos amigos que reencontra apenas confirmam as suas intenções. O mundo que ele redescobre nada tem para lhe oferecer. A única solução é partir.

Nesta denúncia da vacuidade do mundo em que vive, há duas cenas memoráveis e extremamente bem conseguidas. Uma é o monólogo interior no qual Anders descreve os seus pais e a forma “aberta” como foi educado. Outra é quando está sozinho num café e ouve as conversas fúteis que pairam à sua volta. Momentos para reflectirmos...

O último dia da vida de Anders é a revolta solitária contra o mundo pós-moderno. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]

Sete Cavaleiros

A trilogia dos “Sete Cavaleiros” juntou dois grandes talentos: um grande romancista, Jean Raspail, e um grande autor de Banda Desenhada, Jacques Terpant. O resultado não podia ser melhor e os álbuns, de extraordinária qualidade e beleza, transportam-nos para um mundo trágico que é uma alegoria ao nosso.


Jean Raspail é um grande romancista francês e autor de uma extensa obra. Foi também explorador e viajou durante trinta anos conhecendo pequenas civilizações em vias de desaparecer. A sua obra mais famosa e mais polémica foi “Le Camp des Saints”, que seria traduzido e publicado em Portugal pelas Publicações Europa-América, em 1977, com o título “Mortos: 200 Milhões - Todos Nós”. Publicado em 1973, em França, o livro foi uma verdadeira bomba incendiária. De uma qualidade literária indiscutível, versava sobre um tema polémico e provocou um intenso debate. Esta parábola sobre o futuro da Europa, na qual um milhão de pobres vindos do terceiro mundo desembarcavam nas costas francesas, alterando com a sua invasão pacífica toda uma civilização, foi considerada “racista” pelos sectores do costume e viria a revelar-se verdadeiramente profética. Depois de vários anos sem ser publicado, o livro foi recentemente reeditado, alcançando um êxito de vendas considerável. Numa entrevista recente, Raspail afirmou que sabe muito bem o que é uma civilização que vai desaparecer e que esta “se deve defender antes de desaparecer”. A história agora vertida à Nona Arte é retirada do seu romance “Sete cavaleiros deixaram a cidade ao crepúsculo pela porta do Oeste que já não estava guardada”, publicado em 1993.

Jacques Terpant, é um ilustrador, pintor e autor de Banda Desenhada, conhecido pelas séries “Messara”, passada na Antiguidade, e “Piratas”, publicada pela Casterman. Os “Sete Cavaleiros” valeram-lhe o Prémio Saint-Michel para o Melhor Desenho, em Bruxelas, no ano passado.

 O primeiro volume da trilogia dos “Sete Cavaleiros” foi publicado em 2008 pelas edições Robert Laffont, mas como considerou o próprio Jacques Terpant estes “reveleram-se como totalmente incompetentes na sua difusão”. Tal motivou a mudança para a Delcourt que, no ano seguinte, reeditou o primeiro tomo, com oito páginas suplementares ilustradas com notas complementares sobre “O Mundo dos Sete Cavaleiros”, publicou o segundo, intitulado “O preço do Sangue”. Em 2010 a saga era concluída com a saída do último tomo, “A ponte de Sépharée”.

Como o título da obra original indica, a história é a de sete cavaleiros que deixam a cidade do Margrave hereditário que outrora foi próspera e pacífica, mas que agora está ameaçada. Este punhado de homens, bastantes diferentes e simbólicos, mas unidos entre si na disciplina, na fé e na preservação do seu reino, tem como missão encontrar a soberana herdeira, a Margravina Myriam. Na sua senda, vão encontrar resistentes isolados e fiéis aos costumes antigos, bem como várias ameaças tanto internas como externas, já que “do outro lado das montanhas” está quem avança para destruir e conquistar a sua civilização. Uma sociedade europeia moribunda que depende destes homens, movidos apenas pela esperança e pelo sentido do dever. Como afirmou Terpant, “a cidade do Margrave hereditário é ao mesmo tempo tangível e imaginária, um reino que pode ser no fim do século XIX, nos confins da Europa e da Ásia, uma Sildávia de Jean Raspail”.

Tudo se passa num cenário maravilhosamente construído pelo talento e cuidado de Jacques Terpant, que dá uma atenção extraordinária ao pormenor, conferindo aos álbuns uma riqueza gráfica impressionante. Nota para um pormenor curioso, a ilustração do Margrave hereditário é feita a partir do próprio Jean Raspail. Uma bela homenagem a um autor de referência. A união destes dois raros talentos produziu uma obra-prima.

Felizmente, não se ficou por aqui. No ano passado saiu “Oktavius”, o primeiro dos quatro volumes da série “Os Reinos de Bóreas”, baseado no romance homónimo de Raspail, publicado em 2003 e traduzido e editado entre nós pelas Publicações Europa-América, em 2005. Aguardemos a continuação deste óptimo encontro.

Mais Tintin na História


No ano passado, a revista francesa “Historia” e o jornal “Le Point” publicaram um número especial, em formato de álbum, onde são retratados momentos-chave do século XX que inspiraram a obra de Hergé e a criação de várias das personagens que habitam no universo de um dos mais famosos e apreciados heróis da banda desenhada. Talvez motivado pelo grande sucesso deste lançamento, os editores decidiram repetir a dose e publicar “Les personnages de Tintin dans l'histoire vol. 2” (encadernado, 130 páginas, 10,90 euros). Este segundo volume está disponível nas bancas portuguesas, reúne como autores vários historiadores, académicos e jornalistas e está dividido em capítulos que associam cada aventura de Tintin com uma personagem e um artigo sobre o período histórico no qual se insere.

Das dez personagens escolhidas, vejamos alguns exemplos. O primeiro álbum tratado é “Tintin na América”, e a personagem de Al Capone, inspirada na proibição do álcool nos EUA. Já em “A Estrela Misteriosa”, e escolhido é Philippulus e o tema são as viagens ao Pólo Norte. Depois, em “As Sete Bolas de Cristal”, descobrimos Bergamotte e viajamos ao Império Inca. Em “Objectivo Lua”, ficamos a conhecer Wolff e a saber mais sobre o projecto de conquista espacial alemã que nasceu nos anos 30. Mas o principal destaque vai naturalmente para o português Senhor Oliveira da Figueira, associado à aventura “Carvão no Porão”.

 Este livro inclui ainda um artigo sobre a arte em Hergé e outro sobre o ‘affaire’ Legros. Por fim, os interessados em aprofundar os temas tratados podem recorrer às duas breves bibliografias, uma com obras sobre os momentos históricos referidos e outra sobre o mundo de Tintin. Bastante interessante para os entusiastas de um dos nomes maiores da banda desenhada franco-belga, este é mais um álbum obrigatório na colecção de qualquer tintinófilo.

Thorgal


O jornal "Público" inicia hoje a distribuição de uma colecção inédita em português de 16 álbuns de capa dura de "Thorgal", uma excelente banda desenhada escrita por Jean Van Hamme e ilustrada por Grzegorz Rosiński.

Tintin na História

A revista francesa “Historia” e o jornal “Le Point” publicaram um número especial, em formato de álbum, onde são retratados momentos-chave do século XX, nomeadamente de 1930 a 1944, que inspiraram a obra de Hergé e a criação de várias das personagens que habitam no universo de um dos mais famosos e apreciados heróis da banda desenhada. “Les personnages de Tintin dans l'histoire” (encadernado, 130 páginas, 10,90 euros), disponível nas bancas portuguesas, reúne como autores vários historiadores, académicos e jornalistas e está dividido em capítulos que associam cada aventura de Tintin com uma personagem e um artigo sobre o período histórico no qual se insere.

O primeiro é obviamente sobre “Tintin no pais dos sovietes”, inspirado directamente no manifesto anti-soviético “Moscou sans voiles”, de Joseph Doulleit, e em destaque está o “duo para a vida” Tintin e o seu inseparável companheiro canino Milou. A enquadrar a primeira história do nosso “pequeno repórter”, podemos ler sobre a forma como a URSS se impõe como ditadura, controlada por um partido que vigia tudo e todos, e provoca uma catástrofe económica. A seguir um livro que hoje alguns tentam envolver em polémica, “Tintin no Congo”, complementado com um texto sobre a África colonial do homem branco, tendo como personagens Dupond e Dupont, inspirados no pai e no tio de Hergé. O milionário Rastapopoulos, inspirado em Onassis, leva-nos a “Os Charutos do Faraó” e aos rumores e maldições associadas às descobertas dos egiptólogos, nomeadamente o túmulo de Tutankamon. Depois, é a vez do amigo chinês Tchang, que aparece no álbum “O lótus azul” e do conflito sino-japonês. Outra guerra, desta vez entre a Bolívia e o Paraguai, vai inspirar “A orelha quebrada” e o general Alcazar. Já em “A ilha negra”, com o dr. Müller como personagem, viajamos até ao mundo dos falsários que lucravam no início dos anos 30. A excêntrica Castafiore é descrita a propósito de “O ceptro de Ottokar”, tendo como pano de fundo geográfico os Balcãs e histórico o Anschluss. Inspirado no filme “Le Capitainne Craddock”, surge em “O caranguejo das tenazes de ouro” o capitão Haddock e o problema do consumo e tráfico de ópio. Em “O segredo do Licorne” aparece pela primeira vez o mordomo Nestor e viajamos até ao mundo dos piratas. Por último, é a vez do Professor Girassol, inspirado em Auguste Piccard, que se estreia em “O tesouro de Rackham, o terrível”, com um artigo sobre o castelo de Cheverny.

Este livro inclui ainda um capítulo dedicado às aventuras de Tintin no cinema, não podendo deixar de falar no filme de Steven Spielberg que está a gerar grande expectativa. Por fim, os interessados em aprofundar os temas tratados podem recorrer às duas breves bibliografias, uma com obras sobre os momentos históricos referidos e outra sobre o mundo de Tintin.

Bastante interessante para os entusiastas de um dos nomes maiores da banda desenhada franco-belga, este é um álbum obrigatório na colecção de qualquer tintinófilo.

Horas a mais


Danny Boyle surpreendeu-me com a espantosa viagem ao mundo da droga que foi “Trainspotting” (1996), mas a partir de então nunca mais o conseguiu. Nem com “A Praia” (2000), nem mesmo com o popular “Quem quer ser bilionário?” (2008), que lhe valeu o Óscar na categoria de Melhor Realizador ficou a milhas daquele que foi o seu trabalho verdadeiramente genial.
Desta vez o seu “127 Horas” deu que falar pelas seis nomeações para os Óscares, com seis nomeações, incluindo a categoria de Melhor Filme e Melhor Actor. Ficou, no entanto, de mãos a abanar... e bem. Ainda que, como muitos adiantaram a mera nomeação é por vezes um prémio. A ser assim, nem isso merecia.

Outro atractivo do filme é o facto de se basear numa história real. Ainda para mais numa impressionante história de resistência, cujo real protagonista considerou estar até bem reproduzida, excepto por alguns pormenores iniciais. Mas aí está, parece mesmo que estamos perante uma daquelas reconstituições que normalmente se vêem nos programas especializados de sobrevivência dos canais de documentários. E o melhor, talvez, fosse ter-se cingido a essa meia hora televisiva...

Ora a história é mais ou menos conhecida e simples. O aventureiro “radical” e escalador Aron Ralston (James Franco), num passeio sozinho no deserto rochoso do Utah, acaba preso num estreito desfiladeiro por uma rocha que lhe esmaga a mão e parte do antebraço. O final também é conhecido, pelo que fazer um filme sobre este caso extremo só poderia centrar-se no aspecto humano profundo do protagonista. Tal não acontece.

Apesar de muito louvada, a prestação de Franco não é impressionante. Mas, há que dizê-lo, com as condições que lhe deram, como fazer mais? E será que, mesmo assim, o conseguiria?
Para evitar, em vão, uma seca monumental, o realizador optou pelo pior. Um exagero de ecrãs divididos incompreensíveis, uma acção acelerada sem sentido, uma série de ‘flashbacks’ com personagens de quem pouco ou nada se sabe, sonhos que nos levam para a frente e para trás, como quem nos abana para não adormecermos. Tudo isto com a uma inexplicável ligeireza que passa ao ritmo de um anúncio publicitário de uma bebida energética ou de um teledisco de um qualquer ‘top’ de vendas da MTV.

Houve uma única frase que me ficou deste filme. Quando Aron tenta escavar a rocha que lhe prende o braço recorrendo à lâmina do pequeno alicate que trazia na mochila diz: “Uma lição: não comprem a ferramenta multifunções barata fabricada na China. Eu tentei encontrar o meu canivete suíço, mas...”

Não se iluda. Esta é uma estopada tal que o filme parece demorar o tempo que lhe dá título... Poupe-se ao sofrimento de tentar amputar o braço para sair da sala. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Enfrentar o destino


O grande mestre da ficção científica Philip K. Dick teve já diversas das suas obras adaptadas ao cinema. Não esperando propriamente algo à altura do clássico contemporâneo Blade Runner (1982), suscita-me sempre a curiosidade quando um realizador decide levar PKD ao grande ecrã.

Desta vez foi a escolha de estreia de George Nolfi, já conhecido como argumentista – o seu mais recente trabalho de escrita foi o último filme da série Bourne, “Ultimato” (2007) –, como realizador. Adaptou o conto “Adjustment Team”, de 1954, e dirigiu um filme que deixa a desejar. O que podia ser uma bela incursão no género ‘sci-fi’, torna-se um ‘thriller’ romântico. Um exercício de entretenimento mais próprio para uma tarde de domingo. Tal não é necessariamente mau, já que a prestação dos protagonistas é boa e certos pormenores evitam o enfado.

Matt Damon, que tem aparecido frequentemente em grandes produções, confirma o seu talento de como actor multifacetado e a dupla que faz com Emily Blunt resulta bastante bem.

A história mostra-nos o jovem e ambicioso político David Norris (Matt Damon), em plena campanha eleitoral e a caminho de um promissor futuro. Depois de um percalço que o desvia de uma vitória anunciada, conhece a bela bailarina contemporânea Elise Sellas (Emily Blunt) que não lhe sai da cabeça. Parecem destinados um ao outro, mas de quem depende o destino?

Cedo Norris descobre acidentalmente, para sua total estupefacção, que há agentes do destino que têm como missão assegurar que tudo se mantenha “de acordo com o plano”. Para tal trabalham em equipa e dispõem de vários poderes. Um deles é a impressionante facilidade das passagens espácio-temporais que lhes permitem “saltar” de um lado para outro com óbvia vantagem sobre o perseguido. Este é um pormenor interessante, já que a forma de entrar nestes canais é através de portas que aparentam ser normais. Outro ponto curioso é o do guarda-roupa bem conseguido destes agentes, sempre de chapéu, num estilo algo ‘fifties’.

Decididos a cumprir a sua missão, que não questionam, os agentes vão perseguir os protagonistas acelerando a acção do filme numa corrida de tirar o fôlego que nos leva, infelizmente, a um final fraco e mais que previsível.

O ponto forte está nas questões maiores que toda a história levanta e que o realizador-argumentista parece relegar, a medo, para segundo plano. Será que o livre-arbítrio condena a humanidade? O homem contra quem o controla, contra quem lhe delineou os planos. Contra toda uma máquina que assegura o cumprimento desses planos previamente delineados. Pode o homem alterar o seu destino? E quando o amor se atravessa no caminho... Pode o amor mudar o destino? [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O western vive


Os irmãos Coen formam uma dupla talentosa que já nos ofereceu verdadeiras pérolas cinematográficas como “Fargo” (1996), “O Grande Lebowsky” (1998), ou mais recentemente “Este Pais Não é para Velhos” (2007). Agora decidiram mostrar que ainda é possível fazer um ‘western’ e, felizmente, realizaram-no majestosamente.

Para fazer um clássico moderno, recorreram a outro clássico, o romance “True Grit”, de Charles Portis, que deu origem ao filme “Velha Raposa” (1969), de Henry Hathaway, que deu o Óscar a John Wayne. O resultado não podia ter sido melhor e os Coen conseguiram mostrar que o ‘western’ é um género que ainda vive.

O protagonista deste história é Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um ‘marshall’ do Oeste norte-americano com um currículo que fala por si, mas com um feitio dos diabos, dedo leve no gatilho e uma tendência para o abuso do álcool. Até ele chega Mattie Ross (Hailee Steinfeld) uma jovem de 14 anos que o contrata para encontrar Tom Chaney (Josh Brolin), o ladrão que matou o seu pai, para o trazer à justiça. Apesar da sua tenra idade, ela revela-se muito hábil no duro mundo dos adultos e determinada a conseguir o que quer. Atrás de Chaney anda também Laboeuf (Matt Damon), um ‘ranger’ do Texas que se junta nesta caça ao homem e à recompensa, com um estilo totalmente diferente de Rooster. É a partir desse triângulo que se forma que se desenvolve toda a acção do filme.

Os desempenhos do veterano Jeff Briges - o ‘Dude’ de “O Grande Lebowsky” - e da jovem Hailee Steinfeld são magistrais. Ele confirma da melhor forma e com todo o à vontade o grande actor que é. Ela deixa-nos pasmados com tamanho talento e espantosa segurança numa actriz tão nova que agora inicia uma carreira, que será certamente promissora.

Nesta verdadeira ode ao pioneirismo e à fundação da América encontramos todos os elementos do ‘western’, da sessão pública de enforcamento à cena num ‘saloon’, na cidade, e das planícies às montanhas. Temos heróis e bandidos, tiros e cavalgadas, coragem e enganos. E, para terminar, um final fabuloso.

Esquecido nos Globos de Ouro, parecia que as 10 nomeações para os Óscares, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Principal e Melhor Actriz Secundária, consagrariam “Indomável”. Tal não aconteceu e o filme saiu da cerimónia de mãos a abanar. Por seu lado, os realizadores viram os seus bolsos cheios com aquele que está a ser o maior sucesso comercial da sua carreira até agora.

Sem prémios, mas com o reconhecimento do público, este é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Um grande ‘western’ dos manos Coen, que se espera que continuem indomáveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Óscares 2011


A Academia estava muito preocupada com a baixa de audiências da cerimónia dos Óscares e foi algo que se notou da pior forma este ano. Numa tentativa de fazer uma coisa “jovem” escolheu como apresentadores James Franco e Anne Hathaway e encolheu a duração do evento, pondo actores a despachar, literalmente, a entrega dos galardões.

Para o ano há mais e espera-se que seja melhor (não é difícil). Mesmo para inovar, convém aprender com as boas lições do passado…

Derrotados
“A Rede Social”, com oito nomeações, venceu três, das quais Melhor Argumento Adaptado. Uma justíssima e esperada consagração do notável trabalho de Aaron Sorkin. Mesmo assim, com toda a expectativa criada e ao falhar a merecida melhor realização para David Fincher, é um perdedor.
“Indomável”, o magnífico ‘western’ dos irmãos Coen, com dez nomeações, ficou de mãos a abanar. É pena, porque este foi um dos filmes do ano com representações fantásticas do veterano Jeff Bridges e da jovem Hailee Steinfeld.

A xaropada “127 Horas”, com seis nomeações, também ficou a ver navios… e bem. Ainda que, como muitos disseram, a mera nomeação é por vezes um prémio. Se foi o caso, nem isso merecia.
Na animação, a segunda nomeação de um filme de Sylvain Chomet, o maravilhoso “O Mágico”, perdeu para o forte adversário da casa “Toy Story 3”.

Vencedores
“O Discurso do Rei”, foi o grande vencedor da noite. Apesar de só conseguir quatro das doze estatuetas para as quais estava nomeado, foi considerado o Melhor Filme, contra uma concorrência de peso, Tom Hooper conseguiu ser reconhecido como Melhor Realizador e Colin Firth como Melhor Actor, não esquecendo o prémio de Melhor Argumento Original para David Seidler.

“A Origem”, de Christopher Nolan, filme que sinceramente me desiludiu, acabou por ganhar quatro das oito categorias para as quais tinha sido seleccionado. Apesar de serem mais técnicas, não deixa de ser uma vitória.

No documentário “Inside Job – A Verdade da Crise”, um merecidíssimo reconhecimento do trabalho corajoso de Charles Ferguson sobre os responsáveis pela actual crise financeira.

Natalie Portman, contrariando certas críticas, venceu justa e esperadamente o Óscar para a Melhor Actriz, pelo seu desempenho em “Cisne Negro”. Foi a única estatueta das cinco nomeações deste filme de Darren Aronofsky.

“The Fighter – O Último Round”, acabou também por ser o vencedor dos papéis secundários. Premiando os belos desempenhos de Christian Bale e Melissa Leo. Curisoamente tiveram os melhores discursos da noite. O dele bastante sincero e o dela tão admirada que até soltou “the f word”, como dizem os americanos. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O amigo do Rei


“O Discurso do Rei” tem todos os ingredientes para ser um sucesso comercial. É um ‘biopic’ de uma figura da realeza britânica, passado num ambiente histórico e baseado em factos reais. Rapidamente se tornou um dos favoritos aos Óscares, tendo sido nomeado para doze categorias, incluindo a de melhor filme e a de melhor realização.

Tom Hooper, que já havia experimentado o género histórico com as mini-séries “Elizabeth I” (2005) e “John Adams” (2008), realiza um filme mais íntimo, longe de uma grandeza que alguns esperariam, por se passar num período crucial na História da Europa.

Nos anos 30 do século XX, na iminência da Segunda Guerra Mundial, o poder da rádio revela-se da maior importância para a afirmação do soberano perante as massas. A seguir à gravação de uma mensagem de Natal, o rei Jorge V tem um diálogo com o seu segundo filho, o príncipe Alberto, duque de York, no qual chegam à conclusão de que se “tornaram actores”... A rádio é considerada por muitos, à época, como uma verdadeira “caixa de Pandora”, mas é impossível ignorá-la.

No entanto, o príncipe é atormentado pela sua gaguez desde criança, algo que agora se revela um problema ainda maior. A duquesa incita-o a consultar todos os especialistas da área, mas sem êxito. Finalmente, decide recorrer a um terapeuta da fala australiano, cujos métodos são no mínimo estranhos e incluem palavrões e exercícios físicos.

Com a morte do seu pai e a abdicação do seu irmão, o futuro Jorge VI depende directamente de Lionel Logue (Geoffrey Rush) para ultrapassar o seu impedimento de comunicação. Durante os tratamentos desenvolve-se entre ambos uma intimidade que resultará numa amizade profunda. Mas até aí chegar, o caminho será sinuoso. Para além da distinção de classe entre um membro da família real e um súbdito, Logue é um “aussie”, um “colonial”, algo que o situa na base da estrutura social da altura. Por outro lado, este terapeuta excêntrico apercebeu-se pela experiência que a gaguez tem causas psicológicas e consegue entrar na traumatizante adolescência de um príncipe que está longe de ser uma “história de princesas”.

O papel de Jorge VI, notoriamente difícil, é esplendidamente representado por Colin Firth, bem acompanhado pelos desempenhos de Geoffrey Rush e de Helena Bonham Carter.

Esta é uma história de um homem que ultrapassa uma adversidade que o parecia limitar para sempre, para chegar a um desafio ainda maior. Depois de assistir, em família, ao pequeno filme noticioso da sua coroação, Jorge VI vê imagens de um discurso de Adolf Hitler. Uma das filhas pergunta-lhe o que ele está a dizer, ao que o rei responde: “Não sei... mas está a dizê-lo muito bem”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O LADO NEGRO

O primeiro filme de Darren Aronofsky que vi foi “A vida não é um sonho” (2000), uma viagem alucinante ao vício e à espiral descendente da degradação humana e nunca mais esqueci o nome deste realizador. Anos depois, em 2008, voltaria a surpreender com o excelente “Wrestler”, onde Mickey Rourke interpretou magistralmente um lutador em fim de carreira. Foi, assim, com certa expectativa que vi “O Cisne Negro”, filme que levou Aronofsky de novo ao mundo do espectáculo e suscitou críticas antagónicas, quase numa oposição amor/ódio.

A história desenrola-se em Nova Iorque, no seio de uma companhia de ‘ballet’. Preparando o início da nova temporada, o director, Thomas Leroy (Vincent Cassel), faz um ‘casting’ para a escolha da substituta da anterior estrela, Beth MacIntyre (Winona Ryder). Nesta produção de “O Lago dos Cisnes”, a protagonista tem que desempenhar tanto o papel de Cisne Branco como o de Cisne Negro. A jovem e dedicada Nina Sayers (Natalie Portman) desperta a atenção do director, pela sua técnica e desempenho como Cisne Branco. No entanto, ele hesita em seleccioná-la, duvidando que ela consiga ultrapassar a sua rigidez para atingir a paixão necessária para representar o Cisne Negro.

Ela acaba por conseguir o lugar, para grande felicidade da sua mãe omnipresente e controladora da sua carreira. Mas o caminho para a revelação do seu “lado negro” está longe de ser fácil. A tensão entre ela e Thomas cresce, ao mesmo tempo que, como uma sombra, uma bailarina recém-chegada à companhia, Lily (Mila Kunis), a começa a atormentar.

Esta busca desse lado mais solto, mais apaixonado, há que largar certas restrições. Romper com a rapariga “certinha” e dar asas ao sentimento. Este processo implica uma perda da inocência. Uma transformação. O romper com uma ordem estabelecida.

Tudo isto se passa ao som de uma banda sonora baseada na obra de Tchaikovsky, no ritmo gracioso do bailado e com uma representação de suster a respiração por parte de Natalie Portman. Alguma da crítica falou de ‘overacting’, mas na minha opinião ela encarna perfeitamente a personagem.

Na realização, Aronofsky continua com a sua “câmara ao ombro” que funciona muito bem. O mesmo não se pode dizer quando descai para um registo mais próximo do terror. A coisa não sai bem e era melhor ter-se mantido no ‘suspense’ puro e duro. Por falar nisso, há na história um jogo de espelhos que é transposto literalmente para a tela. As alucinações de Nina são, assim, sentidas pelo público.

Todo este tormento é uma transformação. Todo este percurso é uma busca da perfeição. Esta é a mensagem do filme. Até onde estamos dispostos a ir pela perfeição? O que estamos dispostos a mudar para atingir um fim? Mesmo que esse seja o nosso lado negro... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

ALÉM


Existe vida depois da morte? É possível comunicar com os que já partiram? São perguntas que o Homem tem feito ao longo dos tempos e que não perdem a actualidade. Este é um tema polémico e, pior ainda, muito dado a lamechices e charlatanices. Daí que ver Clint Eastwood debruçar-se sobre este assunto desperta, no mínimo, a curiosidade dos cinéfilos.

Reza a história que Steven Spielberg conseguiu que Eastwood lesse o argumento de Peter Morgan e se decidisse a fazer este filme que estava na calha há algum tempo. Será porque o realizador, agora octogenário, se preocupa mais com a morte? Interrogações a deixar aos especuladores habituais…

Nesta “Outra Vida”, são apresentadas três histórias que logo se percebe que se vão inevitavelmente cruzar. Por um lado temos a personagem mais bem conseguida, George Lonnegan (Matt Damon), um homem simples que consegue comunicar com o além e que já fez disso negócio com a ajuda do irmão interesseiro. Considera que o seu “dom” é na realidade uma maldição que o impede de levar uma vida normal. Abandonou as “leituras” e prefere trabalhar como operário. No entanto, não é tão fácil assim fugir do seu talento. Depois, há os dois gémeos ingleses de 12 anos, Marcus e Jason (Frankie e George McLaren), que vivem com a mãe drogada e alcoólica, controlada pelas autoridades. Jason morre atropelado e o irmão não descansa enquanto não consegue entrar em contacto com ele. Essa busca proporciona alguns momentos engraçados quando Marcus consulta certos charlatães que abundam neste meio. Por fim, a personagem mais fraca, Marie Lelay (Cécile de France), uma jornalista francesa com uma carreira de sucesso e a quem a vida corre de feição, que sobrevive a um ‘tsunami’ enquanto está na Tailândia. Essa experiência de quase-morte vai alterá-la para sempre e fá-la iniciar uma pesquisa sobre as provas científicas de que é possível comunicar com o além.

A fantástica cena do ‘tsunami’, que abre o filme, está muito bem conseguida e realizada. Confere alguma espectacularidade sem cair no exagero. É para isto que servem os efeitos especiais.

Quanto ao lado politicamente incorrecto de Clint, não deixa de aparecer, ainda que pontualmente. É o caso do atentado no metro de Londres ou a cena em que a professora de Marcus o manda tirar o boné dentro da aula, quando ao seu lado está uma rapariga muçulmana trajando o seu ‘hijab’…

Por último, foi na conferência de imprensa dada no New York Film Festival, em Outubro do ano passado, aquando da estreia deste filme, que Clint Eastwood referiu o nosso mestre cinematográfico Manuel de Oliveira. Disse ele: “há aquele realizador português que tem mais de cem anos e continua a fazer filmes. Eu tenciono fazer a mesma coisa!” Esperemos que sim. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

VIAGEM A OUTRO MUNDO


O “Complexo do Alemão” é um conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro conhecido pela sua dimensão, pelo tráfico e, em especial, pela extrema violência. O mundo das favelas brasileiras sempre gerou grande curiosidade, mas depois do excelente “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha, ganhou um mediatismo colossal. No final do ano passado, a enorme operação militar que se seguiu à série de ataques e atentados perpetrados pelos traficantes cariocas foi amplamente televisionada. Os telejornais abriam com verdadeiros cenários de guerra na “cidade maravilhosa”, que um dia foi capital de Portugal, e as imagens de soldados armados protegidos por blindados a subir os morros mostravam que não se tratava de um mero caso de polícia.

O documentário português “Complexo – Universo Paralelo”, que está agora em cartaz, beneficia muito de toda essa publicidade. Muita da sua promoção e até o próprio ‘trailer’ põem a ênfase nos “bandidos” e na violência. Mas atenção, o filme está longe de ser um exercício de câmara oculta ou uma colecção de imagens explícitas de combate urbano. Reparei que na estreia muita gente esperava algo do género e saiu claramente desiludida. Esta verdadeira viagem a outro mundo, o “universo paralelo” anunciado no título, é antes um olhar para a vida dos habitantes do Complexo.

Os irmãos Mário e Pedro Patrocínio, respectivamente o realizador e o director de fotografia do filme, chegaram ao Complexo do Alemão em 2005 depois de um convite para fazer um teledisco do músico de ‘funk’ MC Playboy. Essa experiência levou-os a frequentar a favela e a realizar várias entrevistas com moradores que captassem as várias realidades e histórias locais. Desse conjunto escolheram quatro personagens representativas. Opróprio MC Playboy, “funkeiro” que é um símbolo cultural da comunidade, preocupado mais com a consciência social que com o crime. Seu Zé, uma espécie de ancião respeitado e influente, que preside à Associação de Moradores e é um conhecedor profundo desta favela que viu crescer. Dona Célia, uma mãe de oito filhos que sobrevive graças à sua “é em Deus”, como ela diz, mas também a uma capacidade de resistência incrível. Vende embalagens para reciclagem para evitar que a família passe fome, incluindo o marido alcoólico que passa a maior parte do dia deitado. Nota-se que é a personagem central, uma imagem paradigmática do ambiente familiar na favela e um exemplo de perseverança. Por fim, os traficantes, jovens que tapam a cara e mostram as suas espingardas automáticas, afirmando estar preparados para tudo, que é como quem diz, a guerra com a polícia.

Os militares por seu turno são filmados como parte da paisagem. Farda camuflada, capacete e arma em punho, normalmente nas esquinas, a controlar os movimentos. A fazer lembrar, por exemplo, soldados israelitas numa operação na Faixa de Gaza.

Um filme bem construído que sai da reportagem sobre troca de tiros, mas que também podia ter ido mais longe. Um olhar interessante sobre um sentimento de fronteira entre dois mundos: o das favelas e o lá de fora. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]