A OUTRA FILHA

“A Nova Filha” conta-nos a história de John James (Kevin Costner), um escritor que parte com os seus dois filhos menores, Louisa (Ivana Baquero) e Sam (Gattlin Griffith), para a Carolina do Sul, após ter sido abandonado pela mulher. Na esperança de um recomeço, compra uma enorme casa isolada onde tenta reatar uma relação familiar.

A situação é desde logo complicada. A rapariga, que é a mais velha dos dois irmãos, está em plena adolescência e inferniza a vida do pai que não sabe como lidar com ela. O rapaz tenta agradar, mas cedo se nota que o trauma do abandono foi grande e teve as suas repercussões.
Como se tal não bastasse, o comportamento de Louisa começa gradualmente a alterar-se. O pai, de início, convence-se que são atitudes próprias da idade e vai tentar “chegar” a ela. Mas esta mutação está directamente ligada a um estranho monte que existe nas traseiras na casa.
Segundo alguns, esta é uma antiga campa de índios, e há inclusive quem as estude. É o caso de um professor universitário, uma das piores personagens da história, à qual se junta a má prestação do respectivo actor.

Estão reunidos todos os elementos para um filme de terror clássico. No entanto, os ‘clichés’ são tantos que até desesperamos, as actuações são sofríveis e mesmo Kevin Costner fica muito aquém do que já demonstrou. É a pergunta que nos salta automaticamente à cabeça é a seguinte: o que fará com que actores conceituados escolham filmes de tão baixa qualidade?

O espanhol Luis Berdejo, que surpreendeu com [Rec] (2007), realiza este filme com argumento de John Travis baseado num conto de John Connolly. Não conhecia a história original, mas ao que parece o filme é-lhe fiel. Tanto pior para o conto, que também deve ser outra desilusão.
O início até parece prometer, com alguns planos bons e uma boa ideia para um filme, mas rapidamente descamba e apercebemo-nos que vamos ser torturados na sala de cinema. Porque esta é uma película francamente má, há-que dizê-lo.

O desenrolar da acção é de início inexplicavelmente muito lento e de repente acelera como ninguém. Para terminar a pior maneira. A história não funciona, apesar do potencial, os actores vão mal, apesar da presença de uma estrela como protagonista, os lugares-comuns dos filmes de terror repetem-se enjoativamente. Este pesadelo, que parece não acabar, nem chega a ser um filme de terror. Talvez um suspense com aspirações a terror ‘light’…

A nós resta-nos fugir. Não dos inenarráveis seres monstruosos que no final de contas são os responsáveis por tudo, mas de quase duas horas de aborrecimento. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



A NOVA FILHA
Título original: The New Daughter
Realização: Luis Berdejo
Com: Kevin Costner, Ivana Baquero, Samantha Mathis, Gattlin Griffith, Noah Taylor, Erik Palladino
EUA, 2009, 108 min.
Estreia em Portugal: 21 de Outubro de 2010.
*

CIDADE DO CRIME

O cartaz promocional deste filme diz-nos “bem-vindos à capital americana dos assaltos a bancos”, para sabermos de antemão aonde vamos. A “cidade” é Charlestown, um bairro operário de Boston onde o crime é uma realidade constante e a arte dos assaltos passa de pais para filhos por tradição familiar.
É o caso de Doug MacRay (Ben Affleck), um filho da terra que não escapou à regra. Lidera uma quadrilha de assaltantes que tem por alvo bancos e carrinhas blindadas de transporte de valores. Ele é o cérebro das operações que correm com rapidez e eficácia, ladeado pelo seu “braço direito”, o violento e implacável “Jem” James Coughlin (Jeremy Renner). São como irmãos nesta vida criminosa, mas para Doug este é um caminho que não quer seguir para sempre e a ideia de um recomeço longe de ‘the town’, confortavelmente assegurado pelo produto de um grande golpe, ganha cada vez mais força na sua cabeça.
Na fuga de um assalto, “Jem” decide levar a gerente bancária que lhes abriu o cofre como refém. O grupo solta-a vendada, mas ele suspeita que ela se possa ter apercebido de algo que os denuncie à polícia. Diz a Doug que vai “tratar do assunto”, ao que este lhe diz que não, pois ele próprio descobrirá se ela os pode realmente comprometer. Claire (Rebecca Hall) é também uma rapariga de Charlestown e acaba por envolver-se numa relação amorosa com um homem que ela nem sonha quem é...
Neste perigoso romance, onde Doug vislumbra o seu desejado recomeço, vão cruzar-se a pressão das autoridades policiais, o incómodo de uma relação anterior, um passado familiar que o atemoriza, as fidelidades ao grupo e ao seu “irmão” e a rede mafiosa organizada que vê com muito maus olhos aqueles que dela tentam escapar.
Affleck sai-se bem nesta que é a sua segunda longa-metragem, depois de “Vista Pela Última Vez...” (2007), ao filmar numa cidade que lhe é bastante familiar, e é eficaz nas rápidas sequências de acção. O elenco é bem dirigido e tem uma boa prestação, mas podemos questionar-nos como seria o filme com outro protagonista. Nota especial para Jon Hamm, conhecido pela excelente série televisiva “Mad Men”, no papel do agente do FBI responsável pela investigação, que de certo veremos mais frequentemente no grande ecrã. Mas é Jeremy Remmer que, depois de “Estado de Guerra” (2008), volta a surpreender. Li que na preparação do seu papel chegou inclusivamente a falar com assaltantes de Charlestown, nomeadamente para apanhar o seu sotaque característico.
Não chega ao magistral “Heat” de Michael Mann, verdadeiro clássico moderno dos ‘heist movies’, e até tinha potencial para tal, mas não deixa de ser um bom filme, bem ritmado e que merece uma ida ao cinema. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

* Em complemento, passa a curta-metragem portuguesa “Shoot Me” (2010), realizada por André Badalo, com Maria João Bastos, Ivo Canelas, Philippe Leroux.


A CIDADE
Título original: The Town
Realização: Ben Affleck
Com: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively, Slaine, Owen Burke, Titus Welliver, Pete Postlethwaite, Chris Cooper

EUA, 2010, 125 min.
Estreia em Portugal: 14 de Outubro de 2010.
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doclisboa 2010

NO FIO DA NAVALHA

Quem se lembra dos conturbados tempos de violência étnico-política que marcaram a Irlanda do Norte no último quartel do século XX e ficaram conhecidos como “The Troubles”? Para quem acompanhou esse conflito complexo, recusando as análises simplistas de certa imprensa e opinadores maniqueístas, esta é uma incursão muito interessante num período da História Contemporânea cujos efeitos ainda se fazem sentir.

No final dos anos 80, era prática corrente a Royal Ulster Constabulary (RUC), a polícia de então na Irlanda do Norte, recrutar infiltrados no campo inimigo, conhecido por Irish Republican Army (IRA), o exército republicano irlandês, uma força paramilitar independentista considerada como organização terrorista pelo Reino Unido.

A acção de “Na senda dos condenados” decorre nessa altura, concretamente entre 1987 e 1991, contando-nos uma versão livre da história de Martin MacGartland. Este foi um dos infiltrados mais importantes da altura, considerado um “supergrass”, que devido à delação afirmou ter salvo cinquenta pessoas. Este número inspirou o título de um dos seus livros autobiográficos, publicado em 1997, que agora foi adaptado à sétima arte com o mesmo nome.

Martin, que é brilhantemente representado por Jim Sturgess, é um jovem católico irlandês que vive de vendas de material furtado porta à porta e passa – ou pelo menos tenta passar – ao lado da oposição entre católicos independentistas e protestantes unionistas. É aquilo que a que se chama popularmente um “espertalhão”. Talvez por isso, mas também porque se vê inevitavelmente ligado à situação politica da sua terra, que começa a ser assediado tanto pela RUC como pelo Provisional IRA (apesar de a maior parte das pessoas o conhecer apenas pela sigla histórica IRA). Acaba por conseguir tornar-se um dos “Óglaigh na hÉireann”, ou seja “voluntários da Irlanda”. No entanto, por discordar do seu modo de actuar, acaba por dar informações preciosas ao Special Branch, através do contacto que o recrutou e que usa o nome de código Fergus, evitando vários atentados. No filme essa personagem é bem interpretada pelo veterano Ben Kingsley, que consegue transmitir eficazmente um lado paternal inerente à “conversão” de Martin.

O ambiente da época está muitíssimo bem reproduzido, tanto no guarda-roupa como nos cenários e nos adereços, dos automóveis às armas utilizadas. Está também muito bem conseguida a integração de imagens da altura e a transmissão do estado de tensão que se vivia. Há uma cena memorável em que Martin é detido pelo exército britânico e os transeuntes se revoltam espontaneamente, começando a atirar pedras e a agredir os soldados.

Neste relato pessoal, que nos chega num filme bem ritmado e que nos prende a atenção até ao final, encontramos as dúvidas de um conflito pessoal, das amizades, das fidelidades, das “causas”. Mas no qual a questão central é sempre a da motivação... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


NA SENDA DOS CONDENADOS
Título original: Fifty Dead Men Walking
Realização: Kari Skogland
Com: Ben Kingsley, Jim Sturgess, Kevin Zegers, Natalie Press, Rose McGowan
RU/CAN, 2008, 117 min.
Estreia em Portugal: 30 de Setembro de 2010.
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À conversa com Pedro Souto, 33 anos, membro da direcção do MOTELx

Pedro Souto entrega o Prémio da Melhor Curta
De onde surgiu a ideia do MOTELx?
De uma reunião de amigos, se bem que já com a ideia de fazer algo para o público. O CTLX foi fundado em 2003 e nesse ano fizemos a primeira sessão experimental. O conceito sempre foi o de uma estadia curta, de alguns dias, como num motel.

Mas em quatro edições este já é um festival de dimensão considerável. Foi um sucesso planeado? Como sente a resposta do público?
O MOTELx tem sido pensado de ano para ano e vai continuar assim. Temos ficado sempre satisfeitos, mas é claro que chegar aqui com esta lista de mestres presentes e filmes, apesar de inexperientes, é reconfortante. Temos tido boas opiniões e um óptimo ‘feedback’.

A presença de Romero este ano é atingir o cume?
É muito importante a presença deste “mestre-vivo”. No entanto, ele já tinha sido convidado para o ciclo de ‘zombies’ que organizámos na Cinemateca em 2005, quando saiu “Land of the Dead”, mas não pode estar presente.

Este é um festival jovem?
É um festival de espírito jovem. Quanto ao público, é muito diverso e de todas as idades. Penso que a grande adesão dos mais jovens se deve em parte aos preços bastante acessíveis dos bilhetes.

Nota-se que este é um festival “de culto”, nos planos futuros está a preservação do culto?
Sim. Mas penso que faltam alguns títulos “comerciais”, no sentido de que podem abrir o MOTELx a um público mais alargado. O principal será sempre apoiar o terror português e manter o espírito de cine-clube.

O sonho seria ter uma competição de longas-metragens de terror nacionais?
Não desprestigiando as curtas-metragens, que têm o seu espaço próprio e um lugar muito importante no cinema, chegar a um prémio desses significava que o terror tinha atingido um desenvolvimento impressionante em Portugal. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Noites no MOTELx

Cinema São Jorge
Decorreu entre 7 e 11 de Setembro, no cinema São Jorge, o MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, um evento que com apenas quatro anos de existência se tornou uma referência. O público interessado, sempre participativo e interventivo, proporcionou um óptimo ambiente. Uma das coisas que me agrada é ver um dos cinemas emblemáticos da capital cheio de gente, maioritariamente jovem. A propósito do crescimento deste festival, perguntei a Pedro Souto, um dos directores (ver entrevista abaixo), se havia a ideia de o alargar a outros cinemas. Ele foi categórico e disse-me que a casa do MOTELx é o São Jorge.

Noite Sangrenta (*)
Estava curioso em relação a “Noite Sangrenta", a mini-série em dois episódios da RTP, que retrata a noite brutal da "camioneta fantasma" e que abriu o MOTELx em antestreia nacional. Está bem filmada e produzida, notando-se algum cuidado na recriação da época, tanto nos cenários, como no guarda-roupa. Já no registo oral, desiludiu. Por exemplo, soa logo mal o sotaque lisboeta actual de uma criada ou de um guarda prisional de Coimbra, no início do século XX. Estes pormenores prendem-se, a meu ver, com uma falha em reproduzir (ou reconhecer?) a marcada divisão de classes de então. Mas o pior, como alguns me avisaram, é mesmo a inspiração ideológica desta obra. Apesar de se anunciar como obra de ficção, propõe uma versão da tenebrosa "noite sangrenta" na qual os responsáveis são meros idiotas úteis de uma conspiração "das direitas"... É mais uma celebração de uma República imaginária — um mero acto de propaganda.

Survival of the Dead (***)
George A. Romero e Nuno Markl
George A. Romero é um nome que associamos automaticamente a ‘zombies’ e foi o convidado de honra desta edição do festival. Ao apresentar o seu último filme deste tema, notou-se que sentia o carinho do público e mostrou-se muito contente por estar em Portugal. Lembrou que filmes deste tipo são para ser divertidos e que esperava que dessem umas boas gargalhadas e passassem um bom bocado. “Survival of the Dead” é desenvolvido a partir de uma personagem secundária de “Diary of the Dead” (2007) e há uma questão pertinente a colocar: é possível inovar? A resposta é positiva, ou não estivéssemos a falar do “mestre dos mortos-vivos”. Posso adiantar que, apesar de tudo aquilo que esperamos de um filme deste tipo, há uma evolução nos ‘zombies’, que como reconheceu o realizador, deve abrir portas a uma continuação. No último dia, Romero respondeu a perguntas do público, numa sessão moderada por Nuno Markl.

F (****)
Esta foi uma óptima surpresa neste festival, um belo regresso ao medo nos filmes de terror, como disse Johannes Roberts numa vídeo-mensagem antes da projecção de “F”. Este realizador britânico, que à última hora não pode estar presente no MOTELx, não deixou ainda de saudar os espectadores e dizer que este trabalho era uma “carta de amor” a Carpenter e o seu clássico “Assalto à 13.ª Esquadra” (1976). Realmente, o ambiente claustrofóbico da escola que é atacada por jovens encapuzados, cujo único objectivo é assassinar brutalmente quem encontram, é essencial para a tensão permanente que se sente do início ao fim. Mas a história não se resume ao terror. Explora muito bem o campo das relações humanas, sejam no registo politicamente incorrecto em que é tratada a relação aluno-professor, seja na complicada relação pai-filha. A não perder.

Centurion (***)
Mais um realizador britânico que não pode estar presente, mas que em vídeo deu alguns pormenores interessantes sobre a realização de “Centurion”, rodado em seis semanas nas ilhas escocesas em temperaturas negativas e condições adversas. Esse realismo transparece para o filme e é bom. No entanto, apesar das magníficas paisagens serem irresistíveis, Neil Marshall abusa dos planos aéreos. Apesar de certas personagens e algumas opções da história não serem as melhores, esta é uma boa incursão no mundo guerreiro da Antiguidade.

Sala cheia
Curta vencedora e The Revenant (*)
No último dia, foi entregue o prémio MOTELx para a Melhor Curta de Terror Portuguesa 2010 a “Bats in the Belfry” (Portugal, 2010, 8') de João Alves, atribuído pelo júri constituído por Alan Jones, José de Matos-Cruz e José Nascimento. De seguida, foi projectado “The Revenant” (2009), de D. Kerry Prior, um daqueles penosos exercícios que são as tentativas de humor sem graça. Apesar das gargalhadas de parte do público, não me arrancou um sorriso e foi uma estopada que, para mim, fechou mal um óptimo festival. Para o ano, felizmente, há mais. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

FIEL COMPANHEIRO

Este é um filme para todos os que gostam de cães, em especial da estreita relação que se forma entre um cão e o seu dono. Aqui a fidelidade canina ultrapassa os limites do imaginável e a dedicação é de tal forma que nem a morte pode quebrar uma ligação tão poderosa.

Se ainda restam dúvidas, também sou daqueles que considera que “o cão é o melhor amigo do homem”. Esta declaração de interesses tem razão de ser no filme em questão, porque imagino que quem não goste de cães não o veja da mesma forma.

É difícil evitar ‘spoilers’ neste caso, porque a história que inspira este filme é sobejamente conhecida no mundo dos entusiastas caninos. Hachiko foi um cão japonês, de raça Akita, nascido em 1923, que vivia com o professor Ueno, da Universidade de Tóquio. Durante o seu primeiro ano de vida ia esperá-lo todos os dias à estação de Shibuya, à hora exacta da chegada do comboio. Em Maio de 1925, o dono não voltou. Ueno falecera após um derrame cerebral. Apesar de ter sido dado, Hachiko fugiu e voltou à estação para esperar o seu amigo. Fê-lo diariamente durante nove anos! Hachiko tornou-se uma presença acarinhada para as pessoas que todos os dias se cruzavam com ele, muitas das quais o alimentavam. No entanto, foi um aluno do professor Ueno, especialista em Akitas, que celebrizou esta história magnífica, escrevendo vários artigos na imprensa sobre o assunto. O exemplo de Hachi serviu para motivar uma recuperação desta raça canina que se tornou uma referencial nacional nipónica. Em 1932, foi erigida uma estátua de bronze na estação de Shibuya em homenagem a Hachiko.

Em 1987, o japonês Seijirô Kôyama realizou um filme que retratava esta extraordinária história, intitulado “Hachikô monogatari”. No ano passado, o realizador sueco Lasse Hallström, trouxe-nos um ‘remake’ que é uma versão ocidental de Hachiko passada nos dias de hoje, que só agora se estreou no nosso país.
É um daqueles filmes que se costumam classificar como “familiares”, mas bastante comovente. Nesta versão, Hachiko vem do Japão e mantém o nome, mas tudo se passa nos EUA e há várias alterações. Richard Gere vai bem no papel do professor e o resto do elenco cumpre. Este é um actor que envelheceu bem no ecrã, como se costuma dizer, evitando a tentação de ser uma galã depois de tempo. Mas o filme vale pela história que o inspira e gira à volta dela. Há por exemplo uma coisa que podia ter sido explorada de outra forma, que são as imagens que vemos da perspectiva do cão.

Uma nota para uma curiosidade para portugueses. No caminho que Hachi faz de casa à estação de comboios há um talho que tem anunciado “Chouriço e linguiça”, com a imagem da bandeira nacional. Um pormenor para o qual não resisti chamar a atenção dos menos atentos.

Voltando ao início, se duvida que “o cão é o melhor amigo do homem” veja este filme. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


HACHIKO– AMIGO PARA SEMPRE
Título original: Hachiko: A Dog's Story / Hachi: A Dog's Tale
Realização: Lasse Hallström
Com: Richard Gere, Joan Allen, Cary-Hiroyuki Tagawa, Sarah Roemer, Jason Alexander, Erick Avari
EUA/RU, 2009, 93 min.
Estreia em Portugal: 30 de Setembro de 2010.
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TERROR EM LISBOA


Começa amanhã a 4.ª edição do “MOTELx”, o Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, que decorrerá até ao próximo Domingo. Organizado pelo CTLX – Cineclube de Terror de Lisboa, é desde 2007 um espaço de convívio e descoberta pensado para todos os que procuram novos autores, novos filmes e novas abordagens a este género.
O festival terá cinco secções, sendo o “Serviço de Quarto” o espaço dedicado Às longas-metragens, onde este ano sobressai a produção britânica, mas onde podemos também ver filmes vindos de outros países europeus, ou mesmo da Tailândia ou da Austrália. No “Culto dos Mestres Vivos”, dedicado ao norte-americano George A. Romero, que será o grande convidado desta edição, será feita uma retrospectiva da obra cinematográfica do realizador e mostrado o seu mais recente filme “Survival of the Dead”.

A secção “Japão Retro” exibirá três clássicos do cinema de terror japonês seleccionados. Ao “Quarto Perdido”, secção criada no ano passado e que procura as raízes do cinema de terror português, caberá a responsabilidade das honras da sessão de abertura com uma obra portuguesa em antestreia absoluta, “Noite Sangrenta”, realizada por Tiago Guedes e Frederico Serra, uma co-produção entre a RTP e a produtora David & Golias, por ocasião das comemorações do Centenário da República Portuguesa.

Para a secção “Curtas Internacionais”, foram escolhidas 19 curtas-metragens internacionais de 14 países diferentes, do Canadá à Coreia do Sul, do Brasil à Macedónia, da Irlanda à Letónia, que serão exibidas nas sessões do Festival, em complemento das longas-metragens, mas este ano também à hora de almoço. Por fim, o “Prémio MOTELx - Melhor Curta de Terror Portuguesa 2010”, será disputado entre 12 curtas-metragens, produções e co-produções portuguesas, num total de 149 minutos de terror nacional. O Júri será composto por Alan Jones, crítico de renome internacional e especialista em cinema de terror, José de Matos-Cruz, crítico e autor, e ainda, José Nascimento, realizador.

Para além do cinema, o MOTELx contará também com uma apresentação do “liZboa”, um videojogo cuja acção irá decorrer na cidade de Lisboa, em ambientes e locais emblemáticos da cidade, retratando uma pandemia zombie com epicentro na capital portuguesa, sendo o jogador colocado no papel de um dos sobreviventes. A apresentação, que será na quinta-feira às 18 horas, incluirá a mostra da primeira curta-metragem “liZboa”, a primeira demo jogável do projecto e uma sessão de perguntas e respostas. A seguir, às 19:15, terá lugar a “Noite de jogos de Terror”.
No contacto com os autores, haverá um painel de discussão, Sábado às 19:15, sobre o “Brit Horror” com o realizador Neil Marshall (“Centurion”, 2010), que lidera uma autêntica invasão britânica, da qual fazem parte os realizadores Gerard Johnson (“Tony”, 2009), também acompanhado de Peter Ferdinando, o actor principal, Christopher Smith (“Triangle”, 2009), Johannes Roberts (“F”, 2010) e Paul Andrew Williams (“Cherry Tree Lane”, 2010), aos quais se Alan Jones, autor, crítico e especialista em cinema de terror, e membro do júri do Prémio MOTELx 2010.
O destaque vai para a sessão de perguntas e respostas com o convidado principal do festival, George A. Romero, que decorrerá no último dia às 16:30. Razões de sobra para ir – como diz o ‘slogan’ do festival – “onde o terror é bem-vindo”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

MOTELx 2010
Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa
Cinema São Jorge, Lisboa.
De 29 de Setembro a 3 de Outubro.
http://www.motelx.org

REGRESSO AO TERROR

Antes de “Até ao Inferno” começar, há um aviso de que vamos viajar no tempo. O logótipo da Universal é antigo e, pelo que confirmei numa pesquisa rápida, contemporâneo dos primeiros filmes da série “Evil Dead”, nos anos 80 do século passado. Um sinal do regresso de Sam Raimi aos filmes de terror que o celebrizaram.

Bem sei que os chamados filmes de terror preenchem um género que, apesar de ser de culto para muitos cinéfilos, está longe de ser do agrado da maioria. No meu caso, durante a adolescência era um ávido consumidor deste tipo de cinema, algo na moda na altura. Se por um lado havia os considerados filmes de terror “a sério”, cujo expoente máximo era uma das obras magistrais de Stanley Kubrick, “The Shining” (1980), por outro havia os de terror-comédia, no qual se enquadravam este primeiros sucessos de Raimi. E como me divertia com os meus amigos a ver estes filmes! Louvávamos a inventividade deste realizador norte-americano em pormenores marcantes como a sangrenta moto-serra de “Evil Dead II” (1987) ou Ash de caçadeira em punho em plena Idade Média, no delirante “Army of Darkness” (1992).

Foi exactamente após este “Exército das Trevas” que Raimi escreveu, em conjunto com o seu irmão Ivan, este filme que ficaria adiado durante muito tempo. Pelo meio, foi realizador, argumentista, actor e produtor, trabalhando não só em cinema, mas também em séries televisivas e jogos de vídeo. Subiu ao cume do sucesso com a trilogia “Homem-Aranha” (2002, 2004 e 2007) e agora voltou às origens.

Desta vez conta-nos a história de uma analista de crédito que, pressionada pelo chefe e motivada pela progressão na carreira, recusa mais um adiamento a uma velha cigana. A mulher, que cumpre todos os requisitos de bruxa feia, ataca-a e roga-lhe uma praga. A partir daí, a vida perfeita de Christine Brown (Alison Lohman) começa a desmoronar-se. No trabalho, na sua relação com um jovem professor universitário, no seu dia-a-dia, começa a ser atormentada por um espírito maligno que a quer arrastar para o Inferno e, para tentar escapar, Christine vai perder os escrúpulos.

Como não podia deixar de ser, estão reunidos todos os ingredientes para um filme de terror convencional, onde iremos cruzar-nos com um parapsicólogo indiano, uma médium hispânica, um demónio assustador e assistir às imprescindíveis cenas nojentas, que incluem vómitos, vermes, cadáveres, sangue, etc. Nota para as cenas com as moscas; simples, mas eficazes.

Esta verdadeira visita ao passado, com sabor a recompensa para os primeiros fãs de Sam Raimi, resulta numa boa película que merece uma ida ao cinema. Os entusiastas deste género descobrirão ainda uma série de elementos dos trabalhos iniciais do realizador. Um jogo engraçado de memória cinematográfica. Um filme divertido que não surpreende, mas também não desilude, nem no final. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


ATÉ AO INFERNO
Título original: Drag me to Hell
Realização: Sam Raimi
Com: Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver, Dileep Rao, David Paymer
EUA, 2009, 99 min.
Estreia em Portugal: 9 de Setembro de 2010.
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A OUTRA GUERRA

Quando pensamos num filme de guerra norte-americano actual, lembramo-nos automaticamente do Iraque, o conflito que o presidente Obama decretou terminado deixando lá 50 mil soldados. Mas a construção na Nova Ordem Mundial implica várias frentes, como aquela onde no passado penaram ingleses e soviéticos e para onde o mesmo Obama enviou um contingente de reforço de 40 mil soldados no início do seu mandato. A outra guerra está a tornar-se a principal e a chegar ao cinema, como não podia deixar de ser.

É exactamente para esse teatro de guerra que, neste filme, é enviado o Capitão Sam Cahill (Tobey MacGuire) para uma segunda comissão. Já no Afeganistão, o helicóptero onde seguia é abatido e ele é dado como morto. A trágica notícia vai abalar a retaguarda caseira. Sam é casado, tem duas filhas e é o filho preferido. O seu irmão Tommy (Jake Gyllenhaal) é a “ovelha negra” da família, que ainda por cima acabou de sair da prisão. A tensão cresce e as coisas não são, obviamente, fáceis. No entanto, a vida continua e por vezes altera-se como não imaginamos. Tommy, antes bêbado e irresponsável, começa a aproximar-se das sobrinhas e da cunhada e até mesmo do pai que o despreza.

Mas, mais uma vez, todo este ambiente vai sofrer um tremendo safanão. Sam Cahill não morreu. Conseguiu sobreviver a um doloroso cativeiro de torturas e privações impostas pelos taliban devido a uma terrível acção. Quando por fim regressa a casa, em clara e natural situação de ‘stress’ pós-traumático, o regresso ao seu lar perfeito vai ser demasiado difícil.

Depressão, agressividade, ciúme, suspeição, dúvida e violência. Estão criadas as condições para um drama intenso e é o que acontece, com Jim Sheridan ao leme, a responder à altura. Este realizador irlandês, que se notabilizou com o excelente “Em Nome do Pai” (1993), consegue captar com segurança o desempenho dos actores, no qual assenta o filme. Este não é um clássico nem uma revelação, mas Sheridan oferece-nos uma obra bem construída e honesta, neste ‘remake’ do dinamarquês “Irmãos” (2004), realizado por Susanne Bier.

As actuações têm nota positiva, no geral, com destaque para o trio Natalie Portman, à vontade no papel da mulher de Sam, Jake Gyllenhaal, muito bem como o irmão que começa a entrar numa esfera familiar que não era a sua, e Tobey MacGuire, seguro e confiante, a tentar deixar para trás a inevitável colagem ao “Homem-Aranha”. Referência positiva também para Sam Shepard, no papel de Hank Cahill, o pai dos dois irmãos.

Um bom filme sobre os traumas da guerra e a forma como estes afectam necessariamente a estabilidade da vida familiar, onde uma relação fraterna de confiança é seriamente abalada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



ENTRE IRMÃOS
Título original: Brothers
Realização: Jim Sheridan
Com: Jake Gyllenhaal, Natalie Portman, Tobey Maguire, Clifton Collins Jr., Bailee Madison, Sam Shepard, Mare Winningham
EUA, 2009, 105 min.
Estreia em Portugal: 2 de Setembro de 2010.
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O Pequeno Hoplita


Na minha recente ida a Espanha, gostei de ver que o meu filho descobriu, por si, numa visita à Casa del Libro, um livro que eu havia visto na internet e me despertara a curiosidade. Comprei-o, claro. Trata-se de "El Pequeño Hoplita", publicado pela Alfaguara, da autoria de Arturo Pérez-Reverte e com ilustrações de Fernando Vicente. Esta excelente história, que nos leva às Termópilas e aos 3oo de Esparta, está magnificamente ilustrada. Uma óptima forma de transmitir aos mais novos um dos acontecimentos mais importantes da História da Europa e os valores a este inerentes. Para quando uma edição portuguesa?

Abaixo deixo algumas das ilustrações disponíveis no blog de Fernando Vicente.


A CAIXA

Richard Kelly estreou-se em grande como realizador com “Donnie Darko” (2001) e é natural que a sua primeira obra – que é também a sua obra-prima – seja usada como termo de comparação para os trabalhos seguintes. Assim, este seu filme fica muito aquém do desejado, apesar de ser interessante. Estará o talento de Kelly confinado ao seu golpe de génio inicial? O futuro o dirá, mas espera-se sinceramente que não.

“Presente de morte” (adiante falarei desta tradução) conta-nos a história de um típico casal suburbano norte-americano. Ela é professora e ele é engenheiro na NASA, têm uma vida aparentemente normal até que num período de dificuldades laborais inesperadas são confrontados com uma estranha proposta. Arlington Steward (Frank Langella), um homem misterioso, com a cara deformada e extremamente educado e formal, oferece-lhes um milhão de dólares se carregarem no botão da caixa que lhes deixa durante 24 horas, o tempo para decidirem. Mas a decisão está longe de ser fácil, já que Arlington lhes diz que ao ser pressionado o botão morrerá uma pessoa que eles não conhecem. Obviamente, este dilema moral provoca grandes alterações na vida familiar do casal Lewis. Algo entre o recorrente pensamento “e se ganhássemos a lotaria?” e o desprezo pela vida de quem não se conhece.

Outro aspecto bastante interessante é o filme passar-se nos anos 70 do século passado. Apesar do seu tema intemporal, esta opção resulta muito bem. O ambiente está fielmente recriado e por vezes traz-nos à memória os filmes de terror dessa altura – finais de 70 início de 80.

Há um diálogo memorável em que Arlington Steward, quando questionado sobre o porquê do objecto ser uma caixa, responde que a nossa casa é uma caixa, o nosso carro é uma caixa com rodas, e em casa olhamos para uma caixa que vai desgastando a nossa alma até que a caixa que é o nosso corpo morre, para acabar na última caixa. E se repeti na frase anterior sete vezes a palavra “caixa” é porque esse seria o título óbvio para este filme. Bastava fazer uma tradução directa e mantinha o seu carácter enigmático. Mas não, foi preferida uma tradução livre – que neste caso foi mesmo a liberdade para traduzir para o que se quer – que aponta para um filme de terror e desvenda em parte a história.

Nos desempenhos, o destaque vai sem sombra de dúvidas para o excelente Frank Langella. Cameron Diaz cumpre, estando à altura do exigido, e James Marsden desilude numa fraca interpretação. Outra nota negativa para a estreia tardia, numa altura em que há estreias simultâneas é incompreensível que filmes como este cheguem às salas nacionais um ano depois da sua ‘première’ norte-americana.

Apesar do seu início interessante e das imensas possibilidades, o confuso e exagerado ‘twist’ ficção científica com pitadas de terror não resulta no grande filme que este podia ser. Voltando ao princípio, esperemos o regresso do génio de “Darko”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



PRESENTE DE MORTE
Título original: The Box
Realização: Peter Kelly
Com: Cameron Diaz, Frank Langella, Gillian Jacobs, James Marsden, James Rebhorn
EUA, 2009, 115 min.
Estreia em Portugal: 26 de Agosto de 2010.
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UM REGRESSO À GUERRA FRIA

No início deste Verão, as notícias dos agentes secretos russos descobertos e acusados nos EUA trouxeram recordações da Guerra Fria. Coincidência cinematográfica, é o que faz “Salt”, realizado pelo australiano Phillip Noyce, que se tornou conhecido com “Calma de Morte” (1986), onde volta a reencontrar Angelina Jolie, depois de “O Colccionador de Ossos” (1999).

Esta actriz, que no género dos filmes de acção é difícil de dissociar da personagem de vídeo-jogo Lara Croft, trazida ao cinema na série “Tomb Raider” (2001 e 2003), não é propriamente uma das minhas actrizes de eleição. No entanto, depois de saber que o papel principal de “Salt” estava originalmente previsto para Tom Cruise, devo dizer que Angelina Jolie acabou por salvar este filme do desastre total.

Nem começa mal. Evelyn Salt é uma agente da CIA que é acusada por um dissidente russo de ser uma agente adormecida. Segundo as suas revelações, ela pertence a um grupo de crianças que foram treinadas numa base secreta na antiga União Soviética e depois introduzidas nos EUA para chegarem a lugares de destaque dentro da estrutura do poder para utilizações futuras. A sua missão: assassinar o presidente russo durante o funeral do recém-falecido vice-presidente norte-americano. O objectivo: reacender a Guerra Fria entre os EUA e a Rússia.

Ela vai escapar-se espectacularmente da sede da CIA e, a partir daí, a acção frenética não pára mais. De início, a destreza, eficácia e segurança de Salt fazem-nos lembrar um Bourne feminino, com qualquer coisa de MacGyver. É implacável, impiedosa e inventiva. Mas também é inverosímil, sem bem que neste género os limites ultrapassam-se muitas vezes, para gáudio do público. Conta, ainda assim, com alguns pormenores inovadores, como a cena em que Salt, refugiando-se durante uma perseguição numa casa de banho pública, cola um penso higiénico na perna para estancar uma ferida, ou quando movimenta a carrinha numa fuga dando choques eléctricos com um ‘taser’ à condutora.

O que se segue é que desilude. Girando à volta da protagonista, as restantes personagens são demasiado superficiais, quando não vazias. O cúmulo é mesmo o marido de Salt, posto à pressão para dar uma das explicações da história. O próprio enredo deixa a desejar com uma exagerada sucessão de pseudo-revelações anunciadas. Os diálogos são pobres e sempre na turbulência da agitação permanente.

É mesmo pena que não se tenha ido mais além na recuperação de um tema bem interessante como este. Mas enfim, há quem goste da acção pela acção, como uma pastilha elástica que se mastiga e mastiga e nunca se chega a comer nada. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



SALT
Título original: Salt
Realização: Phillip Noyce
Com: Angelina Jolie, Liev Schreiber, Chiwetel Ejiofor, Daniel Olbrychski, August Diehl, Daniel Pearce, Andre Braugher
EUA, 2010, 100 min.
Estreia em Portugal: 19 de Agosto de 2010.
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A FESTA DE STALLONE

Parece que Sylvester Stallone decidiu fazer uma espécie de encontro dos antigos combatentes dos filmes de acção de Hollywood. Convidou todos os amigos e realizou uma obra que apenas se pode considerar uma paródia em homenagem a este género. O problema é que, mesmo assim, é uma estopada.

O argumento resume-se a uma colecção dos lugares-comuns deste tipo de filmes. É aborrecidamente previsível e penosamente sem piada. A única cena cómica verdadeiramente engraçada é protagonizada por Arnold Schwarzenegger, na fugaz aparição do agora governador da Califórnia. Há que dizer que a ideia das cenas em que Stallone goza com ele próprio é boa, mas simplesmente não resulta.

Não sou daqueles que descartam automaticamente este italo-americano com hipertrofia muscular, que garantiu um lugar entre os grandes nomes dos actores de filme de tiros e pancada. Há que dizer que o primeiro Rambo, “A Fúria do Herói” (1982), é um bom filme sobre o difícil regresso da Guerra do Vietname, bem como o primeiro “Rocky” (1976), com o devido encaixe. O que se seguiu nessas duas séries – aparentemente intermináveis – foi muito mau, mas ao que parece foi apenas motivado pelo lucro fácil perante um público “pouco exigente” (para ser simpático). Mas Stallone foi construindo a sua carreira, como quis e entendeu, atingindo um estatuto que lhe permite, agora, fazer brincadeiras como “Os Mercenários”.

Descurando enquadramentos e necessidade narrativa, como era de esperar, há acção com fartura; para “dar e vender”, como reza a expressão popular. Explosões, tiros, armas potentes e pancadaria da grossa, com cenas explícitas e brutais. Mas isso é o menos, porque o pior – mesmo considerando que é uma paródia – é a historieca do ditador de uma minúscula ilha latino-americana ficcionada, com uma bandeira que mais parece de um país árabe, controlado por um mauzão renegado da CIA. Perante tal cenário, um grupo de mercenários aparece para “salvar o dia” – numa tradução directa da expressão americana – muito ao jeito da série televisiva “Soldados da Fortuna”, tendo como contacto a própria filha do general, defensora da liberdade. Já fora da paródia, o espírito do filme é que a América é que é fixe. Aqui, até estes guerreiros a soldo acabam por ter valores e princípios. Pelo meio, ainda debitam algumas das diabolizações recentes da propaganda norte-americana, como na referência aos “malvados sérvios”.

O exagerado elenco de estrelas caídas (pelo menos etariamente) serve apenas para comentar para o lado: “Olha aquele, como ele está…” O mais ridículo é mesmo a recusa da idade de tantos deles, com o recurso à cirurgia plástica, tão em voga, mas que chega a desfigurar as pessoas. O cúmulo é um Mickey Rourke que mal se consegue levantar da cadeira. Para concluir, digo apenas que ir ao cinema ver estes “dispensáveis” é sem dúvida dispensável. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



OS MERCENÁRIOS
Título original: The Expendables
Realização: Sylvester Stallone
Com: Sylvester Stallone, Jason Statham, Jet Li, Dolph Lundgren, Eric Roberts, Randy Couture, Steve Austin, David Zayas, Giselle Itié, Terry Crews, Mickey Rourke, Gary Daniels, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis
EUA, 2010, 103 min.
Estreia em Portugal: 13 de Agosto de 2010.
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OS NOSSOS BRINQUEDOS

Confesso: conservo ainda a maior parte dos meus brinquedos de infância. Não só por motivos sentimentais, mas principalmente devido à minha veia coleccionista. Alguns dei-os já ao meu filho, mas muitos continuam na arrecadação. Como que a dizer que certas coisas que guardamos de outros tempos as vamos passando, gradualmente, às gerações seguintes.

Quem estranhar estas linhas, percebê-las-á quando vir o perturbante início do último filme da trilogia “Toy Story”, iniciada em 1995. O tempo passou e Andy já não é mais uma criança. Vai para a universidade e isso implica mudanças em casa. Decide colocar o seu ‘cowboy’ Woody nas coisas que vai levar com ele e o resto dos seus brinquedos num caixote para guardar no sótão. No entanto há um equívoco que leva os nossos conhecidos heróis a quase serem triturados por um camião do lixo, para acabarem doados a um infantário onde os mais pequenos os tratam, literalmente, à pancada. Mas isso não é o pior, pois depressa descobrem que foram parar a um verdadeiro ambiente prisional controlado por um grupo de brinquedos maus liderados por Lotso, um traumatizado urso de peluche cor-de-rosa.

A partir daí vai viver-se uma aventura para miúdos e graúdos, com várias referências a clássicos, numa história que junta a fuga e o reencontro, a desilusão e o recomeço. Pelo meio há uma série de situações cómicas muito bem conseguidas, como a cena em que Buzz Lightyear, o astronauta do Comando Estelar, é reprogramado pelos seus captores para um modo em que fala espanhol.

Uma das coisas mais extraordinárias e surpreendentes nesta obra dirigida por Lee Unkrich é a personagem Ken, o companheiro da Barbie, a quem é dito a determinada altura: “Tu não és um brinquedo, és um acessório!” Este dilema, ao qual se juntam o estilo desajeitado e efeminado proporcionam ao filme situações verdadeiramente hilariantes.

Esta é a primeira longa-metragem da Pixar a ser realizada em 3D, mas não exagera, felizmente. Aliás, toda a tecnologia neste filme é – como deve ser – acessória. Aqui o interesse fundamental é a história, a riqueza das personagens e o efeito que têm em nós.

Um filme de família no sentido pleno do termo, que nos mostra a importância das brincadeiras, da amizade, da transmissão de valores, da passagem do testemunho. Porque esse é o seu propósito: a continuidade. Um filme a ver, naturalmente, em família.

* Em complemento, passa a curta-metragem de animação “Dia & Noite” (2010), realizada por Teddy Newton.CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


TOY STORY 3
Título original: Toy Story 3
Realização: Lee Unkrich
Vozes (versão original): Tom Hanks, Tim Allen, Joan Cusack, Ned Beatty, Don Rickles, Michael Keaton, Wallace Shawn, John Ratzenberger, Estelle Harris, John Morris, Jodi Benson, Laurie Metcalf, Emily Hahn
Vozes. (Versão dobrada): Miguel Ângelo, Paulo Figueiredo, Carmen Santos, José Raposo, Cucha Carvalheiro, Carlos Freixo, Carlos Macedo, Manuel Moreira, Adriano Luz, , Luís Lucena, Francisco Corte Real, Ana Vieira, Luz Fonseca.
EUA, 2010, 103 min.
Estreia em Portugal: 29 de Julho de 2010.
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SONHO E PESADELO

Os nossos sonhos são um mundo paralelo que interage com o mundo real? Se assim é, um pode influenciar o outro? É então possível manipular um através do outro? Questões que nos traz Christopher Nolan em “A Origem”, filme que realizou e escreveu, que tem sido um sucesso de bilheteira e gerado reacções diversas.

No mundo dos sonhos tudo nos é permitido e Nolan joga com isso para construir uma viagem mental profunda sobre a própria vida e as nossas decisões, os seus caminhos e as nossas opções, os seus paradoxos e mistérios. No plano técnico desta construção, o realizador tanto teve o bom senso de recusar o 3D, como de utilizar os efeitos especiais computorizados ao serviço do filme e não – como parece ser moda ultimamente – como seu objecto central.

A história passa-se num futuro próximo onde é possível entrar nos sonhos alheios e roubar ideias. Este método é bastante utilizado na espionagem comercial, o que levou à necessidade de sistemas de defesa contra tais intromissões. Mas o que vai ser proposto a Cobb (Leonardo DiCaprio) é algo diferente: a colocação de uma ideia na mente de alguém, para provocar um determinado resultado. Isto é considerado praticamente impossível, mas o protagonista aceita o trabalho mediante a perspectiva de resolução da sua vida e do reencontro com a sua família. Para este golpe, precisa de um arquitecto que construa o cenário onde se passará o sonho e descobre a jovem Ariadne (Ellen Page). O nome desta personagem não é inocente e a sua primeira prova de selecção é desenhar labirintos. Na mitologia grega, a filha de Minos, o rei de Creta, deu a Teseu um novelo de linha que lhe permitiu encontrar o caminho de volta do labirinto. O fio de Ariadne tornou-se depois um método lógico para a resolução de um problema. Parece que a chave está nesta referência ao labirinto, símbolo ancestral que remonta ao Neolítico, neste filme que sai dos simplismos habituais de Hollywood. Curiosa, também, no nome de uma das personagens, a recordação do grande mestre do xadrez Bobby Fischer.

Mas, considerações profundas à parte, era preciso fazer um ‘blockbuster’. Nolan não hesitou em aplicar a chapa do ‘heist movie’, com ritmo elevado, muita acção e referências que nos levam a trabalhos anteriores do realizador ou a filmes como “Matrix” (1999) e até “Ao Serviço de Sua Majestade” (1963). Este último vem-nos automaticamente à mente nas cenas na neve, passadas numa fortaleza de montanha, onde todo o ambiente bondiano se torna aborrecido, porque desnecessário. As cenas de tiros e explosões estão muito bem feitas e visualmente bem conseguidas, mas são exageradamente demoradas e prolongam demasiado o filme.

Lembre-se que este filme era um dos projectos de vida de Christopher Nolan e que teve todos os meios, técnicos e financeiros, para o realizar. O grau de exigência torna-se, assim, mais elevado. A fantástica ideia que é colocada neste trabalho não se desenvolve como se esperava. Mas será que isso alguma vez acontece? CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



A ORIGEM
Título original: Inception
Realização: Christopher Nolan
Com: Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Marion Cotillard, Ellen Page, Tom Hardy, Ken Watanabe, Dileep Rao, Cillian Murphy, Tom Berenger, Michael Caine, Pete Postlethwaite
EUA/GB, 2010, 148 min.
Estreia em Portugal: 22 de Julho de 2010.
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CASA DE LOUCOS

O que sabemos da Grécia ultimamente não passa de notícias sobre a crise económico-financeira que atinge a Europa, mas eis que em pleno Verão nos chega o cinema contemporâneo grego, pela mão de Yorgos Lanthimos, realizador que conseguiu com esta sua segunda longa-metragem o prémio “Un certain regard” em Cannes e o grande prémio do Festival Internacional do Estoril, entre outros.

“Canino” não é um filme fácil. É uma experiência alucinante, violenta e perturbante que nos transporta a uma casa de loucos onde se vive uma realidade alterada. Um olhar sobre o controlo dos outros e a manipulação do discurso levado ao extremo. A acção passa-se na Grécia dos nossos dias, mas fica a percepção que poderia muito bem passar-se noutro local e noutro tempo.

O plano inicial, onde um velho leitor de cassetes “explica” que várias palavras têm significados diferentes daqueles que lhes conhecemos, é um verdadeiro mergulho de cabeça nesta história onde o pai mantém, com a cumplicidade da mulher, a sua família numa redoma fechada ao mundo exterior. Tudo se passa numa grande vivenda afastada da cidade onde filhos são isolados do mundo “perigoso” lá de fora por um domínio psicológico brutal, até estarem “preparados”. Nessa “preparação”, que não é mais do que uma parte importante do mecanismo de controlo, os filhos têm fazer jogos e tarefas, sendo premiados com pequenos autocolantes. Este sistema de recompensas lembra automaticamente a educação canina. Há aliás um paralelo entre um cão que a determinada altura sabemos que está a ser treinado numa escola especializada a pedido do pai e um dos “treinos” que este dá aos membros da família para se protegerem dos gatos – os “mais perigosos animais do mundo” –, pondo-os de gatas a ladrar.

Os filhos, cujos nomes nunca sabemos, conhecendo-os apenas por o irmão, a irmã mais velha e a mais nova, são jovens adultos com atitudes acriançadas. O rapaz tem o privilégio de satisfazer as suas necessidades sexuais com uma empregada de segurança que o pai traz da empresa onde trabalha. Mas o sexo com Christina é mecânico, serve aquele propósito e mais nada; não há paixão, nem emoção. Esta rapariga é, assim, um contacto com o mundo exterior e logo se tornará um problema.

Entre os filhos começa a subir a tensão. Apesar do medo criado sobre o mundo lá fora, a curiosidade aumenta. Os métodos de castigo e repreensão já não conseguem evitar todas as transgressões. Aqui está a grande questão do filme. Até que ponto se cria uma realidade para atingir determinados objectivos? Até onde deve uma família proteger-se?

Nesta desconstrução das realidades construídas o campo está aberto a todas as interpretações. Se do modelo familiar passarmos ao modelo de sociedade, e não necessariamente a totalitarismos passados – esses também mais ou menos mitificados –, encontramos hoje vários pontos em comum, das “operações de paz” à guerra das palavras “incorrectas”. Um filme de loucos, mas que dá que pensar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



CANINO
Título original: Kynodontas
Realização: Yorgos Lanthimos
Com: Christos Stergioglou, Michelle Valley, Aggeliki Papoulia, Mary Tsoni, Hristos Passalis, Anna Kalaitzidou
GR, 2009 94 min.
Estreia em Portugal: 29 de Julho de 2010.
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UM DIA E NOITE PARA ESQUECER

A maré de Verão dá à costa alguns bons filmes, mas também nos traz habitualmente aquelas grandes produções de Hollywood com muitos efeitos especiais e actores conhecidos que, após muito alarido, constatamos que não passam de uma verdadeira perda de tempo, mesmo para quem esteja nas chamadas férias grandes.

É o caso de “Dia e Noite”, que na sua publicidade prometia ser um estrondo do entretenimento estival, mas que se revelou um ‘flop’ de bilheteira nos EUA em detrimento de outros filmes que supostamente não seriam tão do agrado dos espectadores norte-americanos. Os maus resultados comerciais iniciais motivaram inclusive uma alteração de imagem na sua campanha promocional. Mudança de mentalidades na pátria do cinema ‘pop-corn’? Duvido. O facilmente constatável é a baixíssima qualidade desta película. Até os ruminadores de pipocas se recusam, por vezes, a comer tudo o que lhes põem à frente.

Esta é uma tentativa de comédia de acção na qual pouco há a desmontar. June Havens (Cameron Diaz) é rapariga solteira que se encontra para todo o filme com Roy Miller (Tom Cruise), um agente secreto numa missão perigosíssima. Ela tem o seu quê de Maria-rapaz, como o gosto pela reparação de automóveis clássicos. Como diz a determinada altura: “O meu pai queria rapazes…” Ele tem uma descontracção permanente e uma agilidade surpreendente, enquanto mata malandros a torto e a direito. Esta dupla vai andar todo o tempo numa correria ofegante, entre tiros e explosões, motas e aviões, saltando entre vários pontos do mundo.

Os ingredientes cómicos limitam-se a situações rocambolescas forçadas e expressões aparvalhadas. Há também uma série de referências aos filmes de agentes secretos, como a cena em que Cruise sai do mar a lembrar o James Bond de “Casino Royale” (2006).

Um pormenor que não nos escapa, ainda para mais como portugueses, são as calinadas geográficas. Serão mais tentativas falhadas de comédia (duvido) ou a habitual ignorância norte-americana nesta disciplina? O refúgio de Roy Miller é um ilhéu tropical que os maus da fita localizam nos Açores! Aqui ao lado, em Espanha, há uma perseguição que decorre entre uma largada de touros na festa de San Fermín… em Sevilha! Mas há mais. Para dar um último exemplo, há uma cena passada na Áustria onde vemos polícias com a designação “Polizei” nas costas cruzarem-se a equipa de médicos legistas com blusões com a inscrição “Coroner”… É piada? Não se percebe.

Ver Tom Cruise a fazer dele próprio e Cameron Diaz em biquíni numa não-história acelerada, com cenas de acção exageradamente irreais e comédia sem graça? É caso para dizer que, ainda por cima com este tempo, há coisas melhores para fazer. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



DIA E NOITE
Título original: Knight And Day
Realização: James Mangold
Com: Tom Cruise, Cameron Diaz, Peter Sarsgaard, Jordi Mollà, Viola Davis, Paul Dano
EUA, 2010, 109 min.
Estreia em Portugal: 15 de Julho de 2010.
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CASA ASSOMBRADA

“O Escritor Fantasma” é uma verdadeira casa assombrada cheia de fantasmas. O primeiro é o realizador. Polanski, a braços com a justiça norte-americana devido a um caso de abuso sexual de uma menor há vários anos, ficou impossibilitado de regressar aos EUA. Esta situação gerou muita polémica, nomeadamente devido à solidariedade de várias celebridades do mundo do espectáculo, que com certeza teriam outra atitude se se tratasse de um dos tantos casos de pedofilia que diariamente enchem a imprensa. Mas há que ter a honestidade de separar as águas, já que a única influência que essa situação tem no filme até é benéfica, pois há claras semelhanças no isolamento e na fuga à justiça que seguramente o inspiraram.

O fantasma mais importante do filme é o que lhe dá o título, um escritor do qual nunca sabemos o nome durante toda a acção, extraordinariamente representado por Ewan McGregor, com a ingenuidade e sinceridade imprescindíveis. Ao ser contratado para redigir na sombra as memórias de um antigo primeiro-ministro britânico – interpretado por Pierce Brosnan, a quem o papel assenta que nem uma luva –, que nos recorda automaticamente Tony Blair, começa a perceber que nem tudo é tão simples e fácil como inicialmente aparentava.

Levado para uma casa que se adivinha ser em Martha’s Vineyard, apesar de ter sido filmada na Alemanha pelas impossibilidades referidas acima, transmite-nos o sentimento de clausura nesta magnífica arquitectura sóbria e ao mesmo tempo tão fria como o mar gelado que vemos lá fora através das paredes em vidro. Aí, a dúvida instala-se e o mistério adensa-se. O fantasma seu antecessor morreu afogado e ele começa a suspeitar de assassinato. Ao mesmo tempo, o primeiro-ministro é acusado pelo Tribunal Penal Internacional e faz tudo para aparentar calma e normalidade. Espionagem, conspiração de opositores políticos, interesses ocultos, movimentações de bastidores – os ingredientes estão todos neste argumento baseado num romance de Robert Harris, que o adaptou ao cinema em conjunto com Polanski.

A história faz-nos recuar até um passado recente: a administração Bush, a Guerra contra o terrorismo, a invasão do Iraque, os voos secretos da CIA, etc. Nesta viagem pelos caminhos sinuosos das altas esferas do poder internacional, temos “flashes” de trabalhos anteriores do realizador e também do mestre Hitchtcock. Mas o que está maravilhosamente bem conseguido é a atmosfera “noir” em que tudo se passa. E não é nada “retro”, pelo contrário, encaixa impecavelmente com um filme dos nossos dias.

Um “thriller” muitíssimo bem construído, onde o cineasta vai levantando véu a véu uma intriga internacional profunda, sempre com uma intensidade que nos agarra à tela durante toda a acção. Onde os actores, talentosamente dirigidos, nos oferecem personagens que se vão revelando ao longo de todo um percurso findo o qual regressamos mentalmente aos pormenores apontados na memória e vemos que estava tudo lá, à espera de ser descoberto. Esta excelente casa assombrada é, sem dúvida, um assombro a não perder. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]




O ESCRITOR FANTASMA
Título original: The Ghost Writer
Realização: Roman Polanski
Com: Ewan McGregor, Kim Cattrall, Olivia Williams, Pierce Brosnan, Timothy Hutton, Tom Wilkinson, Robert Pugh, James Belushi, David Rintoul, Eli Wallach
FRA/ALE/RU, 2010, 128 min.
Estreia em Portugal: 15 de Julho de 2010.
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