Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cinema. Mostrar todas as mensagens
Pobreza, família, dever
“O Gebo e a Sombra”, o mais recente trabalho de Manoel de Oliveira, foi apresentado pela primeira vez no Festival de Veneza e depois em Paris, onde a Cinemateca Francesa organiza uma retrospectiva integral da obra do cineasta português, que começou no passado dia 6 de Setembro e terminará no dia 22 de Outubro.
Entre nós, o filme teve a sua antestreia nacional no Palácio de S. Bento, no dia 19 de Setembro, numa homenagem que a Assembleia da República prestou ao realizador, que esteve presente apesar dos seus 103 anos de idade, e que assinalou também a abertura do novo ano parlamentar. O espaço encheu-se com as cerca de duzentas pessoas onde se incluíam, para além da Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, alguns deputados e actores, vários jovens curiosos em relação a um dos maiores vultos do cinema mundial.
Baseado numa peça de Raul Brandão, de 1923, a história passa-se no século XIX e versa sobre a pobreza, a família e o respectivo sentido de dever e de sacrifício. Manoel de Oliveira afirmou que “apesar de a peça ser do século passado adapta-se facilmente à nossa situação actual, tanto ética como economicamente, sem preconceitos. Pelo contrário, continua a ser contemporânea e universal”.
O elenco é de peso e conta com a participação de Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e do neto do realizador, Ricardo Trêpa. A realização é sóbria e formal, optando pela alternância de planos e pela ausência de movimento de câmara, fiel a um registo teatral que já marcou outros filmes de Oliveira. Mais uma obra a apreciar, do nosso centenário cineasta que é um dos maiores nomes da sétima arte contemporânea. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
Entre nós, o filme teve a sua antestreia nacional no Palácio de S. Bento, no dia 19 de Setembro, numa homenagem que a Assembleia da República prestou ao realizador, que esteve presente apesar dos seus 103 anos de idade, e que assinalou também a abertura do novo ano parlamentar. O espaço encheu-se com as cerca de duzentas pessoas onde se incluíam, para além da Presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o secretário de Estado da Cultura, Francisco José Viegas, alguns deputados e actores, vários jovens curiosos em relação a um dos maiores vultos do cinema mundial.
Baseado numa peça de Raul Brandão, de 1923, a história passa-se no século XIX e versa sobre a pobreza, a família e o respectivo sentido de dever e de sacrifício. Manoel de Oliveira afirmou que “apesar de a peça ser do século passado adapta-se facilmente à nossa situação actual, tanto ética como economicamente, sem preconceitos. Pelo contrário, continua a ser contemporânea e universal”.
O elenco é de peso e conta com a participação de Claudia Cardinale, Jeanne Moreau, Michael Lonsdale, Leonor Silveira, Luís Miguel Cintra e do neto do realizador, Ricardo Trêpa. A realização é sóbria e formal, optando pela alternância de planos e pela ausência de movimento de câmara, fiel a um registo teatral que já marcou outros filmes de Oliveira. Mais uma obra a apreciar, do nosso centenário cineasta que é um dos maiores nomes da sétima arte contemporânea. [publicado na edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
Horas a mais
Desta vez o seu “127 Horas” deu que falar pelas seis nomeações para os Óscares, com seis nomeações, incluindo a categoria de Melhor Filme e Melhor Actor. Ficou, no entanto, de mãos a abanar... e bem. Ainda que, como muitos adiantaram a mera nomeação é por vezes um prémio. A ser assim, nem isso merecia.
Outro atractivo do filme é o facto de se basear numa história real. Ainda para mais numa impressionante história de resistência, cujo real protagonista considerou estar até bem reproduzida, excepto por alguns pormenores iniciais. Mas aí está, parece mesmo que estamos perante uma daquelas reconstituições que normalmente se vêem nos programas especializados de sobrevivência dos canais de documentários. E o melhor, talvez, fosse ter-se cingido a essa meia hora televisiva...
Ora a história é mais ou menos conhecida e simples. O aventureiro “radical” e escalador Aron Ralston (James Franco), num passeio sozinho no deserto rochoso do Utah, acaba preso num estreito desfiladeiro por uma rocha que lhe esmaga a mão e parte do antebraço. O final também é conhecido, pelo que fazer um filme sobre este caso extremo só poderia centrar-se no aspecto humano profundo do protagonista. Tal não acontece.
Apesar de muito louvada, a prestação de Franco não é impressionante. Mas, há que dizê-lo, com as condições que lhe deram, como fazer mais? E será que, mesmo assim, o conseguiria?
Para evitar, em vão, uma seca monumental, o realizador optou pelo pior. Um exagero de ecrãs divididos incompreensíveis, uma acção acelerada sem sentido, uma série de ‘flashbacks’ com personagens de quem pouco ou nada se sabe, sonhos que nos levam para a frente e para trás, como quem nos abana para não adormecermos. Tudo isto com a uma inexplicável ligeireza que passa ao ritmo de um anúncio publicitário de uma bebida energética ou de um teledisco de um qualquer ‘top’ de vendas da MTV.
Houve uma única frase que me ficou deste filme. Quando Aron tenta escavar a rocha que lhe prende o braço recorrendo à lâmina do pequeno alicate que trazia na mochila diz: “Uma lição: não comprem a ferramenta multifunções barata fabricada na China. Eu tentei encontrar o meu canivete suíço, mas...”
Não se iluda. Esta é uma estopada tal que o filme parece demorar o tempo que lhe dá título... Poupe-se ao sofrimento de tentar amputar o braço para sair da sala. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
Enfrentar o destino
Desta vez foi a escolha de estreia de George Nolfi, já conhecido como argumentista – o seu mais recente trabalho de escrita foi o último filme da série Bourne, “Ultimato” (2007) –, como realizador. Adaptou o conto “Adjustment Team”, de 1954, e dirigiu um filme que deixa a desejar. O que podia ser uma bela incursão no género ‘sci-fi’, torna-se um ‘thriller’ romântico. Um exercício de entretenimento mais próprio para uma tarde de domingo. Tal não é necessariamente mau, já que a prestação dos protagonistas é boa e certos pormenores evitam o enfado.
Matt Damon, que tem aparecido frequentemente em grandes produções, confirma o seu talento de como actor multifacetado e a dupla que faz com Emily Blunt resulta bastante bem.
A história mostra-nos o jovem e ambicioso político David Norris (Matt Damon), em plena campanha eleitoral e a caminho de um promissor futuro. Depois de um percalço que o desvia de uma vitória anunciada, conhece a bela bailarina contemporânea Elise Sellas (Emily Blunt) que não lhe sai da cabeça. Parecem destinados um ao outro, mas de quem depende o destino?
Cedo Norris descobre acidentalmente, para sua total estupefacção, que há agentes do destino que têm como missão assegurar que tudo se mantenha “de acordo com o plano”. Para tal trabalham em equipa e dispõem de vários poderes. Um deles é a impressionante facilidade das passagens espácio-temporais que lhes permitem “saltar” de um lado para outro com óbvia vantagem sobre o perseguido. Este é um pormenor interessante, já que a forma de entrar nestes canais é através de portas que aparentam ser normais. Outro ponto curioso é o do guarda-roupa bem conseguido destes agentes, sempre de chapéu, num estilo algo ‘fifties’.
Decididos a cumprir a sua missão, que não questionam, os agentes vão perseguir os protagonistas acelerando a acção do filme numa corrida de tirar o fôlego que nos leva, infelizmente, a um final fraco e mais que previsível.
O ponto forte está nas questões maiores que toda a história levanta e que o realizador-argumentista parece relegar, a medo, para segundo plano. Será que o livre-arbítrio condena a humanidade? O homem contra quem o controla, contra quem lhe delineou os planos. Contra toda uma máquina que assegura o cumprimento desses planos previamente delineados. Pode o homem alterar o seu destino? E quando o amor se atravessa no caminho... Pode o amor mudar o destino? [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
O western vive
Para fazer um clássico moderno, recorreram a outro clássico, o romance “True Grit”, de Charles Portis, que deu origem ao filme “Velha Raposa” (1969), de Henry Hathaway, que deu o Óscar a John Wayne. O resultado não podia ter sido melhor e os Coen conseguiram mostrar que o ‘western’ é um género que ainda vive.
O protagonista deste história é Rooster Cogburn (Jeff Bridges), um ‘marshall’ do Oeste norte-americano com um currículo que fala por si, mas com um feitio dos diabos, dedo leve no gatilho e uma tendência para o abuso do álcool. Até ele chega Mattie Ross (Hailee Steinfeld) uma jovem de 14 anos que o contrata para encontrar Tom Chaney (Josh Brolin), o ladrão que matou o seu pai, para o trazer à justiça. Apesar da sua tenra idade, ela revela-se muito hábil no duro mundo dos adultos e determinada a conseguir o que quer. Atrás de Chaney anda também Laboeuf (Matt Damon), um ‘ranger’ do Texas que se junta nesta caça ao homem e à recompensa, com um estilo totalmente diferente de Rooster. É a partir desse triângulo que se forma que se desenvolve toda a acção do filme.
Os desempenhos do veterano Jeff Briges - o ‘Dude’ de “O Grande Lebowsky” - e da jovem Hailee Steinfeld são magistrais. Ele confirma da melhor forma e com todo o à vontade o grande actor que é. Ela deixa-nos pasmados com tamanho talento e espantosa segurança numa actriz tão nova que agora inicia uma carreira, que será certamente promissora.
Nesta verdadeira ode ao pioneirismo e à fundação da América encontramos todos os elementos do ‘western’, da sessão pública de enforcamento à cena num ‘saloon’, na cidade, e das planícies às montanhas. Temos heróis e bandidos, tiros e cavalgadas, coragem e enganos. E, para terminar, um final fabuloso.
Esquecido nos Globos de Ouro, parecia que as 10 nomeações para os Óscares, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado, Melhor Actor Principal e Melhor Actriz Secundária, consagrariam “Indomável”. Tal não aconteceu e o filme saiu da cerimónia de mãos a abanar. Por seu lado, os realizadores viram os seus bolsos cheios com aquele que está a ser o maior sucesso comercial da sua carreira até agora.
Sem prémios, mas com o reconhecimento do público, este é sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Um grande ‘western’ dos manos Coen, que se espera que continuem indomáveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
Óscares 2011
Para o ano há mais e espera-se que seja melhor (não é difícil). Mesmo para inovar, convém aprender com as boas lições do passado…
Derrotados
“A Rede Social”, com oito nomeações, venceu três, das quais Melhor Argumento Adaptado. Uma justíssima e esperada consagração do notável trabalho de Aaron Sorkin. Mesmo assim, com toda a expectativa criada e ao falhar a merecida melhor realização para David Fincher, é um perdedor.
“Indomável”, o magnífico ‘western’ dos irmãos Coen, com dez nomeações, ficou de mãos a abanar. É pena, porque este foi um dos filmes do ano com representações fantásticas do veterano Jeff Bridges e da jovem Hailee Steinfeld.
A xaropada “127 Horas”, com seis nomeações, também ficou a ver navios… e bem. Ainda que, como muitos disseram, a mera nomeação é por vezes um prémio. Se foi o caso, nem isso merecia.
Na animação, a segunda nomeação de um filme de Sylvain Chomet, o maravilhoso “O Mágico”, perdeu para o forte adversário da casa “Toy Story 3”.
Vencedores
“O Discurso do Rei”, foi o grande vencedor da noite. Apesar de só conseguir quatro das doze estatuetas para as quais estava nomeado, foi considerado o Melhor Filme, contra uma concorrência de peso, Tom Hooper conseguiu ser reconhecido como Melhor Realizador e Colin Firth como Melhor Actor, não esquecendo o prémio de Melhor Argumento Original para David Seidler.
“A Origem”, de Christopher Nolan, filme que sinceramente me desiludiu, acabou por ganhar quatro das oito categorias para as quais tinha sido seleccionado. Apesar de serem mais técnicas, não deixa de ser uma vitória.
No documentário “Inside Job – A Verdade da Crise”, um merecidíssimo reconhecimento do trabalho corajoso de Charles Ferguson sobre os responsáveis pela actual crise financeira.
Natalie Portman, contrariando certas críticas, venceu justa e esperadamente o Óscar para a Melhor Actriz, pelo seu desempenho em “Cisne Negro”. Foi a única estatueta das cinco nomeações deste filme de Darren Aronofsky.
“The Fighter – O Último Round”, acabou também por ser o vencedor dos papéis secundários. Premiando os belos desempenhos de Christian Bale e Melissa Leo. Curisoamente tiveram os melhores discursos da noite. O dele bastante sincero e o dela tão admirada que até soltou “the f word”, como dizem os americanos. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
O amigo do Rei
Tom Hooper, que já havia experimentado o género histórico com as mini-séries “Elizabeth I” (2005) e “John Adams” (2008), realiza um filme mais íntimo, longe de uma grandeza que alguns esperariam, por se passar num período crucial na História da Europa.
Nos anos 30 do século XX, na iminência da Segunda Guerra Mundial, o poder da rádio revela-se da maior importância para a afirmação do soberano perante as massas. A seguir à gravação de uma mensagem de Natal, o rei Jorge V tem um diálogo com o seu segundo filho, o príncipe Alberto, duque de York, no qual chegam à conclusão de que se “tornaram actores”... A rádio é considerada por muitos, à época, como uma verdadeira “caixa de Pandora”, mas é impossível ignorá-la.
No entanto, o príncipe é atormentado pela sua gaguez desde criança, algo que agora se revela um problema ainda maior. A duquesa incita-o a consultar todos os especialistas da área, mas sem êxito. Finalmente, decide recorrer a um terapeuta da fala australiano, cujos métodos são no mínimo estranhos e incluem palavrões e exercícios físicos.
Com a morte do seu pai e a abdicação do seu irmão, o futuro Jorge VI depende directamente de Lionel Logue (Geoffrey Rush) para ultrapassar o seu impedimento de comunicação. Durante os tratamentos desenvolve-se entre ambos uma intimidade que resultará numa amizade profunda. Mas até aí chegar, o caminho será sinuoso. Para além da distinção de classe entre um membro da família real e um súbdito, Logue é um “aussie”, um “colonial”, algo que o situa na base da estrutura social da altura. Por outro lado, este terapeuta excêntrico apercebeu-se pela experiência que a gaguez tem causas psicológicas e consegue entrar na traumatizante adolescência de um príncipe que está longe de ser uma “história de princesas”.
O papel de Jorge VI, notoriamente difícil, é esplendidamente representado por Colin Firth, bem acompanhado pelos desempenhos de Geoffrey Rush e de Helena Bonham Carter.
Etiquetas:
cinema
O LADO NEGRO
O primeiro filme de Darren Aronofsky que vi foi “A vida não é um sonho” (2000), uma viagem alucinante ao vício e à espiral descendente da degradação humana e nunca mais esqueci o nome deste realizador. Anos depois, em 2008, voltaria a surpreender com o excelente “Wrestler”, onde Mickey Rourke interpretou magistralmente um lutador em fim de carreira. Foi, assim, com certa expectativa que vi “O Cisne Negro”, filme que levou Aronofsky de novo ao mundo do espectáculo e suscitou críticas antagónicas, quase numa oposição amor/ódio.
A história desenrola-se em Nova Iorque, no seio de uma companhia de ‘ballet’. Preparando o início da nova temporada, o director, Thomas Leroy (Vincent Cassel), faz um ‘casting’ para a escolha da substituta da anterior estrela, Beth MacIntyre (Winona Ryder). Nesta produção de “O Lago dos Cisnes”, a protagonista tem que desempenhar tanto o papel de Cisne Branco como o de Cisne Negro. A jovem e dedicada Nina Sayers (Natalie Portman) desperta a atenção do director, pela sua técnica e desempenho como Cisne Branco. No entanto, ele hesita em seleccioná-la, duvidando que ela consiga ultrapassar a sua rigidez para atingir a paixão necessária para representar o Cisne Negro.
Ela acaba por conseguir o lugar, para grande felicidade da sua mãe omnipresente e controladora da sua carreira. Mas o caminho para a revelação do seu “lado negro” está longe de ser fácil. A tensão entre ela e Thomas cresce, ao mesmo tempo que, como uma sombra, uma bailarina recém-chegada à companhia, Lily (Mila Kunis), a começa a atormentar.
Esta busca desse lado mais solto, mais apaixonado, há que largar certas restrições. Romper com a rapariga “certinha” e dar asas ao sentimento. Este processo implica uma perda da inocência. Uma transformação. O romper com uma ordem estabelecida.
Tudo isto se passa ao som de uma banda sonora baseada na obra de Tchaikovsky, no ritmo gracioso do bailado e com uma representação de suster a respiração por parte de Natalie Portman. Alguma da crítica falou de ‘overacting’, mas na minha opinião ela encarna perfeitamente a personagem.
Na realização, Aronofsky continua com a sua “câmara ao ombro” que funciona muito bem. O mesmo não se pode dizer quando descai para um registo mais próximo do terror. A coisa não sai bem e era melhor ter-se mantido no ‘suspense’ puro e duro. Por falar nisso, há na história um jogo de espelhos que é transposto literalmente para a tela. As alucinações de Nina são, assim, sentidas pelo público.
Todo este tormento é uma transformação. Todo este percurso é uma busca da perfeição. Esta é a mensagem do filme. Até onde estamos dispostos a ir pela perfeição? O que estamos dispostos a mudar para atingir um fim? Mesmo que esse seja o nosso lado negro... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
A história desenrola-se em Nova Iorque, no seio de uma companhia de ‘ballet’. Preparando o início da nova temporada, o director, Thomas Leroy (Vincent Cassel), faz um ‘casting’ para a escolha da substituta da anterior estrela, Beth MacIntyre (Winona Ryder). Nesta produção de “O Lago dos Cisnes”, a protagonista tem que desempenhar tanto o papel de Cisne Branco como o de Cisne Negro. A jovem e dedicada Nina Sayers (Natalie Portman) desperta a atenção do director, pela sua técnica e desempenho como Cisne Branco. No entanto, ele hesita em seleccioná-la, duvidando que ela consiga ultrapassar a sua rigidez para atingir a paixão necessária para representar o Cisne Negro.
Ela acaba por conseguir o lugar, para grande felicidade da sua mãe omnipresente e controladora da sua carreira. Mas o caminho para a revelação do seu “lado negro” está longe de ser fácil. A tensão entre ela e Thomas cresce, ao mesmo tempo que, como uma sombra, uma bailarina recém-chegada à companhia, Lily (Mila Kunis), a começa a atormentar.
Esta busca desse lado mais solto, mais apaixonado, há que largar certas restrições. Romper com a rapariga “certinha” e dar asas ao sentimento. Este processo implica uma perda da inocência. Uma transformação. O romper com uma ordem estabelecida.
Tudo isto se passa ao som de uma banda sonora baseada na obra de Tchaikovsky, no ritmo gracioso do bailado e com uma representação de suster a respiração por parte de Natalie Portman. Alguma da crítica falou de ‘overacting’, mas na minha opinião ela encarna perfeitamente a personagem.
Na realização, Aronofsky continua com a sua “câmara ao ombro” que funciona muito bem. O mesmo não se pode dizer quando descai para um registo mais próximo do terror. A coisa não sai bem e era melhor ter-se mantido no ‘suspense’ puro e duro. Por falar nisso, há na história um jogo de espelhos que é transposto literalmente para a tela. As alucinações de Nina são, assim, sentidas pelo público.
Todo este tormento é uma transformação. Todo este percurso é uma busca da perfeição. Esta é a mensagem do filme. Até onde estamos dispostos a ir pela perfeição? O que estamos dispostos a mudar para atingir um fim? Mesmo que esse seja o nosso lado negro... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
ALÉM
Reza a história que Steven Spielberg conseguiu que Eastwood lesse o argumento de Peter Morgan e se decidisse a fazer este filme que estava na calha há algum tempo. Será porque o realizador, agora octogenário, se preocupa mais com a morte? Interrogações a deixar aos especuladores habituais…
Nesta “Outra Vida”, são apresentadas três histórias que logo se percebe que se vão inevitavelmente cruzar. Por um lado temos a personagem mais bem conseguida, George Lonnegan (Matt Damon), um homem simples que consegue comunicar com o além e que já fez disso negócio com a ajuda do irmão interesseiro. Considera que o seu “dom” é na realidade uma maldição que o impede de levar uma vida normal. Abandonou as “leituras” e prefere trabalhar como operário. No entanto, não é tão fácil assim fugir do seu talento. Depois, há os dois gémeos ingleses de 12 anos, Marcus e Jason (Frankie e George McLaren), que vivem com a mãe drogada e alcoólica, controlada pelas autoridades. Jason morre atropelado e o irmão não descansa enquanto não consegue entrar em contacto com ele. Essa busca proporciona alguns momentos engraçados quando Marcus consulta certos charlatães que abundam neste meio. Por fim, a personagem mais fraca, Marie Lelay (Cécile de France), uma jornalista francesa com uma carreira de sucesso e a quem a vida corre de feição, que sobrevive a um ‘tsunami’ enquanto está na Tailândia. Essa experiência de quase-morte vai alterá-la para sempre e fá-la iniciar uma pesquisa sobre as provas científicas de que é possível comunicar com o além.
A fantástica cena do ‘tsunami’, que abre o filme, está muito bem conseguida e realizada. Confere alguma espectacularidade sem cair no exagero. É para isto que servem os efeitos especiais.
Quanto ao lado politicamente incorrecto de Clint, não deixa de aparecer, ainda que pontualmente. É o caso do atentado no metro de Londres ou a cena em que a professora de Marcus o manda tirar o boné dentro da aula, quando ao seu lado está uma rapariga muçulmana trajando o seu ‘hijab’…
Por último, foi na conferência de imprensa dada no New York Film Festival, em Outubro do ano passado, aquando da estreia deste filme, que Clint Eastwood referiu o nosso mestre cinematográfico Manuel de Oliveira. Disse ele: “há aquele realizador português que tem mais de cem anos e continua a fazer filmes. Eu tenciono fazer a mesma coisa!” Esperemos que sim. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
VIAGEM A OUTRO MUNDO
O documentário português “Complexo – Universo Paralelo”, que está agora em cartaz, beneficia muito de toda essa publicidade. Muita da sua promoção e até o próprio ‘trailer’ põem a ênfase nos “bandidos” e na violência. Mas atenção, o filme está longe de ser um exercício de câmara oculta ou uma colecção de imagens explícitas de combate urbano. Reparei que na estreia muita gente esperava algo do género e saiu claramente desiludida. Esta verdadeira viagem a outro mundo, o “universo paralelo” anunciado no título, é antes um olhar para a vida dos habitantes do Complexo.
Os irmãos Mário e Pedro Patrocínio, respectivamente o realizador e o director de fotografia do filme, chegaram ao Complexo do Alemão em 2005 depois de um convite para fazer um teledisco do músico de ‘funk’ MC Playboy. Essa experiência levou-os a frequentar a favela e a realizar várias entrevistas com moradores que captassem as várias realidades e histórias locais. Desse conjunto escolheram quatro personagens representativas. Opróprio MC Playboy, “funkeiro” que é um símbolo cultural da comunidade, preocupado mais com a consciência social que com o crime. Seu Zé, uma espécie de ancião respeitado e influente, que preside à Associação de Moradores e é um conhecedor profundo desta favela que viu crescer. Dona Célia, uma mãe de oito filhos que sobrevive graças à sua “é em Deus”, como ela diz, mas também a uma capacidade de resistência incrível. Vende embalagens para reciclagem para evitar que a família passe fome, incluindo o marido alcoólico que passa a maior parte do dia deitado. Nota-se que é a personagem central, uma imagem paradigmática do ambiente familiar na favela e um exemplo de perseverança. Por fim, os traficantes, jovens que tapam a cara e mostram as suas espingardas automáticas, afirmando estar preparados para tudo, que é como quem diz, a guerra com a polícia.
Os militares por seu turno são filmados como parte da paisagem. Farda camuflada, capacete e arma em punho, normalmente nas esquinas, a controlar os movimentos. A fazer lembrar, por exemplo, soldados israelitas numa operação na Faixa de Gaza.
Um filme bem construído que sai da reportagem sobre troca de tiros, mas que também podia ter ido mais longe. Um olhar interessante sobre um sentimento de fronteira entre dois mundos: o das favelas e o lá de fora. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
UMA HISTÓRIA DE AMOR
É exactamente sobre os últimos tempos da vida de Tolstoi que trata “A Última Estação”, longa-metragem realizada por Michael Hoffman, que também escreveu o argumento a partir do romance homónimo de Jay Parini, publicado em 1990.
O filme debruça-se especialmente sobre a questão da cedência dos direitos de autor de Tolstoi ao domínio público, tal como queria Vladimir Chertkov (Paul Giamatti), amigo do escritor e fundador dos Tolstoianos. Tais intenções iam contra a vontade da mulher de Tolstoi, a condessa Sophia Tolstaya, interessada em garantir os rendimentos familiares e um estilo de vida aristocrático. Esta disputa vai pôr em causa a relação e o amor entre Tolstoi e a sua esposa e gerar inúmeros conflitos dentro da família e do movimento.
A meio deste turbilhão surge um novo elemento, Valentin Bulgakov (James McAvoy), recém-nomeado secretário de Tolstoi, seguidor dos seus ensinamentos e grande admirador da sua obra. Privando tanto com o escritor como com a sua mulher, a sua fidelidade acaba por ser dividida e tenta, dentro do possível, atenuar a tensão.
Apesar de tolstoiano, Bulgakov começa a interrogar-se sobre várias das posições do movimento e atitudes dos seus dirigentes, ao mesmo tempo que se apaixona por Masha (Kerry Condon), outra tolstoiana com dúvidas. Mas é o próprio Tolstoi que faz com que Bulgakov se questione, quando por exemplo lhe diz, depois de contar peripécias de juventude, “eu não sou lá um grande tolstoiano”.
Essa é talvez a parte mais interessante desta história, a reflexão sobre a concretização de um movimento e a vontade e posição da sua figura de referência. Até que ponto os seguidores o seguem realmente? Serão, como reza o ditado popular, mais papistas que o Papa?
Neste filme de época, com uma realização que cumpre, há a destacar as soberbas interpretações dos dois protagonistas Christopher Plummer, no papel de Tolstoi, e Helen Mirren, no papel de Sophia Tolstaya, que lhes valeram nomeações para os Óscares.
Por fim, para aqueles impacientes que saltam das cadeiras mal acaba a acção, chamo a atenção para não o fazerem. Durante o filme vemos que Tolstoi estava constantemente a ser filmado no seu dia-a-dia, o que gera uma curiosidade natural em ver as imagens originais. Acontece que essa curiosidade é satisfeita, pois várias dessas passagens acompanham os créditos finais. Uma oportunidade para comparar com o que acabámos de ver. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
SIMPLESMENTE MÁGICO
Que belíssima surpresa é encontrar nas salas nacionais uma obra de animação cinematográfica europeia, mais concretamente franco-britânica, dirigida por um realizador talentoso como Sylvain Chomet, que nos maravilhou com “Belleville Rendez-vous” (2003). Se tudo isto não for suficiente, acrescente-se que este filme é baseado num argumento original de Jacques Tati e traz-nos uma história simples mas tocante.
Foi a filha de Tati, Sophie Tatischeff, que levou Chomet a este argumento que o seu pai escrevera com Henri Marquet em finais dos anos 50 do século passado. A história era demasiado pessoal e, supostamente, para ser representada por ela e por Tati. Contava-nos o fim de carreira de um ilusionista francês que, fazendo espectáculos em locais decadentes para sobreviver, acabava por ir para Praga, onde encontrava uma rapariga que acredita na sua magia e com quem desenvolve uma relação pai-filha, mudando a sua vida. Sophie acabou por achar que esta “carta de amor” do seu pai ficaria bem em versão animada e que Chomet era a pessoa certa para o fazer. Ela morreu antes de o realizador ter iniciado o projecto, mas os responsáveis pelo espólio de Tati mantiveram a autorização.
Há que referir uma controvérsia à volta das intenções originais, suscitada pela filha mais velha de Tati, Helga Marie-Jeanne Schiel, ainda viva, que afirmou que esta era uma tentativa de reconciliação do seu pai com ela. Chomet discorda e disse que nunca chegou a conhecer Sophie, mas que pensava que Tati o havia escrito para ela devido à culpa que sentia por estar afastado dela enquanto trabalhava.
Voltando a este “Mágico”, não é só nas semelhanças físicas do ilusionista do filme que vemos o próprio Tati. Este tem mesmo o seu nome completo: Tatischeff. No entanto, há mais nesta personagem do que a sua reprodução mimética.
Nesta versão, Chomet trocou a Checoslováquia do argumento original pela Escócia onde tem o seu estúdio, mas a visão poética e melancólica sobre a passagem do tempo nada perde com isso. Edimburgo proporciona até um duplo ‘cameo’, quando Tatischeff entra num cinema e vê projectado o filme de Tati “O Meu Tio” (1958). Esse cinema existe ainda hoje e chama-se Cameo.
A opção da animação tradicional, com um recurso mínimo ao digital, confere uma autenticidade ao filme que é profundamente sentida. Os escassos diálogos, as pequenas imperfeições das personagens, as magníficas paisagens, os pormenores, o movimento compassado, podem ser apreciados nesta obra que se desenrola tal e qual como o tempo da história que conta. Uma passagem do tempo intemporal. Para ver e rever. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
STONED
O cartaz anuncia três estrelas de peso: Robert De Niro, Edward Norton e Milla Jovovich. A frase promocional aumenta-nos a curiosidade ao dizer que: “Algumas pessoas contam mentiras. Outras vivem-nas.” O ‘trailer’ faz-nos esperar um ‘thriller’ movimentado, que nunca chega a acontecer.
De início, a coisa promete. Ficamos a saber que há em Jack Mabry (Robert De Niro) um lado sombrio que contrasta com o agente de liberdade condicional à beira da reforma, com a imagem de funcionário e cidadão exemplar, que trabalha num estabelecimento prisional. A sua rigidez inabalável e o controlo do seu poder de decidir a quem pode abrir as portas para a liberdade antecipada vão ser postas em causa por Gerald Creeson (Edward Norton) – que anuncia prontamente que preferem que o tratem por “Stone”. O primeiro encontro entre ambos é um diálogo simplesmente formidável. Vendo que dificilmente convencerá Mabry a libertá-lo, “Stone” faz com que a sua mulher Lucetta (Milla Jovovich) o seduza e isso vai libertar um jogo de enganos, intenções cifradas e passados ocultos.
Como referi, de início parece que estamos a ver um ‘thriller’, mas o filme depressa parece tornar-se um exercício psicológico, para enveredar por um caminho metafísico, com uma tentativa de drama sobre o sentido da vida e a presença divina. O pior é que a realização reflecte esta confusa evolução, com uma construção atabalhoada e um ritmo incerto.
Voltando às representações, tenho que dizer que nos papéis principais estão dois dos actores norte-americanos, de diferentes gerações, que mais aprecio. O velho mestre De Niro continua em grande forma e apesar de tudo consegue proporcionar momentos maravilhosos, dos simples olhares aos estados de irritação. É incrível como consegue acrescentar sempre qualquer coisa às personagens. Não se limita a encarná-las, mas a conferir-lhes algo de próprio, que conseguimos identificar.
Por outro lado, Norton parece inicialmente uma antítese de Derek, o ‘skinhead’ de “América Proibida” (1998), também encarcerado. Desta vez é aquilo a que se chama (não simpaticamente) um ‘wigger’, ou seja um branco que se comporta como um negro, no vestir, no falar, no agir. Fenómeno que se espalhou dos EUA para o resto do Ocidente, tem no Michigan – estado onde se desenrola a acção deste filme –, especialmente em Detroit, grande incidência. É nestes opostos que se distingue, acima da capacidade, o talento de um actor.
“Stone”, pelo nome, podia ser uma pedrada, mas infelizmente pouco mais é que um inerte. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
PLAMEGATE
Em 2003, a administração Bush, ansiosa por atacar o Iraque, manipulou as informações que tinha sobre a investigação acerca de um possível programa nuclear iraquiano para o fabrico de armamento. Nessa altura, Valerie Plame era uma operacional da CIA, especificamente na área de não-proliferação, cuja missão, entre outras, era garantir que o Iraque não tivesse acesso a armas nucleares. Muito bem relacionada no meio e profunda conhecedora dos movimentos comerciais, afirmou desde o início que os famosos tubos de alumínio comprados pelo Iraque não serviam para o enriquecimento nuclear. Ao mesmo tempo, começam a haver suspeitas de que o Iraque havia comprado quantidades significativas de urânio para produção nuclear, conhecido como ‘yellowcake’, ao Níger. A CIA contratou o antigo diplomata e embaixador Joe Wilson para investigar, que chegou à conclusão que tal era impossível. Quando se apercebeu que as suas investigações haviam sido ignoradas e até deturpadas, publicou um artigo no “New York Times” intitulado “O que eu não encontrei em África”, para repor a verdade.
O problema é que Wilson era marido de Valerie... O gabinete do vice-presidente Dick Cheney, nomeadamente através do seu conselheiro “Scooter” Libby, decidido a eliminar quem se opusesse à teoria das AMD, passou informações ao jornalista Robert Novak, do “Washington Times”, que publicou um artigo denunciando publicamente Valerie como agente. Aí começou um verdadeiro pesadelo.
“Jogo Limpo” é baseado tanto no livro de Valerie Plame, “Fair Game: My Life as a Spy, My Betrayal by the White House”, publicad em 2007 e em “The Politics of Truth. Inside the Lies that Led to War and Betrayed My Wife's CIA Identity: A Diplomat's Memoir”, da autoria do seu marido, publicado três anos antes.
Tal explica porque este filme, que poderia ser um belíssimo ‘thriller’ político se fique mais por um relato de vida e uma história sobre a “luta pela verdade”, bem ao estilo norte-americano.
Na realização, Doug Liman, que recentemente nos trouxe o interessante segundo filme da série Bourne, “Identidade Desconhecida” (2002), mas também o insuportável “Mr. e Mrs. Smith” (2005), cumpre sem arriscar. Esta é uma obra que assenta fundamentalmente nas excelentes representações dos dois actores principais, Naomi Watts e Sean Penn, e no interesse nesta história de uma mulher que por detrás de uma vida normal era uma espia, algo na realidade bem diferente do retratado em tanta ficção. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
PRESO NO MOTIM
Êxito cinematográfico no país vizinho, onde ultrapassou os dois milhões de espectadores e arrecadou oito prémios Goya, este ‘prison movie’ conquistou o público com o seu realismo e intensidade que prendem a atenção até ao final.
Juan Oliver (Alberto Ammann) é um guarda prisional que vai iniciar funções e quer causar boa impressão desde o princípio. Para tal, decide ir ao estabelecimento onde foi colocado na véspera do seu primeiro dia de trabalho para ver como tudo funciona. Durante a visita com dois colegas é atingido por um pedaço do tecto que lhe cai na cabeça. Inconsciente, é levado para a cela 211, quando ao mesmo tempo se desencadeia um motim na prisão. À frente desta onda de violência está o implacável Malamadre (Luis Tosar) e tudo se afigura aterrador para Juan. Mas o jovem funcionário, no desespero de sobreviver, decide tentar a única coisa que o pode salvar – fazer-se passar por um dos detidos. Este jogo arriscado vai-se tornando cada vez mais perigoso, ao mesmo tempo que Juan vai conquistando a confiança dos reclusos, do seu líder e subindo na hierarquia dos amotinados. Até aqui a história é interessante, mas podia não passar apenas disso. Felizmente, há um ‘twist’ que nos leva a pensar nas nossas motivações e em como estas podem mudar num ápice perante alterações de fundo. Quem somos realmente? O que conseguimos fazer?
No campo da representação, destaque natural para o notável trabalho de Luis Tosar no papel do carismático líder dos detidos. Este actor galego encarna muito bem Malamadre, personagem bem construída que reflecte um homem violento, duro e impiedoso, mas ainda assim seguidor de um código de honra próprio, cuja autoridade agressivamente mantida é reconhecida pelos demais. Referência também para Alberto Ammann que, tal como a sua personagem, se vai revelando ao longo do filme, proporcionando uma óptima evolução, essencial para a história.
Ao ver esta viagem ao mundo prisional espanhol, não pude deixar de recordar um filme de que aqui falei quando estreou no início deste ano. Trata-se de “Um profeta” (2009), do francês Jacques Audiard, um outro olhar sobre os cárceres europeus no qual há alguns pontos em comum interessantes. Há em ambos a presença de membros de grupos terroristas, mas o pormenor mais interessante é a actual composição étnica, nomeadamente os gangues provenientes da imigração que têm cada vez mais força e poder.
Um filme europeu com bastante acção e a capacidade de atrair o grande público, mas nem por isso a desprezar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]
Etiquetas:
cinema
Subscrever:
Mensagens (Atom)



















