TERROR EM LISBOA


Começa amanhã a 4.ª edição do “MOTELx”, o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que decorrerá até ao próximo Domingo. Organizado pelo CTLX – Cineclube de Terror de Lisboa, é desde 2007 um espaço de convívio e descoberta pensado para todos os que procuram novos autores, novos filmes e novas abordagens a este género.
O festival terá cinco secções, sendo o “Serviço de Quarto” o espaço dedicado Às longas-metragens, onde este ano sobressai a produção britânica, mas onde podemos também ver filmes vindos de outros países europeus, ou mesmo da Tailândia ou da Austrália. No “Culto dos Mestres Vivos”, dedicado ao norte-americano George A. Romero, que será o grande convidado desta edição, será feita uma retrospectiva da obra cinematográfica do realizador e mostrado o seu mais recente filme “Survival of the Dead”.

A secção “Japão Retro” exibirá três clássicos do cinema de terror japonês seleccionados. Ao “Quarto Perdido”, secção criada no ano passado e que procura as raízes do cinema de terror português, caberá a responsabilidade das honras da sessão de abertura com uma obra portuguesa em antestreia absoluta, “Noite Sangrenta”, realizada por Tiago Guedes e Frederico Serra, uma co-produção entre a RTP e a produtora David & Golias, por ocasião das comemorações do Centenário da República Portuguesa.

Para a secção “Curtas Internacionais”, foram escolhidas 19 curtas-metragens internacionais de 14 países diferentes, do Canadá à Coreia do Sul, do Brasil à Macedónia, da Irlanda à Letónia, que serão exibidas nas sessões do Festival, em complemento das longas-metragens, mas este ano também à hora de almoço. Por fim, o “Prémio MOTELx - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2010”, será disputado entre 12 curtas-metragens, produções e co-produções portuguesas, num total de 149 minutos de terror nacional. O Júri será composto por Alan Jones, crítico de renome internacional e especialista em cinema de terror, José de Matos-Cruz, crítico e autor, e ainda, José Nascimento, realizador.

Para além do cinema, o MOTELx contará também com uma apresentação do “liZboa”, um videojogo cuja acção irá decorrer na cidade de Lisboa, em ambientes e locais emblemáticos da cidade, retratando uma pandemia zombie com epicentro na capital portuguesa, sendo o jogador colocado no papel de um dos sobreviventes. A apresentação, que será na quinta-feira às 18 horas, incluirá a mostra da primeira curta-metragem “liZboa”, a primeira demo jogável do projecto e uma sessão de perguntas e respostas. A seguir, às 19:15, terá lugar a “Noite de jogos de Terror”.
No contacto com os autores, haverá um painel de discussão, Sábado às 19:15, sobre o “Brit Horror” com o realizador Neil Marshall (“Centurion”, 2010), que lidera uma autêntica invasão britânica, da qual fazem parte os realizadores Gerard Johnson (“Tony”, 2009), também acompanhado de Peter Ferdinando, o actor principal, Christopher Smith (“Triangle”, 2009), Johannes Roberts (“F”, 2010) e Paul Andrew Williams (“Cherry Tree Lane”, 2010), aos quais se Alan Jones, autor, crítico e especialista em cinema de terror, e membro do júri do Prémio MOTELx 2010.
O destaque vai para a sessão de perguntas e respostas com o convidado principal do festival, George A. Romero, que decorrerá no último dia às 16:30. Razões de sobra para ir – como diz o ‘slogan’ do festival – “onde o terror é bem-vindo”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

MOTELx 2010
Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa
Cinema São Jorge, Lisboa.
De 29 de Setembro a 3 de Outubro.
http://www.motelx.org

REGRESSO AO TERROR

Antes de “Até ao Inferno” começar, há um aviso de que vamos viajar no tempo. O logótipo da Universal é antigo e, pelo que confirmei numa pesquisa rápida, contemporâneo dos primeiros filmes da série “Evil Dead”, nos anos 80 do século passado. Um sinal do regresso de Sam Raimi aos filmes de terror que o celebrizaram.

Bem sei que os chamados filmes de terror preenchem um género que, apesar de ser de culto para muitos cinéfilos, está longe de ser do agrado da maioria. No meu caso, durante a adolescência era um ávido consumidor deste tipo de cinema, algo na moda na altura. Se por um lado havia os considerados filmes de terror “a sério”, cujo expoente máximo era uma das obras magistrais de Stanley Kubrick, “The Shining” (1980), por outro havia os de terror-comédia, no qual se enquadravam este primeiros sucessos de Raimi. E como me divertia com os meus amigos a ver estes filmes! Louvávamos a inventividade deste realizador norte-americano em pormenores marcantes como a sangrenta moto-serra de “Evil Dead II” (1987) ou Ash de caçadeira em punho em plena Idade Média, no delirante “Army of Darkness” (1992).

Foi exactamente após este “Exército das Trevas” que Raimi escreveu, em conjunto com o seu irmão Ivan, este filme que ficaria adiado durante muito tempo. Pelo meio, foi realizador, argumentista, actor e produtor, trabalhando não só em cinema, mas também em séries televisivas e jogos de vídeo. Subiu ao cume do sucesso com a trilogia “Homem-Aranha” (2002, 2004 e 2007) e agora voltou às origens.

Desta vez conta-nos a história de uma analista de crédito que, pressionada pelo chefe e motivada pela progressão na carreira, recusa mais um adiamento a uma velha cigana. A mulher, que cumpre todos os requisitos de bruxa feia, ataca-a e roga-lhe uma praga. A partir daí, a vida perfeita de Christine Brown (Alison Lohman) começa a desmoronar-se. No trabalho, na sua relação com um jovem professor universitário, no seu dia-a-dia, começa a ser atormentada por um espírito maligno que a quer arrastar para o Inferno e, para tentar escapar, Christine vai perder os escrúpulos.

Como não podia deixar de ser, estão reunidos todos os ingredientes para um filme de terror convencional, onde iremos cruzar-nos com um parapsicólogo indiano, uma médium hispânica, um demónio assustador e assistir às imprescindíveis cenas nojentas, que incluem vómitos, vermes, cadáveres, sangue, etc. Nota para as cenas com as moscas; simples, mas eficazes.

Esta verdadeira visita ao passado, com sabor a recompensa para os primeiros fãs de Sam Raimi, resulta numa boa película que merece uma ida ao cinema. Os entusiastas deste género descobrirão ainda uma série de elementos dos trabalhos iniciais do realizador. Um jogo engraçado de memória cinematográfica. Um filme divertido que não surpreende, mas também não desilude, nem no final. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


ATÉ AO INFERNO
Título original: Drag me to Hell
Realização: Sam Raimi
Com: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer
EUA, 2009, 99 min.
Estreia em Portugal: 9 de Setembro de 2010.
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A OUTRA GUERRA

Quando pensamos num filme de guerra norte-americano actual, lembramo-nos automaticamente do Iraque, o conflito que o presidente Obama decretou terminado deixando lá 50 mil soldados. Mas a construção na Nova Ordem Mundial implica várias frentes, como aquela onde no passado penaram ingleses e soviéticos e para onde o mesmo Obama enviou um contingente de reforço de 40 mil soldados no início do seu mandato. A outra guerra está a tornar-se a principal e a chegar ao cinema, como não podia deixar de ser.

É exactamente para esse teatro de guerra que, neste filme, é enviado o Capitão Sam Cahill (Tobey MacGuire) para uma segunda comissão. Já no Afeganistão, o helicóptero onde seguia é abatido e ele é dado como morto. A trágica notícia vai abalar a retaguarda caseira. Sam é casado, tem duas filhas e é o filho preferido. O seu irmão Tommy (Jake Gyllenhaal) é a “ovelha negra” da família, que ainda por cima acabou de sair da prisão. A tensão cresce e as coisas não são, obviamente, fáceis. No entanto, a vida continua e por vezes altera-se como não imaginamos. Tommy, antes bêbado e irresponsável, começa a aproximar-se das sobrinhas e da cunhada e até mesmo do pai que o despreza.

Mas, mais uma vez, todo este ambiente vai sofrer um tremendo safanão. Sam Cahill não morreu. Conseguiu sobreviver a um doloroso cativeiro de torturas e privações impostas pelos taliban devido a uma terrível acção. Quando por fim regressa a casa, em clara e natural situação de ‘stress’ pós-traumático, o regresso ao seu lar perfeito vai ser demasiado difícil.

Depressão, agressividade, ciúme, suspeição, dúvida e violência. Estão criadas as condições para um drama intenso e é o que acontece, com Jim Sheridan ao leme, a responder à altura. Este realizador irlandês, que se notabilizou com o excelente “Em Nome do Pai” (1993), consegue captar com segurança o desempenho dos actores, no qual assenta o filme. Este não é um clássico nem uma revelação, mas Sheridan oferece-nos uma obra bem construída e honesta, neste ‘remake’ do dinamarquês “Irmãos” (2004), realizado por Susanne Bier.

As actuações têm nota positiva, no geral, com destaque para o trio Natalie Portman, à vontade no papel da mulher de Sam, Jake Gyllenhaal, muito bem como o irmão que começa a entrar numa esfera familiar que não era a sua, e Tobey MacGuire, seguro e confiante, a tentar deixar para trás a inevitável colagem ao “Homem-Aranha”. Referência positiva também para Sam Shepard, no papel de Hank Cahill, o pai dos dois irmãos.

Um bom filme sobre os traumas da guerra e a forma como estes afectam necessariamente a estabilidade da vida familiar, onde uma relação fraterna de confiança é seriamente abalada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



ENTRE IRMÃOS
Título original: Brothers
Realização: Jim Sheridan
Com: Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Tobey Maguire, Clifton Collins Jr., Bailee Madison, Sam Shepard, Mare Winningham
EUA, 2009, 105 min.
Estreia em Portugal: 2 de Setembro de 2010.
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O Pequeno Hoplita


Na minha recente ida a Espanha, gostei de ver que o meu filho descobriu, por si, numa visita à Casa del Libro, um livro que eu havia visto na internet e me despertara a curiosidade. Comprei-o, claro. Trata-se de "El Pequeño Hoplita", publicado pela Alfaguara, da autoria de Arturo Pérez-Reverte e com ilustrações de Fernando Vicente. Esta excelente história, que nos leva às Termópilas e aos 3oo de Esparta, está magnificamente ilustrada. Uma óptima forma de transmitir aos mais novos um dos acontecimentos mais importantes da História da Europa e os valores a este inerentes. Para quando uma edição portuguesa?

Abaixo deixo algumas das ilustrações disponíveis no blog de Fernando Vicente.


A CAIXA

Richard Kelly estreou-se em grande como realizador com “Donnie Darko” (2001) e é natural que a sua primeira obra – que é também a sua obra-prima – seja usada como termo de comparação para os trabalhos seguintes. Assim, este seu filme fica muito aquém do desejado, apesar de ser interessante. Estará o talento de Kelly confinado ao seu golpe de génio inicial? O futuro o dirá, mas espera-se sinceramente que não.

“Presente de morte” (adiante falarei desta tradução) conta-nos a história de um típico casal suburbano norte-americano. Ela é professora e ele é engenheiro na NASA, têm uma vida aparentemente normal até que num período de dificuldades laborais inesperadas são confrontados com uma estranha proposta. Arlington Steward (Frank Langella), um homem misterioso, com a cara deformada e extremamente educado e formal, oferece-lhes um milhão de dólares se carregarem no botão da caixa que lhes deixa durante 24 horas, o tempo para decidirem. Mas a decisão está longe de ser fácil, já que Arlington lhes diz que ao ser pressionado o botão morrerá uma pessoa que eles não conhecem. Obviamente, este dilema moral provoca grandes alterações na vida familiar do casal Lewis. Algo entre o recorrente pensamento “e se ganhássemos a lotaria?” e o desprezo pela vida de quem não se conhece.

Outro aspecto bastante interessante é o filme passar-se nos anos 70 do século passado. Apesar do seu tema intemporal, esta opção resulta muito bem. O ambiente está fielmente recriado e por vezes traz-nos à memória os filmes de terror dessa altura – finais de 70 início de 80.

Há um diálogo memorável em que Arlington Steward, quando questionado sobre o porquê do objecto ser uma caixa, responde que a nossa casa é uma caixa, o nosso carro é uma caixa com rodas, e em casa olhamos para uma caixa que vai desgastando a nossa alma até que a caixa que é o nosso corpo morre, para acabar na última caixa. E se repeti na frase anterior sete vezes a palavra “caixa” é porque esse seria o título óbvio para este filme. Bastava fazer uma tradução directa e mantinha o seu carácter enigmático. Mas não, foi preferida uma tradução livre – que neste caso foi mesmo a liberdade para traduzir para o que se quer – que aponta para um filme de terror e desvenda em parte a história.

Nos desempenhos, o destaque vai sem sombra de dúvidas para o excelente Frank Langella. Cameron Diaz cumpre, estando à altura do exigido, e James Marsden desilude numa fraca interpretação. Outra nota negativa para a estreia tardia, numa altura em que há estreias simultâneas é incompreensível que filmes como este cheguem às salas nacionais um ano depois da sua ‘première’ norte-americana.

Apesar do seu início interessante e das imensas possibilidades, o confuso e exagerado ‘twist’ ficção científica com pitadas de terror não resulta no grande filme que este podia ser. Voltando ao princípio, esperemos o regresso do génio de “Darko”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



PRESENTE DE MORTE
Título original: The Box
Realização: Peter Kelly
Com: Cameron Diaz, Frank Langella, Gillian Jacobs, James Marsden, James Rebhorn
EUA, 2009, 115 min.
Estreia em Portugal: 26 de Agosto de 2010.
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UM REGRESSO À GUERRA FRIA

No início deste Verão, as notícias dos agentes secretos russos descobertos e acusados nos EUA trouxeram recordações da Guerra Fria. Coincidência cinematográfica, é o que faz “Salt”, realizado pelo australiano Phillip Noyce, que se tornou conhecido com “Calma de Morte” (1986), onde volta a reencontrar Angelina Jolie, depois de “O Colccionador de Ossos” (1999).

Esta actriz, que no género dos filmes de acção é difícil de dissociar da personagem de vídeo-jogo Lara Croft, trazida ao cinema na série “Tomb Raider” (2001 e 2003), não é propriamente uma das minhas actrizes de eleição. No entanto, depois de saber que o papel principal de “Salt” estava originalmente previsto para Tom Cruise, devo dizer que Angelina Jolie acabou por salvar este filme do desastre total.

Nem começa mal. Evelyn Salt é uma agente da CIA que é acusada por um dissidente russo de ser uma agente adormecida. Segundo as suas revelações, ela pertence a um grupo de crianças que foram treinadas numa base secreta na antiga União Soviética e depois introduzidas nos EUA para chegarem a lugares de destaque dentro da estrutura do poder para utilizações futuras. A sua missão: assassinar o presidente russo durante o funeral do recém-falecido vice-presidente norte-americano. O objectivo: reacender a Guerra Fria entre os EUA e a Rússia.

Ela vai escapar-se espectacularmente da sede da CIA e, a partir daí, a acção frenética não pára mais. De início, a destreza, eficácia e segurança de Salt fazem-nos lembrar um Bourne feminino, com qualquer coisa de MacGyver. É implacável, impiedosa e inventiva. Mas também é inverosímil, sem bem que neste género os limites ultrapassam-se muitas vezes, para gáudio do público. Conta, ainda assim, com alguns pormenores inovadores, como a cena em que Salt, refugiando-se durante uma perseguição numa casa de banho pública, cola um penso higiénico na perna para estancar uma ferida, ou quando movimenta a carrinha numa fuga dando choques eléctricos com um ‘taser’ à condutora.

O que se segue é que desilude. Girando à volta da protagonista, as restantes personagens são demasiado superficiais, quando não vazias. O cúmulo é mesmo o marido de Salt, posto à pressão para dar uma das explicações da história. O próprio enredo deixa a desejar com uma exagerada sucessão de pseudo-revelações anunciadas. Os diálogos são pobres e sempre na turbulência da agitação permanente.

É mesmo pena que não se tenha ido mais além na recuperação de um tema bem interessante como este. Mas enfim, há quem goste da acção pela acção, como uma pastilha elástica que se mastiga e mastiga e nunca se chega a comer nada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



SALT
Título original: Salt
Realização: Phillip Noyce
Com: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Daniel Olbrychski, August Diehl, Daniel Pearce, Andre Braugher
EUA, 2010, 100 min.
Estreia em Portugal: 19 de Agosto de 2010.
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A FESTA DE STALLONE

Parece que Sylvester Stallone decidiu fazer uma espécie de encontro dos antigos combatentes dos filmes de acção de Hollywood. Convidou todos os amigos e realizou uma obra que apenas se pode considerar uma paródia em homenagem a este género. O problema é que, mesmo assim, é uma estopada.

O argumento resume-se a uma colecção dos lugares-comuns deste tipo de filmes. É aborrecidamente previsível e penosamente sem piada. A única cena cómica verdadeiramente engraçada é protagonizada por Arnold Schwarzenegger, na fugaz aparição do agora governador da Califórnia. Há que dizer que a ideia das cenas em que Stallone goza com ele próprio é boa, mas simplesmente não resulta.

Não sou daqueles que descartam automaticamente este italo-americano com hipertrofia muscular, que garantiu um lugar entre os grandes nomes dos actores de filme de tiros e pancada. Há que dizer que o primeiro Rambo, “A Fúria do Herói” (1982), é um bom filme sobre o difícil regresso da Guerra do Vietname, bem como o primeiro “Rocky” (1976), com o devido encaixe. O que se seguiu nessas duas séries – aparentemente intermináveis – foi muito mau, mas ao que parece foi apenas motivado pelo lucro fácil perante um público “pouco exigente” (para ser simpático). Mas Stallone foi construindo a sua carreira, como quis e entendeu, atingindo um estatuto que lhe permite, agora, fazer brincadeiras como “Os Mercenários”.

Descurando enquadramentos e necessidade narrativa, como era de esperar, há acção com fartura; para “dar e vender”, como reza a expressão popular. Explosões, tiros, armas potentes e pancadaria da grossa, com cenas explícitas e brutais. Mas isso é o menos, porque o pior – mesmo considerando que é uma paródia – é a historieca do ditador de uma minúscula ilha latino-americana ficcionada, com uma bandeira que mais parece de um país árabe, controlado por um mauzão renegado da CIA. Perante tal cenário, um grupo de mercenários aparece para “salvar o dia” – numa tradução directa da expressão americana – muito ao jeito da série televisiva “Soldados da Fortuna”, tendo como contacto a própria filha do general, defensora da liberdade. Já fora da paródia, o espírito do filme é que a América é que é fixe. Aqui, até estes guerreiros a soldo acabam por ter valores e princípios. Pelo meio, ainda debitam algumas das diabolizações recentes da propaganda norte-americana, como na referência aos “malvados sérvios”.

O exagerado elenco de estrelas caídas (pelo menos etariamente) serve apenas para comentar para o lado: “Olha aquele, como ele está…” O mais ridículo é mesmo a recusa da idade de tantos deles, com o recurso à cirurgia plástica, tão em voga, mas que chega a desfigurar as pessoas. O cúmulo é um Mickey Rourke que mal se consegue levantar da cadeira. Para concluir, digo apenas que ir ao cinema ver estes “dispensáveis” é sem dúvida dispensável. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



OS MERCENÁRIOS
Título original: The Expendables
Realização: Sylvester Stallone
Com: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié, Terry Crews, Mickey Rourke, Gary Daniels, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis
EUA, 2010, 103 min.
Estreia em Portugal: 13 de Agosto de 2010.
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OS NOSSOS BRINQUEDOS

Confesso: conservo ainda a maior parte dos meus brinquedos de infância. Não só por motivos sentimentais, mas principalmente devido à minha veia coleccionista. Alguns dei-os já ao meu filho, mas muitos continuam na arrecadação. Como que a dizer que certas coisas que guardamos de outros tempos as vamos passando, gradualmente, às gerações seguintes.

Quem estranhar estas linhas, percebê-las-á quando vir o perturbante início do último filme da trilogia “Toy Story”, iniciada em 1995. O tempo passou e Andy já não é mais uma criança. Vai para a universidade e isso implica mudanças em casa. Decide colocar o seu ‘cowboy’ Woody nas coisas que vai levar com ele e o resto dos seus brinquedos num caixote para guardar no sótão. No entanto há um equívoco que leva os nossos conhecidos heróis a quase serem triturados por um camião do lixo, para acabarem doados a um infantário onde os mais pequenos os tratam, literalmente, à pancada. Mas isso não é o pior, pois depressa descobrem que foram parar a um verdadeiro ambiente prisional controlado por um grupo de brinquedos maus liderados por Lotso, um traumatizado urso de peluche cor-de-rosa.

A partir daí vai viver-se uma aventura para miúdos e graúdos, com várias referências a clássicos, numa história que junta a fuga e o reencontro, a desilusão e o recomeço. Pelo meio há uma série de situações cómicas muito bem conseguidas, como a cena em que Buzz Lightyear, o astronauta do Comando Estelar, é reprogramado pelos seus captores para um modo em que fala espanhol.

Uma das coisas mais extraordinárias e surpreendentes nesta obra dirigida por Lee Unkrich é a personagem Ken, o companheiro da Barbie, a quem é dito a determinada altura: “Tu não és um brinquedo, és um acessório!” Este dilema, ao qual se juntam o estilo desajeitado e efeminado proporcionam ao filme situações verdadeiramente hilariantes.

Esta é a primeira longa-metragem da Pixar a ser realizada em 3D, mas não exagera, felizmente. Aliás, toda a tecnologia neste filme é – como deve ser – acessória. Aqui o interesse fundamental é a história, a riqueza das personagens e o efeito que têm em nós.

Um filme de família no sentido pleno do termo, que nos mostra a importância das brincadeiras, da amizade, da transmissão de valores, da passagem do testemunho. Porque esse é o seu propósito: a continuidade. Um filme a ver, naturalmente, em família.

* Em complemento, passa a curta-metragem de animação “Dia & Noite” (2010), realizada por Teddy Newton.CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


TOY STORY 3
Título original: Toy Story 3
Realização: Lee Unkrich
Vozes (versão original): Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Estelle Harris, John Morris, Jodi Benson, Laurie Metcalf, Emily Hahn
Vozes. (Versão dobrada): Miguel Ângelo, Paulo Figueiredo, Carmen Santos, José Raposo, Cucha Carvalheiro, Carlos Freixo, Carlos Macedo, Manuel Moreira, Adriano Luz, , Luís Lucena, Francisco Corte Real, Ana Vieira, Luz Fonseca.
EUA, 2010, 103 min.
Estreia em Portugal: 29 de Julho de 2010.
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SONHO E PESADELO

Os nossos sonhos são um mundo paralelo que interage com o mundo real? Se assim é, um pode influenciar o outro? É então possível manipular um através do outro? Questões que nos traz Christopher Nolan em “A Origem”, filme que realizou e escreveu, que tem sido um sucesso de bilheteira e gerado reacções diversas.

No mundo dos sonhos tudo nos é permitido e Nolan joga com isso para construir uma viagem mental profunda sobre a própria vida e as nossas decisões, os seus caminhos e as nossas opções, os seus paradoxos e mistérios. No plano técnico desta construção, o realizador tanto teve o bom senso de recusar o 3D, como de utilizar os efeitos especiais computorizados ao serviço do filme e não – como parece ser moda ultimamente – como seu objecto central.

A história passa-se num futuro próximo onde é possível entrar nos sonhos alheios e roubar ideias. Este método é bastante utilizado na espionagem comercial, o que levou à necessidade de sistemas de defesa contra tais intromissões. Mas o que vai ser proposto a Cobb (Leonardo DiCaprio) é algo diferente: a colocação de uma ideia na mente de alguém, para provocar um determinado resultado. Isto é considerado praticamente impossível, mas o protagonista aceita o trabalho mediante a perspectiva de resolução da sua vida e do reencontro com a sua família. Para este golpe, precisa de um arquitecto que construa o cenário onde se passará o sonho e descobre a jovem Ariadne (Ellen Page). O nome desta personagem não é inocente e a sua primeira prova de selecção é desenhar labirintos. Na mitologia grega, a filha de Minos, o rei de Creta, deu a Teseu um novelo de linha que lhe permitiu encontrar o caminho de volta do labirinto. O fio de Ariadne tornou-se depois um método lógico para a resolução de um problema. Parece que a chave está nesta referência ao labirinto, símbolo ancestral que remonta ao Neolítico, neste filme que sai dos simplismos habituais de Hollywood. Curiosa, também, no nome de uma das personagens, a recordação do grande mestre do xadrez Bobby Fischer.

Mas, considerações profundas à parte, era preciso fazer um ‘blockbuster’. Nolan não hesitou em aplicar a chapa do ‘heist movie’, com ritmo elevado, muita acção e referências que nos levam a trabalhos anteriores do realizador ou a filmes como “Matrix” (1999) e até “Ao Serviço de Sua Majestade” (1963). Este último vem-nos automaticamente à mente nas cenas na neve, passadas numa fortaleza de montanha, onde todo o ambiente bondiano se torna aborrecido, porque desnecessário. As cenas de tiros e explosões estão muito bem feitas e visualmente bem conseguidas, mas são exageradamente demoradas e prolongam demasiado o filme.

Lembre-se que este filme era um dos projectos de vida de Christopher Nolan e que teve todos os meios, técnicos e financeiros, para o realizar. O grau de exigência torna-se, assim, mais elevado. A fantástica ideia que é colocada neste trabalho não se desenvolve como se esperava. Mas será que isso alguma vez acontece? CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



A ORIGEM
Título original: Inception
Realização: Christopher Nolan
Com: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite
EUA/GB, 2010, 148 min.
Estreia em Portugal: 22 de Julho de 2010.
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CASA DE LOUCOS

O que sabemos da Grécia ultimamente não passa de notícias sobre a crise económico-financeira que atinge a Europa, mas eis que em pleno Verão nos chega o cinema contemporâneo grego, pela mão de Yorgos Lanthimos, realizador que conseguiu com esta sua segunda longa-metragem o prémio “Un certain regard” em Cannes e o grande prémio do Festival Internacional do Estoril, entre outros.

“Canino” não é um filme fácil. É uma experiência alucinante, violenta e perturbante que nos transporta a uma casa de loucos onde se vive uma realidade alterada. Um olhar sobre o controlo dos outros e a manipulação do discurso levado ao extremo. A acção passa-se na Grécia dos nossos dias, mas fica a percepção que poderia muito bem passar-se noutro local e noutro tempo.

O plano inicial, onde um velho leitor de cassetes “explica” que várias palavras têm significados diferentes daqueles que lhes conhecemos, é um verdadeiro mergulho de cabeça nesta história onde o pai mantém, com a cumplicidade da mulher, a sua família numa redoma fechada ao mundo exterior. Tudo se passa numa grande vivenda afastada da cidade onde filhos são isolados do mundo “perigoso” lá de fora por um domínio psicológico brutal, até estarem “preparados”. Nessa “preparação”, que não é mais do que uma parte importante do mecanismo de controlo, os filhos têm fazer jogos e tarefas, sendo premiados com pequenos autocolantes. Este sistema de recompensas lembra automaticamente a educação canina. Há aliás um paralelo entre um cão que a determinada altura sabemos que está a ser treinado numa escola especializada a pedido do pai e um dos “treinos” que este dá aos membros da família para se protegerem dos gatos – os “mais perigosos animais do mundo” –, pondo-os de gatas a ladrar.

Os filhos, cujos nomes nunca sabemos, conhecendo-os apenas por o irmão, a irmã mais velha e a mais nova, são jovens adultos com atitudes acriançadas. O rapaz tem o privilégio de satisfazer as suas necessidades sexuais com uma empregada de segurança que o pai traz da empresa onde trabalha. Mas o sexo com Christina é mecânico, serve aquele propósito e mais nada; não há paixão, nem emoção. Esta rapariga é, assim, um contacto com o mundo exterior e logo se tornará um problema.

Entre os filhos começa a subir a tensão. Apesar do medo criado sobre o mundo lá fora, a curiosidade aumenta. Os métodos de castigo e repreensão já não conseguem evitar todas as transgressões. Aqui está a grande questão do filme. Até que ponto se cria uma realidade para atingir determinados objectivos? Até onde deve uma família proteger-se?

Nesta desconstrução das realidades construídas o campo está aberto a todas as interpretações. Se do modelo familiar passarmos ao modelo de sociedade, e não necessariamente a totalitarismos passados – esses também mais ou menos mitificados –, encontramos hoje vários pontos em comum, das “operações de paz” à guerra das palavras “incorrectas”. Um filme de loucos, mas que dá que pensar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



CANINO
Título original: Kynodontas
Realização: Yorgos Lanthimos
Com: Christos Stergioglou, Michelle Valley, Aggeliki Papoulia, Mary Tsoni, Hristos Passalis, Anna Kalaitzidou
GR, 2009 94 min.
Estreia em Portugal: 29 de Julho de 2010.
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UM DIA E NOITE PARA ESQUECER

A maré de Verão dá à costa alguns bons filmes, mas também nos traz habitualmente aquelas grandes produções de Hollywood com muitos efeitos especiais e actores conhecidos que, após muito alarido, constatamos que não passam de uma verdadeira perda de tempo, mesmo para quem esteja nas chamadas férias grandes.

É o caso de “Dia e Noite”, que na sua publicidade prometia ser um estrondo do entretenimento estival, mas que se revelou um ‘flop’ de bilheteira nos EUA em detrimento de outros filmes que supostamente não seriam tão do agrado dos espectadores norte-americanos. Os maus resultados comerciais iniciais motivaram inclusive uma alteração de imagem na sua campanha promocional. Mudança de mentalidades na pátria do cinema ‘pop-corn’? Duvido. O facilmente constatável é a baixíssima qualidade desta película. Até os ruminadores de pipocas se recusam, por vezes, a comer tudo o que lhes põem à frente.

Esta é uma tentativa de comédia de acção na qual pouco há a desmontar. June Havens (Cameron Diaz) é rapariga solteira que se encontra para todo o filme com Roy Miller (Tom Cruise), um agente secreto numa missão perigosíssima. Ela tem o seu quê de Maria-rapaz, como o gosto pela reparação de automóveis clássicos. Como diz a determinada altura: “O meu pai queria rapazes…” Ele tem uma descontracção permanente e uma agilidade surpreendente, enquanto mata malandros a torto e a direito. Esta dupla vai andar todo o tempo numa correria ofegante, entre tiros e explosões, motas e aviões, saltando entre vários pontos do mundo.

Os ingredientes cómicos limitam-se a situações rocambolescas forçadas e expressões aparvalhadas. Há também uma série de referências aos filmes de agentes secretos, como a cena em que Cruise sai do mar a lembrar o James Bond de “Casino Royale” (2006).

Um pormenor que não nos escapa, ainda para mais como portugueses, são as calinadas geográficas. Serão mais tentativas falhadas de comédia (duvido) ou a habitual ignorância norte-americana nesta disciplina? O refúgio de Roy Miller é um ilhéu tropical que os maus da fita localizam nos Açores! Aqui ao lado, em Espanha, há uma perseguição que decorre entre uma largada de touros na festa de San Fermín… em Sevilha! Mas há mais. Para dar um último exemplo, há uma cena passada na Áustria onde vemos polícias com a designação “Polizei” nas costas cruzarem-se a equipa de médicos legistas com blusões com a inscrição “Coroner”… É piada? Não se percebe.

Ver Tom Cruise a fazer dele próprio e Cameron Diaz em biquíni numa não-história acelerada, com cenas de acção exageradamente irreais e comédia sem graça? É caso para dizer que, ainda por cima com este tempo, há coisas melhores para fazer. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



DIA E NOITE
Título original: Knight And Day
Realização: James Mangold
Com: Tom Cruise, Cameron Diaz, Peter Sarsgaard, Jordi Mollà, Viola Davis, Paul Dano
EUA, 2010, 109 min.
Estreia em Portugal: 15 de Julho de 2010.
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CASA ASSOMBRADA

“O Escritor Fantasma” é uma verdadeira casa assombrada cheia de fantasmas. O primeiro é o realizador. Polanski, a braços com a justiça norte-americana devido a um caso de abuso sexual de uma menor há vários anos, ficou impossibilitado de regressar aos EUA. Esta situação gerou muita polémica, nomeadamente devido à solidariedade de várias celebridades do mundo do espectáculo, que com certeza teriam outra atitude se se tratasse de um dos tantos casos de pedofilia que diariamente enchem a imprensa. Mas há que ter a honestidade de separar as águas, já que a única influência que essa situação tem no filme até é benéfica, pois há claras semelhanças no isolamento e na fuga à justiça que seguramente o inspiraram.

O fantasma mais importante do filme é o que lhe dá o título, um escritor do qual nunca sabemos o nome durante toda a acção, extraordinariamente representado por Ewan McGregor, com a ingenuidade e sinceridade imprescindíveis. Ao ser contratado para redigir na sombra as memórias de um antigo primeiro-ministro britânico – interpretado por Pierce Brosnan, a quem o papel assenta que nem uma luva –, que nos recorda automaticamente Tony Blair, começa a perceber que nem tudo é tão simples e fácil como inicialmente aparentava.

Levado para uma casa que se adivinha ser em Martha’s Vineyard, apesar de ter sido filmada na Alemanha pelas impossibilidades referidas acima, transmite-nos o sentimento de clausura nesta magnífica arquitectura sóbria e ao mesmo tempo tão fria como o mar gelado que vemos lá fora através das paredes em vidro. Aí, a dúvida instala-se e o mistério adensa-se. O fantasma seu antecessor morreu afogado e ele começa a suspeitar de assassinato. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro é acusado pelo Tribunal Penal Internacional e faz tudo para aparentar calma e normalidade. Espionagem, conspiração de opositores políticos, interesses ocultos, movimentações de bastidores – os ingredientes estão todos neste argumento baseado num romance de Robert Harris, que o adaptou ao cinema em conjunto com Polanski.

A história faz-nos recuar até um passado recente: a administração Bush, a Guerra contra o terrorismo, a invasão do Iraque, os voos secretos da CIA, etc. Nesta viagem pelos caminhos sinuosos das altas esferas do poder internacional, temos “flashes” de trabalhos anteriores do realizador e também do mestre Hitchtcock. Mas o que está maravilhosamente bem conseguido é a atmosfera “noir” em que tudo se passa. E não é nada “retro”, pelo contrário, encaixa impecavelmente com um filme dos nossos dias.

Um “thriller” muitíssimo bem construído, onde o cineasta vai levantando véu a véu uma intriga internacional profunda, sempre com uma intensidade que nos agarra à tela durante toda a acção. Onde os actores, talentosamente dirigidos, nos oferecem personagens que se vão revelando ao longo de todo um percurso findo o qual regressamos mentalmente aos pormenores apontados na memória e vemos que estava tudo lá, à espera de ser descoberto. Esta excelente casa assombrada é, sem dúvida, um assombro a não perder. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]




O ESCRITOR FANTASMA
Título original: The Ghost Writer
Realização: Roman Polanski
Com: Ewan McGregor, Kim Cattrall, Olivia Williams, Pierce Brosnan, Timothy Hutton, Tom Wilkinson, Robert Pugh, James Belushi, David Rintoul, Eli Wallach
FRA/ALE/RU, 2010, 128 min.
Estreia em Portugal: 15 de Julho de 2010.
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QUEBRAR A ROTINA

Se há não muito tempo o cinema que se faz noutras paragens raramente chegava a Portugal, agora há que reconhecer que chega cada vez mais. No entanto, uma das características negativas é o tempo que tais filmes demoram a estrear entre nós. É o caso de “Whisky”, uma produção de 2004 – ano em que foi distinguido com o Prémio da Crítica no Festival de Cinema de Cannes –, onde o atraso ultrapassa o limite do razoável.

Este é um filme que nos leva a Montevideo, no Uruguai, mais concretamente a uma fábrica de meias que parece ter parado no tempo. Todos os dias, Jacobo Köller, um dos tantos judeus de apelido germânico que vivem na América do Sul, abre a porta do velho negócio da família na presença da mais antiga das suas três funcionárias. Marta, a sua fiel assistente, acompanha-o nos rituais matinais de pôr a pequena fábrica a trabalhar.

A acção é demorada, com poucos e curtos diálogos e necessariamente repetitiva. Pode até parecer aborrecida, de início, mas é essencial para captar as vidas de pessoas iguais a tantas outras com quem nos podemos cruzar na rua. Para detectar como o dia-a-dia destas formigas humanas se assemelha na sua mecânica ao trabalhar de uma máquina de coser ou de toda uma fábrica.

Mas algo vai perturbar esse regular funcionamento. A visita de Herman, o irmão de Jacobo, a propósito da morte recente da mãe de ambos, vai fazer com que este simule estar casado com Marta. Esta encenação, devida ao sucesso de Herman, que modernizou a sua fábrica do mesmo ramo no Brasil e mostra orgulhoso a fotografia das filhas, vai suscitar várias questões.

O quebrar da rotina, tão desconfortável para Jacobo, levanta as dúvidas sobre as opções de vida de cada um. É um reencontro familiar no verdadeiro sentido, com os fantasmas do passado, os incómodos do presente e as dúvidas do futuro. É ainda possível mudar?

Há uma cena em que Marta mostra a Herman uma habilidade que diz ter desenvolvido quando estava enfadada: a de conseguir dizer as palavras de trás para a frente. Parece que nesta brincadeira engraçada está uma reflexão mais profunda. Será que perante uma vida de aborrecimento podemos ainda inverter as coisas? Mesmo que essa mudança não tenha um significado imediato e que seja inesperada? Mas a interrogação mais importante de todas – e que paira na cabeça de todos nós –, não é a de se podemos mudar, mas antes se realmente o queremos.

Lembro-me daquela história onde, num grupo de amigos, perante a clássica “o que fariam se ganhassem a lotaria?”, um diz que concretizaria um sonho, outro imagina compras extravagantes, mas há um que simplesmente responde que continuaria a trabalhar no mesmo sítio.

* Antecedendo este filme nas salas nacionais, passa em complemento a curta-metragem de animação portuguesa “A Dama da Lapa”, realizada por Joana Toste, em 2004.
[publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



WHISKY
Título original: Whisky
Realização: Juan Pablo Rebella, Pablo Stoll
Com: Jorge Bolani, Mirella Pascual, Andrés Pazos, Ana Katz, Daniel Hendler
URU, ARG, ALE, ESP, 2004, 99 min.
Estreia em Portugal: 1 de Julho de 2010.
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RUMO AO NORTE

“Sem nome” é a estreia nas longas-metragens do jovem realizador californiano Cary Fukunaga, que também escreveu o argumento deste filme que nos leva à América Central pelos trilhos da imigração ilegal e da vida nos gangues.

A acção começa em Chiapas, no sul do México, onde através de Willy (Edgar Flores) somos introduzidos na realidade do gangue a que pertence e onde é conhecido por “El Casper”. Os membros distinguem-se pelas suas tatuagens em todo o corpo, muitos deles até na cara, e estão naturalmente implicados em actividades criminosas. Willy escapa-se por vezes às suas obrigações para estar secretamente com a sua namorada e isso é algo que prontamente percebemos que lhe trará problemas com os seus companheiros. Um dos sítios a que tem que estar atento é a La Bombilla, uma parte da linha férrea onde centenas de imigrantes esperam comboios que os levem para norte, em direcção ao desejado “el dorado”.

O gangue em questão é o Mara Salvatrucha, que não é ficcionado, mas bem real. Nascido nos anos 80 em Los Angeles como gangue étnico salvadorenho, desenvolveu-se até aos nossos dias estendendo a sua influência da América Central à do Norte, após as deportações de vários dos seus membros. As suas principais características são a extrema violência e as vinganças cruéis. Os ritos iniciáticos, as tatuagens, os símbolos feitos com as mãos, as execuções e a exploração dos imigrantes, tais como aparecem no filme, ao que parece estão bem representadas e correspondem às práticas dos “mareros”.

Voltando a La Bombilla, é aí que Sayra (Paulina Gaitán), que vem com o seu pai e o seu tio desde as Honduras com o objectivo de chegar aos EUA, se vai cruzar com Willy e o seu percurso altera-se radicalmente. Através dela e dos seus familiares ficamos a conhecer as árduas condições enfrentadas por estes imigrantes, dispostos a arriscar tudo pelo seu sonho. Viajando em cima de comboios de mercadorias, sempre alerta às autoridades, tanto são agradavelmente surpreendidos por crianças que lhes atiram fruta para comer, quando passam no centro do país, como lhes esperam pedras e insultos quando já estão perto da fronteira do norte, atiradas igualmente por crianças que lhes dizem: “Não vos queremos aqui! Vão-se embora!”

Há um dado curioso a notar. Paulina Gaitán, que interpreta a rapariga hondurenha, é uma actriz mexicana, e Edgar Flores, que interpreta um jovem mexicano, é um actor hondurenho.

Concluindo, apesar da actualidade do tema tratado e das possibilidades desta história, o filme não surpreende. Pelo contrário, é sempre previsível, com os acontecimentos futuros anunciados com demasiada antecedência. As representações também deixam a desejar e a realização, apesar de alguns bons planos e sequências, não traz nada de novo. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



SEM NOME
Título original: Sin Nombre
Realização: Cary Fukunaga
Com: Edgar Flores, Paulina Gaitán, Diana García, Tenoch Huerta, David Serrano, Gerardo Taracena
EUA/MÉX, 2009, 96 min.
Estreia em Portugal: 24 de Junho de 2010.
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UM PAÍS EM MUTAÇÃO

Jia Zhangke é um realizador chinês que não é desconhecido de todo. Os seus filmes, alguns documentários, têm servido de montra às profundas alterações da realidade do seu populoso país. Em especial da forma como a globalização tem afectado esta nação asiática que se tornou o grande produtor do mundo.
A estreia deste filme entre nós tem uma particularidade que é a de ter passado primeiro nos canais televisivos por cabo TVCine, antes de chegar finalmente às salas de cinema. Sinal dos tempos? É exactamente esse sinal que nos transmite “24 City”. A sua pulsação mostra-nos como o gigante chinês está a mudar e a grande velocidade.
Esta é a história da Fábrica 420, em Chengdu, um monstro produtivo que fabricava aviões de combate e seus componentes e era propriedade do Estado, como não podia deixar de ser neste país comunista. Com o fim do esforço de guerra, a fábrica e toda a vida que circulava à sua volta alterou-se radicalmente. Tal coincidiu com a chamada “abertura” chinesa, quer isto dizer, com a entrada da China no mercado globalizado, com os seus produtos baratos e de baixa qualidade.
Podemos dizer que este filme é um semi-documentário. Filmado totalmente em digital, conta a história através de relatos dos que viveram essa transformação. Alguns verdadeiros, outros encenados, mas todos muito bem filmados, com planos demorados, que analisam as expressões e nos levam a pensar toda uma mudança de fundo.
Estas histórias pessoais, que se confundem e misturam com a da própria fábrica, vão desde o saudosismo de um tempo passado, à adaptação a uma nova forma de vida, passando por desgostos – ou desconfortos – amorosos.
A primeira história dentro desta história é a de um operário que recorda com saudade e respeito o seu mestre Wang, que lhe havia passado o salutar princípio da poupança dos materiais e da recusa do desperdício, sempre guiados por uma total dedicação ao trabalho. A última é a de uma mulher que, apesar de não ter aptidão para os estudos, como ela própria diz, consegue vingar na nova realidade comprando coisas para uma classe mais abastada. Os seus rendimentos são bastante elevados, algo reconhecido pelo próprio realizador quando a entrevista. No entanto, depois de nos apresentar feliz uma imagem de sucesso, reconhece que a entristece a precária situação dos pais. Na sua família vemos, como que ao microscópio, a mensagem do filme – o contraste. Passeando o seu Volkswagen Beetle numa paisagem onde observamos trabalhadores rurais, esta rapariga mostra o choque da China hodierna.
A antiga fábrica está a ser desmantelada ao mesmo tempo que vamos ouvindo os testemunhos em primeira mão. Longe vai o espírito da pátria grandiosa que glorifica o combate. Agora o êxito pessoal está nos bens materiais e no consumismo. No local onde antes se produziam máquinas de guerra em nome do povo, está a ser erigido um complexo de apartamentos de luxo, que será vendido a preços proibitivos, acessíveis apenas aos bem sucedidos da nova era. A 24 City que dá nome ao filme. Esta é, agora, a nova forma de afirmação social.
Esta postura e estes comportamentos lembram-nos alguma coisa? Sem dúvida. A diferença é que nós, que vemos no teatro chinês como se passa do comunismo ao capitalismo – como se alterna entre um gémeo e outro – começamos a questionar todo um modelo que constantemente nos é apresentado como inevitável e, por isso, indiscutível – a mundialização. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



24 CITY
Título original: 24 City
Realização: Jia Zhang-ke
Com: Joan Chen, Lu Liping, Zhao Tao, Chen Jian Bin
CHI/HK/JAP, 2008, 112 min.
Estreia em Portugal: 10 de Junho de 2010.
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Ministra diz: Cinemateca-Porto avança

Em entrevista ao jornal Público de hoje, a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, afirmou que a Cinemateca-Porto vai avançar.


«(...) há também o caso da Cinemateca-Porto. Prometeu ainstalação desse pólo, mas a nova directora da Cinemateca já disse que, para ela, não é uma prioridade. Qual dessas visões antagónicas vai vingar?

Uma coisa é a Maria João Seixas dizer que não considera ser a coisa mais importante a fazer. Outra coisa, que não fez, é comunicar que não irá dar seguimento às prioridades do ministério. Expressou um sentimento íntimo; tem todo o direito. Mas está a envidar todos os esforços para a nossa determinação ser efectivada.

Portanto, a Cinemateca-Porto é para avançar...

Claramente.

Ainda este ano?

Este é um ano atípico, em termos de prazos. Todo o processo de aprovação do orçamento entrou por 2010; os procedimentos estão todos atrasados. Mas no caso da Cinemateca estão a ter seguimento.»


Fonte: Público.

PAISAGEM EUROPEIA

Esqueçam os filmes de Verão, em especial aqueles ligeiros e prontos-a-digerir tão ao gosto norte-americano. Com estreias de fugir, é melhor regressar a uma das boas surpresas em cartaz vindas do nosso continente, a mostrar a qualidade e originalidade do cinema europeu.

Da janela do seu apartamento vazio em Amesterdão, ela observa os transeuntes a vasculharem o recheio da casa deixado na rua. De seguida, tira a aliança e assim começa uma viagem a pé e à boleia, de mochila às costas, até à costa da chuvosa e ventosa Irlanda. Este é o início de “Nada pessoal”, filme apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema de Locarno do ano passado, assinado por Urszula Antoniak, que escreve e realiza, na sua estreia nas longas-metragens.

Nesta história, vemos como no seu percurso, aparentemente errático, esta rapariga que parece querer desligar-se do mundo, não falando com ninguém e evitando mesmo qualquer contacto, encontra um homem que vive sozinho numa quinta. O semi-eremita oferece-lhe comida a troco de trabalho na sua propriedade isolada. Ela decide ficar, mediante um pacto de silêncio, iniciando uma relação que o filme, bem dividido, nos mostra em capítulos que não nos levam aos lugares-comuns das histórias de amor. Um trabalho notável sobre a forma como as pessoas se relacionam e se procuram conhecer à medida que a curiosidade um pelo outro aumenta. Uma óptima prestação de uma dupla de actores que não precisa de nada mais que o seu talento e entrega para nos oferecer uma representação sincera e poderosa.

Os campos verdes da Irlanda, as suas praias pedregosas e os seus rochedos escarpados proporcionam uma fotografia maravilhosa, que é bem aproveitada para mostrar as paisagens físicas das terras gaélicas onde a Natureza mostra a sua força. Estas cruzam-se com as paisagens humanas, como a da tez alva polvilhada de sardas e os cabelos ruivos da holandesa Lotte Verbeek, com os seus olhos azuis-esverdeados que parecem reflectir o mar, e as mãos sulcadas pelos anos e pelo trabalho do irlandês Stephen Rea. A temperar tudo isto temos momentos de música tradicional irlandesa, num registo popular, mas também de ópera, num registo erudito. No seu conjunto, todos estes elementos constituem uma paisagem europeia, das suas terras e das suas gentes, da sua cultura e do seu mistério.

Na era do consumismo desenfreado e do bombardeamento mediático, há uma sensação de liberdade ao observar a vida neste recanto, onde o dia é ocupado normalmente com o trabalho da casa e do campo e as pausas com as refeições e a leitura. Não há televisão e é um velho rádio que dá música e por vezes notícias, em som de fundo. O conforto não está no excesso e no comodismo, mas na justa recompensa do esforço diário e no conhecimento da terra e do seu equilíbrio.

Esta é uma viagem – não no sentido de turismo, mas de aventura – não nos deixa indiferentes. Até o enigmático final mantém a questão mais importante levantada durante o filme: “Quem és tu?” [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



NADA PESSOAL
Título original: Nothing personal
Realização: Urszula Antoniak
Com: Stephen Rea, Lotte Verbeek
IRE/HOL, 2009, 85 min.
Estreia em Portugal: 10 de Junho de 2010.
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DE PASSAGEM

A América que nos chega a casa diariamente é a da “terra das oportunidades”, do espectáculo, da abundância e do desperdício. Um novo centro do mundo, a hiperpotência que influencia todo o planeta. No cinema, a imagem desta América é, por excelência, Hollywood e as suas grandes produções. Mas, por detrás desta tela, há um país profundo, um mundo onde também há pobreza e extremas dificuldades. Também há outro cinema – independente –, felizmente cada vez mais divulgado entre nós, onde encontramos boas surpresas. É o caso de “Wendy e Lucy”, cuja estreia foi há dois anos no Festival de Cinema de Cannes.

Wendy (Michelle Williams) é uma rapariga que está “on the road” com a sua cadela Lucy e o pouco dinheiro contado. O seu destino é o Alaska, referido quase como “terra prometida”, onde espera encontrar um emprego. Ainda no Oregon, o seu carro avaria-se forçando-a a parar até tentar resolver o problema, mas as coisas precipitam-se. A sua débil situação financeira leva-a a furtar duas latas de comida para cão num supermercado para alimentar Lucy. É apanhada, detida e forçada a deixar a sua companheira canina presa à porta da loja. Quando regressa da esquadra, ao fim de longas horas, não encontra a sua amiga e começa a desesperar.

A história deste filme é a de uma busca motivada pela amizade. Da forma como esse sentimento se torna um compromisso do qual se não pode desistir, por muito difíceis que se tornem as coisas. Uma jornada por um mundo que funciona a dinheiro, com apenas uns tostões no bolso e que vão desaparecendo rapidamente.

Michelle Williams, que tem um excelente desempenho, é o centro do filme e vai-se cruzando com várias personagens fugazes que preenchem bem toda a acção. Como a sua personagem afirma por várias vezes: está “só de passagem”. O trabalho de Kelly Reichardt, que regressa ao mesmo estado onde filmou “Old Joy” (2006), é bastante bom e são de notar os planos fantásticos no supermercado – uma extraordinariamente bem conseguida oposição consumismo/necessidade.

Esta é uma reflexão norte-americana, a lembrar que momentos como a Grande Depressão também fazem parte daquele país. Uma viagem pessoal sobre a vida, o nosso caminho, a solidariedade, a amizade e as decisões a que somos levados. Em tempos de crise, é bom lembrar que para os gregos antigos “krisis” significava exactamente “decisão”, mas num momento conturbado, especialmente provocado por factores exógenos, onde tudo era possível

Uma estreia a saudar, já que traz o cinema independente norte-americano às salas portuguesas, que só peca por tardia. Uma obra a mostrar que uma história simples também dá um bom filme. Um filme sobre os valores e a sua importância quando tudo o resto falta e que nos obriga a questionar certezas que tínhamos por inabaláveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



WENDY & LUCY
Título original: Wendy and Lucy
Realização: Kelly Reichardt
Com: Michelle Williams, Will Patton, Will Oldham, John Robinson
EUA, 2008, 80 min.
Estreia em Portugal: 3 de Junho de 2010.
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MAU TENENTE MAU

Werner Herzog recusou que o seu filme, baptizado com o título original quilométrico “The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans”, fosse um “remake” do excepcional “Bad Lieutenant” realizado em 1992 por Abel Ferrara. No entanto, como facilmente se percebe, é impossível não pensarmos nesse clássico contemporâneo “neo-dark”com a magnífica interpretação de Harvey Keitel. A inspiração é óbvia: um polícia corrupto, que abusa do poder, consome drogas, joga em apostas ilegais e entra numa espiral de decadência. Mas a distância entre os dois filmes é enorme – é a que vai de uma obra-prima a um filme vulgar.

Quando o filme foi anunciado, houve uma “troca de galhardetes” na comunicação social entre os dois realizadores. Ferrara, bastante irritado com a notícia, chegou mesmo a desejar a morte às pessoas que fazem “remakes”. A reacção de Herzog foi afirmar que desconhecia Abel Ferrara e nunca tinha visto qualquer trabalho dele.

Polémica à parte, este “Polícia sem Lei” tem lugar em Nova Orleães e passa-se após a destruição deixada pelo furacão Katrina. Este é um dos aspectos que foram muito mal aproveitados, já que o caos que se gerou na sequência dessa catástrofe natural não é explorado.

A história é a de um polícia que lesiona as costas ao salvar um detido de morrer afogado numa inundação. Dos analgésicos receitados às drogas duras é um instante, talvez até uma passagem demasiado rápida. Promovido a tenente, é nomeado responsável pela investigação de um homicídio múltiplo durante a qual se envolve numa série de situações complicadas. Tudo parece correr mal e precipitar-se: vício, abuso, dívidas, azares, ligações com criminosos, entre outros. Aparentemente num beco sem saída, vemos a sua vida desabar diante os seus olhos e interrogamo-nos: será que tal percurso descendente pode ter um final feliz?

Nicholas Cage representa Terrence McDonagh, a personagem principal, e está bem nas cenas como drogado, mas longe da sua impressionante prestação em “Morrer em Las Vegas” (1995), de Mike Figgis, filme brilhante e tocante sobre o vício e as suas últimas consequências. Cambaleando com o seu Smith & Wesson modelo 29 à cintura – revólver igual ao imortalizado no cinema por Dirty Harry –, desleixadamente enfiado nas calças, falha nas cenas onde parece tentar um lado cómico exagerado. Quanto a outros desempenhos, Eva Mendes não surpreende e Val Kilmer pouco aparece e sempre num tom exaltado.

Um filme ao qual falta a profundidade, a dureza e a tensão exigidas; para além da violência crua e não de espectáculo, como nos é apresentada. Um trabalho ao qual falta a dimensão trágica de uma desgraça pessoal, que acaba tratada com uma ligeireza improvável e, por isso, inadmissível. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



POLÍCIA SEM LEI
Título original: The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans
Realização: Werner Herzog
Com: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Fairuza Balk, Alvin `Xzibit` Joiner, Shawn Hatosy,Jennifer Coolidge, Brad Dourif
EUA, 2009, 122 min.
Estreia em Portugal: 13 de Maio de 2010.
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O TANQUE

O conflito a que Israel chamou “Operação Paz na Galileia” e os árabes “A Invasão” ficou conhecido como Primeira Guerra do Líbano e iniciou-se a 6 de Junho de 1982, com a invasão do Sul do Líbano por tropas israelitas com o apoio de cristãos libaneses, contra a OLP, forças sírias e libanesas muçulmanas. É exactamente nesse mês que se passa “Líbano”, realizado e escrito por Samuel Maoz, que se baseou nas suas próprias experiências nessa guerra onde foi ferido aos 20 anos de idade.

O filme, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza do ano passado, conta a história da tripulação de um tanque que tem que acompanhar um pelotão de pára-quedistas numa operação em território hostil. De início, tudo é apresentado como sendo uma coisa simples, um “passeio” como é dito. Mas cedo se percebe que não vai ser assim, pelo contrário. O destino da missão, um hotel chamado ironicamente Saint Tropez, começa a pouco e pouco a tornar-se uma miragem.

Dentro desse tanque há uma inscrição que diz “o tanque é de ferro, os homens são de aço”, mas o que ninguém disse a estes jovens soldados é que esse aço é temperado pela guerra. E é exactamente a guerra que eles vão encontrar e viver, com todas a suas dúvidas e o seu horror, o que lhes causa uma tremenda confusão e pressão. São novos, inexperientes, ingénuos até. O comandante do tanque não tem autoridade e é constantemente questionado pela sua equipa, na qual uns contam o tempo de comissão que lhes falta e outros sonham com o conforto do lar maternal, numa permanente desautorização. Também não são movidos por um idealismo ou conhecimento dos beligerantes. A determinada altura um deles pergunta: “O que é um falangista?”

Tudo isto se passa num espaço claustrofóbico, para agravar ainda mais a tensão. Esta é aliás uma palavra que define bem este filme. O único momento em que essa tensão parece aliviar-se é quando um dos rapazes conta uma história pessoal que cruza a morte do seu pai e uma situação de cariz sexual com a professora do liceu. A sua expressão mostra-nos como naqueles homens a adolescência está ainda tão perto.

O mundo exterior chega-lhes pela mira do artilheiro – que aqui funciona como uma segunda câmara, um segundo nível do filme –, ou pela escotilha por onde entram o comandante pára-quedista, um camarada de armas morto, um prisioneiro sírio e um falangista libanês.

Por fim, há que referir o trabalho muito bem conseguido de realização dos jogos de reflexos com a água no chão do tanque, talvez a mostrar que esta é a única forma de ultrapassar a exiguidade constrangedora do espaço, para além da mira que anuncia morte e destruição. Aqui, o ambiente confinado entra-nos pelos olhos dentro, com as paredes oleosas e os fumos intoxicantes, para além do desconforto do ruído ensurdecedor. Uma atmosfera que se sente neste filme de tensão constante. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



LÍBANO
Título original: Lebanon
Realização: Samuel Maoz
Com: Oshri Cohen, Zohar Shtrauss, Michael Moshonov, Itay Tiran, Yoav Donat, Reymond Amsalem, Dudu Tassa
ALE/ISR/FRA, 2010, 93 min.
Estreia em Portugal: 6 de Maio de 2010.
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