O amigo do Rei


“O Discurso do Rei” tem todos os ingredientes para ser um sucesso comercial. É um ‘biopic’ de uma figura da realeza britânica, passado num ambiente histórico e baseado em factos reais. Rapidamente se tornou um dos favoritos aos Óscares, tendo sido nomeado para doze categorias, incluindo a de melhor filme e a de melhor realização.

Tom Hooper, que já havia experimentado o género histórico com as mini-séries “Elizabeth I” (2005) e “John Adams” (2008), realiza um filme mais íntimo, longe de uma grandeza que alguns esperariam, por se passar num período crucial na História da Europa.

Nos anos 30 do século XX, na iminência da Segunda Guerra Mundial, o poder da rádio revela-se da maior importância para a afirmação do soberano perante as massas. A seguir à gravação de uma mensagem de Natal, o rei Jorge V tem um diálogo com o seu segundo filho, o príncipe Alberto, duque de York, no qual chegam à conclusão de que se “tornaram actores”... A rádio é considerada por muitos, à época, como uma verdadeira “caixa de Pandora”, mas é impossível ignorá-la.

No entanto, o príncipe é atormentado pela sua gaguez desde criança, algo que agora se revela um problema ainda maior. A duquesa incita-o a consultar todos os especialistas da área, mas sem êxito. Finalmente, decide recorrer a um terapeuta da fala australiano, cujos métodos são no mínimo estranhos e incluem palavrões e exercícios físicos.

Com a morte do seu pai e a abdicação do seu irmão, o futuro Jorge VI depende directamente de Lionel Logue (Geoffrey Rush) para ultrapassar o seu impedimento de comunicação. Durante os tratamentos desenvolve-se entre ambos uma intimidade que resultará numa amizade profunda. Mas até aí chegar, o caminho será sinuoso. Para além da distinção de classe entre um membro da família real e um súbdito, Logue é um “aussie”, um “colonial”, algo que o situa na base da estrutura social da altura. Por outro lado, este terapeuta excêntrico apercebeu-se pela experiência que a gaguez tem causas psicológicas e consegue entrar na traumatizante adolescência de um príncipe que está longe de ser uma “história de princesas”.

O papel de Jorge VI, notoriamente difícil, é esplendidamente representado por Colin Firth, bem acompanhado pelos desempenhos de Geoffrey Rush e de Helena Bonham Carter.

Esta é uma história de um homem que ultrapassa uma adversidade que o parecia limitar para sempre, para chegar a um desafio ainda maior. Depois de assistir, em família, ao pequeno filme noticioso da sua coroação, Jorge VI vê imagens de um discurso de Adolf Hitler. Uma das filhas pergunta-lhe o que ele está a dizer, ao que o rei responde: “Não sei... mas está a dizê-lo muito bem”. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O LADO NEGRO

O primeiro filme de Darren Aronofsky que vi foi “A vida não é um sonho” (2000), uma viagem alucinante ao vício e à espiral descendente da degradação humana e nunca mais esqueci o nome deste realizador. Anos depois, em 2008, voltaria a surpreender com o excelente “Wrestler”, onde Mickey Rourke interpretou magistralmente um lutador em fim de carreira. Foi, assim, com certa expectativa que vi “O Cisne Negro”, filme que levou Aronofsky de novo ao mundo do espectáculo e suscitou críticas antagónicas, quase numa oposição amor/ódio.

A história desenrola-se em Nova Iorque, no seio de uma companhia de ‘ballet’. Preparando o início da nova temporada, o director, Thomas Leroy (Vincent Cassel), faz um ‘casting’ para a escolha da substituta da anterior estrela, Beth MacIntyre (Winona Ryder). Nesta produção de “O Lago dos Cisnes”, a protagonista tem que desempenhar tanto o papel de Cisne Branco como o de Cisne Negro. A jovem e dedicada Nina Sayers (Natalie Portman) desperta a atenção do director, pela sua técnica e desempenho como Cisne Branco. No entanto, ele hesita em seleccioná-la, duvidando que ela consiga ultrapassar a sua rigidez para atingir a paixão necessária para representar o Cisne Negro.

Ela acaba por conseguir o lugar, para grande felicidade da sua mãe omnipresente e controladora da sua carreira. Mas o caminho para a revelação do seu “lado negro” está longe de ser fácil. A tensão entre ela e Thomas cresce, ao mesmo tempo que, como uma sombra, uma bailarina recém-chegada à companhia, Lily (Mila Kunis), a começa a atormentar.

Esta busca desse lado mais solto, mais apaixonado, há que largar certas restrições. Romper com a rapariga “certinha” e dar asas ao sentimento. Este processo implica uma perda da inocência. Uma transformação. O romper com uma ordem estabelecida.

Tudo isto se passa ao som de uma banda sonora baseada na obra de Tchaikovsky, no ritmo gracioso do bailado e com uma representação de suster a respiração por parte de Natalie Portman. Alguma da crítica falou de ‘overacting’, mas na minha opinião ela encarna perfeitamente a personagem.

Na realização, Aronofsky continua com a sua “câmara ao ombro” que funciona muito bem. O mesmo não se pode dizer quando descai para um registo mais próximo do terror. A coisa não sai bem e era melhor ter-se mantido no ‘suspense’ puro e duro. Por falar nisso, há na história um jogo de espelhos que é transposto literalmente para a tela. As alucinações de Nina são, assim, sentidas pelo público.

Todo este tormento é uma transformação. Todo este percurso é uma busca da perfeição. Esta é a mensagem do filme. Até onde estamos dispostos a ir pela perfeição? O que estamos dispostos a mudar para atingir um fim? Mesmo que esse seja o nosso lado negro... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

ALÉM


Existe vida depois da morte? É possível comunicar com os que já partiram? São perguntas que o Homem tem feito ao longo dos tempos e que não perdem a actualidade. Este é um tema polémico e, pior ainda, muito dado a lamechices e charlatanices. Daí que ver Clint Eastwood debruçar-se sobre este assunto desperta, no mínimo, a curiosidade dos cinéfilos.

Reza a história que Steven Spielberg conseguiu que Eastwood lesse o argumento de Peter Morgan e se decidisse a fazer este filme que estava na calha há algum tempo. Será porque o realizador, agora octogenário, se preocupa mais com a morte? Interrogações a deixar aos especuladores habituais…

Nesta “Outra Vida”, são apresentadas três histórias que logo se percebe que se vão inevitavelmente cruzar. Por um lado temos a personagem mais bem conseguida, George Lonnegan (Matt Damon), um homem simples que consegue comunicar com o além e que já fez disso negócio com a ajuda do irmão interesseiro. Considera que o seu “dom” é na realidade uma maldição que o impede de levar uma vida normal. Abandonou as “leituras” e prefere trabalhar como operário. No entanto, não é tão fácil assim fugir do seu talento. Depois, há os dois gémeos ingleses de 12 anos, Marcus e Jason (Frankie e George McLaren), que vivem com a mãe drogada e alcoólica, controlada pelas autoridades. Jason morre atropelado e o irmão não descansa enquanto não consegue entrar em contacto com ele. Essa busca proporciona alguns momentos engraçados quando Marcus consulta certos charlatães que abundam neste meio. Por fim, a personagem mais fraca, Marie Lelay (Cécile de France), uma jornalista francesa com uma carreira de sucesso e a quem a vida corre de feição, que sobrevive a um ‘tsunami’ enquanto está na Tailândia. Essa experiência de quase-morte vai alterá-la para sempre e fá-la iniciar uma pesquisa sobre as provas científicas de que é possível comunicar com o além.

A fantástica cena do ‘tsunami’, que abre o filme, está muito bem conseguida e realizada. Confere alguma espectacularidade sem cair no exagero. É para isto que servem os efeitos especiais.

Quanto ao lado politicamente incorrecto de Clint, não deixa de aparecer, ainda que pontualmente. É o caso do atentado no metro de Londres ou a cena em que a professora de Marcus o manda tirar o boné dentro da aula, quando ao seu lado está uma rapariga muçulmana trajando o seu ‘hijab’…

Por último, foi na conferência de imprensa dada no New York Film Festival, em Outubro do ano passado, aquando da estreia deste filme, que Clint Eastwood referiu o nosso mestre cinematográfico Manuel de Oliveira. Disse ele: “há aquele realizador português que tem mais de cem anos e continua a fazer filmes. Eu tenciono fazer a mesma coisa!” Esperemos que sim. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

VIAGEM A OUTRO MUNDO


O “Complexo do Alemão” é um conjunto de favelas na zona norte do Rio de Janeiro conhecido pela sua dimensão, pelo tráfico e, em especial, pela extrema violência. O mundo das favelas brasileiras sempre gerou grande curiosidade, mas depois do excelente “Tropa de Elite” (2007), de José Padilha, ganhou um mediatismo colossal. No final do ano passado, a enorme operação militar que se seguiu à série de ataques e atentados perpetrados pelos traficantes cariocas foi amplamente televisionada. Os telejornais abriam com verdadeiros cenários de guerra na “cidade maravilhosa”, que um dia foi capital de Portugal, e as imagens de soldados armados protegidos por blindados a subir os morros mostravam que não se tratava de um mero caso de polícia.

O documentário português “Complexo – Universo Paralelo”, que está agora em cartaz, beneficia muito de toda essa publicidade. Muita da sua promoção e até o próprio ‘trailer’ põem a ênfase nos “bandidos” e na violência. Mas atenção, o filme está longe de ser um exercício de câmara oculta ou uma colecção de imagens explícitas de combate urbano. Reparei que na estreia muita gente esperava algo do género e saiu claramente desiludida. Esta verdadeira viagem a outro mundo, o “universo paralelo” anunciado no título, é antes um olhar para a vida dos habitantes do Complexo.

Os irmãos Mário e Pedro Patrocínio, respectivamente o realizador e o director de fotografia do filme, chegaram ao Complexo do Alemão em 2005 depois de um convite para fazer um teledisco do músico de ‘funk’ MC Playboy. Essa experiência levou-os a frequentar a favela e a realizar várias entrevistas com moradores que captassem as várias realidades e histórias locais. Desse conjunto escolheram quatro personagens representativas. Opróprio MC Playboy, “funkeiro” que é um símbolo cultural da comunidade, preocupado mais com a consciência social que com o crime. Seu Zé, uma espécie de ancião respeitado e influente, que preside à Associação de Moradores e é um conhecedor profundo desta favela que viu crescer. Dona Célia, uma mãe de oito filhos que sobrevive graças à sua “é em Deus”, como ela diz, mas também a uma capacidade de resistência incrível. Vende embalagens para reciclagem para evitar que a família passe fome, incluindo o marido alcoólico que passa a maior parte do dia deitado. Nota-se que é a personagem central, uma imagem paradigmática do ambiente familiar na favela e um exemplo de perseverança. Por fim, os traficantes, jovens que tapam a cara e mostram as suas espingardas automáticas, afirmando estar preparados para tudo, que é como quem diz, a guerra com a polícia.

Os militares por seu turno são filmados como parte da paisagem. Farda camuflada, capacete e arma em punho, normalmente nas esquinas, a controlar os movimentos. A fazer lembrar, por exemplo, soldados israelitas numa operação na Faixa de Gaza.

Um filme bem construído que sai da reportagem sobre troca de tiros, mas que também podia ter ido mais longe. Um olhar interessante sobre um sentimento de fronteira entre dois mundos: o das favelas e o lá de fora. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

UMA HISTÓRIA DE AMOR


No mês seguinte à instauração da república em Portugal, morria um dos grandes mestres das letras russo, Lev Tolstoi, autor de inúmeras obras, entre as quais “Guerra e Paz” ou “Anna Karenina”, mas também inspirador do movimento tolstoiano de cristãos anarquistas.

É exactamente sobre os últimos tempos da vida de Tolstoi que trata “A Última Estação”, longa-metragem realizada por Michael Hoffman, que também escreveu o argumento a partir do romance homónimo de Jay Parini, publicado em 1990.

O filme debruça-se especialmente sobre a questão da cedência dos direitos de autor de Tolstoi ao domínio público, tal como queria Vladimir Chertkov (Paul Giamatti), amigo do escritor e fundador dos Tolstoianos. Tais intenções iam contra a vontade da mulher de Tolstoi, a condessa Sophia Tolstaya, interessada em garantir os rendimentos familiares e um estilo de vida aristocrático. Esta disputa vai pôr em causa a relação e o amor entre Tolstoi e a sua esposa e gerar inúmeros conflitos dentro da família e do movimento.

A meio deste turbilhão surge um novo elemento, Valentin Bulgakov (James McAvoy), recém-nomeado secretário de Tolstoi, seguidor dos seus ensinamentos e grande admirador da sua obra. Privando tanto com o escritor como com a sua mulher, a sua fidelidade acaba por ser dividida e tenta, dentro do possível, atenuar a tensão.

Apesar de tolstoiano, Bulgakov começa a interrogar-se sobre várias das posições do movimento e atitudes dos seus dirigentes, ao mesmo tempo que se apaixona por Masha (Kerry Condon), outra tolstoiana com dúvidas. Mas é o próprio Tolstoi que faz com que Bulgakov se questione, quando por exemplo lhe diz, depois de contar peripécias de juventude, “eu não sou lá um grande tolstoiano”.
Essa é talvez a parte mais interessante desta história, a reflexão sobre a concretização de um movimento e a vontade e posição da sua figura de referência. Até que ponto os seguidores o seguem realmente? Serão, como reza o ditado popular, mais papistas que o Papa?

Neste filme de época, com uma realização que cumpre, há a destacar as soberbas interpretações dos dois protagonistas Christopher Plummer, no papel de Tolstoi, e Helen Mirren, no papel de Sophia Tolstaya, que lhes valeram nomeações para os Óscares.

Por fim, para aqueles impacientes que saltam das cadeiras mal acaba a acção, chamo a atenção para não o fazerem. Durante o filme vemos que Tolstoi estava constantemente a ser filmado no seu dia-a-dia, o que gera uma curiosidade natural em ver as imagens originais. Acontece que essa curiosidade é satisfeita, pois várias dessas passagens acompanham os créditos finais. Uma oportunidade para comparar com o que acabámos de ver. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

SIMPLESMENTE MÁGICO


Para muitos, esta altura é a indicada para ir ao cinema ver filmes de animação em família. Todos eles, claro, de produção norte-americana e na sua maioria muito (demasiado?) movimentados, cheios de efeitos estrondosos, ambientes futuristas e, ultimamente, condenados ao 3D. Felizmente, há vida para além disso…

Que belíssima surpresa é encontrar nas salas nacionais uma obra de animação cinematográfica europeia, mais concretamente franco-britânica, dirigida por um realizador talentoso como Sylvain Chomet, que nos maravilhou com “Belleville Rendez-vous” (2003). Se tudo isto não for suficiente, acrescente-se que este filme é baseado num argumento original de Jacques Tati e traz-nos uma história simples mas tocante.

Foi a filha de Tati, Sophie Tatischeff, que levou Chomet a este argumento que o seu pai escrevera com Henri Marquet em finais dos anos 50 do século passado. A história era demasiado pessoal e, supostamente, para ser representada por ela e por Tati. Contava-nos o fim de carreira de um ilusionista francês que, fazendo espectáculos em locais decadentes para sobreviver, acabava por ir para Praga, onde encontrava uma rapariga que acredita na sua magia e com quem desenvolve uma relação pai-filha, mudando a sua vida. Sophie acabou por achar que esta “carta de amor” do seu pai ficaria bem em versão animada e que Chomet era a pessoa certa para o fazer. Ela morreu antes de o realizador ter iniciado o projecto, mas os responsáveis pelo espólio de Tati mantiveram a autorização.

Há que referir uma controvérsia à volta das intenções originais, suscitada pela filha mais velha de Tati, Helga Marie-Jeanne Schiel, ainda viva, que afirmou que esta era uma tentativa de reconciliação do seu pai com ela. Chomet discorda e disse que nunca chegou a conhecer Sophie, mas que pensava que Tati o havia escrito para ela devido à culpa que sentia por estar afastado dela enquanto trabalhava.

Voltando a este “Mágico”, não é só nas semelhanças físicas do ilusionista do filme que vemos o próprio Tati. Este tem mesmo o seu nome completo: Tatischeff. No entanto, há mais nesta personagem do que a sua reprodução mimética.

Nesta versão, Chomet trocou a Checoslováquia do argumento original pela Escócia onde tem o seu estúdio, mas a visão poética e melancólica sobre a passagem do tempo nada perde com isso. Edimburgo proporciona até um duplo ‘cameo’, quando Tatischeff entra num cinema e vê projectado o filme de Tati “O Meu Tio” (1958). Esse cinema existe ainda hoje e chama-se Cameo.

A opção da animação tradicional, com um recurso mínimo ao digital, confere uma autenticidade ao filme que é profundamente sentida. Os escassos diálogos, as pequenas imperfeições das personagens, as magníficas paisagens, os pormenores, o movimento compassado, podem ser apreciados nesta obra que se desenrola tal e qual como o tempo da história que conta. Uma passagem do tempo intemporal. Para ver e rever. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

STONED


Pode julgar-se um livro pela capa? E um filme pelo elenco? Mesmo que as prestações dos actores sejam muito boas, é algo que só por si não basta para que o conjunto de elementos que constituem uma obra cinematográfica funcione. “Stone – Ninguém é Inocente” é uma demonstração prática disso.
O cartaz anuncia três estrelas de peso: Robert De Niro, Edward Norton e Milla Jovovich. A frase promocional aumenta-nos a curiosidade ao dizer que: “Algumas pessoas contam mentiras. Outras vivem-nas.” O ‘trailer’ faz-nos esperar um ‘thriller’ movimentado, que nunca chega a acontecer.

De início, a coisa promete. Ficamos a saber que há em Jack Mabry (Robert De Niro) um lado sombrio que contrasta com o agente de liberdade condicional à beira da reforma, com a imagem de funcionário e cidadão exemplar, que trabalha num estabelecimento prisional. A sua rigidez inabalável e o controlo do seu poder de decidir a quem pode abrir as portas para a liberdade antecipada vão ser postas em causa por Gerald Creeson (Edward Norton) – que anuncia prontamente que preferem que o tratem por “Stone”. O primeiro encontro entre ambos é um diálogo simplesmente formidável. Vendo que dificilmente convencerá Mabry a libertá-lo, “Stone” faz com que a sua mulher Lucetta (Milla Jovovich) o seduza e isso vai libertar um jogo de enganos, intenções cifradas e passados ocultos.

Como referi, de início parece que estamos a ver um ‘thriller’, mas o filme depressa parece tornar-se um exercício psicológico, para enveredar por um caminho metafísico, com uma tentativa de drama sobre o sentido da vida e a presença divina. O pior é que a realização reflecte esta confusa evolução, com uma construção atabalhoada e um ritmo incerto.

Voltando às representações, tenho que dizer que nos papéis principais estão dois dos actores norte-americanos, de diferentes gerações, que mais aprecio. O velho mestre De Niro continua em grande forma e apesar de tudo consegue proporcionar momentos maravilhosos, dos simples olhares aos estados de irritação. É incrível como consegue acrescentar sempre qualquer coisa às personagens. Não se limita a encarná-las, mas a conferir-lhes algo de próprio, que conseguimos identificar.

Por outro lado, Norton parece inicialmente uma antítese de Derek, o ‘skinhead’ de “América Proibida” (1998), também encarcerado. Desta vez é aquilo a que se chama (não simpaticamente) um ‘wigger’, ou seja um branco que se comporta como um negro, no vestir, no falar, no agir. Fenómeno que se espalhou dos EUA para o resto do Ocidente, tem no Michigan – estado onde se desenrola a acção deste filme –, especialmente em Detroit, grande incidência. É nestes opostos que se distingue, acima da capacidade, o talento de um actor.

“Stone”, pelo nome, podia ser uma pedrada, mas infelizmente pouco mais é que um inerte. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

PLAMEGATE


Quem se lembra de Valerie Plame? Talvez só pelo nome seja difícil, mas para quem acompanhou o início da Segunda Guerra do Golfo, nomeadamente toda a operação de ‘marketing’ sobre a existência no Iraque de armas de destruição maciça (AMD), que justificavam mais uma intervenção estrangeira naquele país para, supostamente, lhe levar pela força a “liberdade iraquiana”, talvez se lembre do caso que inspira este filme.

Em 2003, a administração Bush, ansiosa por atacar o Iraque, manipulou as informações que tinha sobre a investigação acerca de um possível programa nuclear iraquiano para o fabrico de armamento. Nessa altura, Valerie Plame era uma operacional da CIA, especificamente na área de não-proliferação, cuja missão, entre outras, era garantir que o Iraque não tivesse acesso a armas nucleares. Muito bem relacionada no meio e profunda conhecedora dos movimentos comerciais, afirmou desde o início que os famosos tubos de alumínio comprados pelo Iraque não serviam para o enriquecimento nuclear. Ao mesmo tempo, começam a haver suspeitas de que o Iraque havia comprado quantidades significativas de urânio para produção nuclear, conhecido como ‘yellowcake’, ao Níger. A CIA contratou o antigo diplomata e embaixador Joe Wilson para investigar, que chegou à conclusão que tal era impossível. Quando se apercebeu que as suas investigações haviam sido ignoradas e até deturpadas, publicou um artigo no “New York Times” intitulado “O que eu não encontrei em África”, para repor a verdade.

O problema é que Wilson era marido de Valerie... O gabinete do vice-presidente Dick Cheney, nomeadamente através do seu conselheiro “Scooter” Libby, decidido a eliminar quem se opusesse à teoria das AMD, passou informações ao jornalista Robert Novak, do “Washington Times”, que publicou um artigo denunciando publicamente Valerie como agente. Aí começou um verdadeiro pesadelo.
“Jogo Limpo” é baseado tanto no livro de Valerie Plame, “Fair Game: My Life as a Spy, My Betrayal by the White House”, publicad em 2007 e em “The Politics of Truth. Inside the Lies that Led to War and Betrayed My Wife's CIA Identity: A Diplomat's Memoir”, da autoria do seu marido, publicado três anos antes.
Tal explica porque este filme, que poderia ser um belíssimo ‘thriller’ político se fique mais por um relato de vida e uma história sobre a “luta pela verdade”, bem ao estilo norte-americano.

Na realização, Doug Liman, que recentemente nos trouxe o interessante segundo filme da série Bourne, “Identidade Desconhecida” (2002), mas também o insuportável “Mr. e Mrs. Smith” (2005), cumpre sem arriscar. Esta é uma obra que assenta fundamentalmente nas excelentes representações dos dois actores principais, Naomi Watts e Sean Penn, e no interesse nesta história de uma mulher que por detrás de uma vida normal era uma espia, algo na realidade bem diferente do retratado em tanta ficção. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

PRESO NO MOTIM


Por várias vezes me tenho queixado do inexplicável atraso com que certos filmes chegam às salas do nosso país e mais uma vez não posso deixar de referi-lo. Neste caso nem a proximidade geográfica nos valeu, já que “Cela 211” aparece finalmente por cá mais de um ano depois da sua estreia em Espanha. Escusado será lembrar as implicações comerciais destas opções, com os descarregamentos na internet ainda mais facilitados depois da saída o DVD.

Êxito cinematográfico no país vizinho, onde ultrapassou os dois milhões de espectadores e arrecadou oito prémios Goya, este ‘prison movie’ conquistou o público com o seu realismo e intensidade que prendem a atenção até ao final.

Juan Oliver (Alberto Ammann) é um guarda prisional que vai iniciar funções e quer causar boa impressão desde o princípio. Para tal, decide ir ao estabelecimento onde foi colocado na véspera do seu primeiro dia de trabalho para ver como tudo funciona. Durante a visita com dois colegas é atingido por um pedaço do tecto que lhe cai na cabeça. Inconsciente, é levado para a cela 211, quando ao mesmo tempo se desencadeia um motim na prisão. À frente desta onda de violência está o implacável Malamadre (Luis Tosar) e tudo se afigura aterrador para Juan. Mas o jovem funcionário, no desespero de sobreviver, decide tentar a única coisa que o pode salvar – fazer-se passar por um dos detidos. Este jogo arriscado vai-se tornando cada vez mais perigoso, ao mesmo tempo que Juan vai conquistando a confiança dos reclusos, do seu líder e subindo na hierarquia dos amotinados. Até aqui a história é interessante, mas podia não passar apenas disso. Felizmente, há um ‘twist’ que nos leva a pensar nas nossas motivações e em como estas podem mudar num ápice perante alterações de fundo. Quem somos realmente? O que conseguimos fazer?

No campo da representação, destaque natural para o notável trabalho de Luis Tosar no papel do carismático líder dos detidos. Este actor galego encarna muito bem Malamadre, personagem bem construída que reflecte um homem violento, duro e impiedoso, mas ainda assim seguidor de um código de honra próprio, cuja autoridade agressivamente mantida é reconhecida pelos demais. Referência também para Alberto Ammann que, tal como a sua personagem, se vai revelando ao longo do filme, proporcionando uma óptima evolução, essencial para a história.

Ao ver esta viagem ao mundo prisional espanhol, não pude deixar de recordar um filme de que aqui falei quando estreou no início deste ano. Trata-se de “Um profeta” (2009), do francês Jacques Audiard, um outro olhar sobre os cárceres europeus no qual há alguns pontos em comum interessantes. Há em ambos a presença de membros de grupos terroristas, mas o pormenor mais interessante é a actual composição étnica, nomeadamente os gangues provenientes da imigração que têm cada vez mais força e poder.

Um filme europeu com bastante acção e a capacidade de atrair o grande público, mas nem por isso a desprezar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O EUROPEU


Se por ver o nome de George Clooney associado a um filme sobre um assassino profissional acha que encontrará em “O Americano” o habitual filme de acção de Hollywood, desengane-se. Este não é para as meninas que querem ver o galã, nem para os meninos que querem ver o engatatão. A frieza da sequência original, passada apropriadamente no clima gélido da Suécia, mostra que vamos entrar num mundo diferente.

Para sair dos ‘clichés’ cinematográficos deste género, a escolha do realizador não podia ter sido mais acertada. Anton Corbijn é um fotógrafo aclamado, desde há muito tempo ligado ao meio musical, que realizou vários telediscos e em 2007 nos concedeu uma verdadeira dádiva intitulada “Control”. Um filme fenomenal que é um relato tocante sobre o malogrado Ian Curtis, vocalista do grupo musical Joy Division, onde Corbijn revelou a sua mestria no grande ecrã.

É por isso que este “americano” é mesmo um “europeu”, com planos prolongados, sequências lentas, economia de diálogos e ausência de música desnecessária. Este último aspecto é bastante importante, já que confere ao filme uma dimensão muito diferente daqueles que na sua banda sonora desprezam o poder do silêncio. Em tudo isto há um ambiente ‘dark’, muito bem conseguido, que nos transporta a alguns ‘thrillers’ dos anos 70 do século passado. Nota ainda para o óptimo aproveitamento das magníficas paisagens da região de Abruzzo, opondo ao facilitismo de uma visão turística um olhar da terra.

Jack (George Clooney) é um assassino profissional em fuga que encontra esconderijo numa pacata povoação italiana. Durante o tempo que aí passa, começam a despertar dúvidas existenciais. Como lhe diz o seu enigmático protector num dos diálogos, “não costumavas ser assim”. Mas este homem duro e marcado por uma vida implacável e solitária tem ainda um trabalho, que deseja ser o último. Desta vez não tem que matar, mas transformar uma carabina para um assassinato que será cometido por outro. Aqui começa a revelar-se um artesão, um homem atento ao pormenor, ao mesmo tempo que a relação com uma prostituta evolui num sentido amoroso. Clooney encarna esta personagem com um desempenho profundo, a contrastar com os seus trabalhos mais ligeiros.

Apesar de este ser um filme substancialmente diferente, onde há Clooney tem que haver mulheres. Mas aqui, as três ‘belle’ que aparecem estão na casa dos trinta e, ao contrário da “beleza” artificial tão em voga, reflectem tipos europeus.

Uma das críticas que li e que reconheço é a do fraco argumento. No entanto, nem mesmo isso afecta grandemente a obra, porque por vezes há histórias na (de?) vida que são previsíveis e iguais a tantas outras. Um filme a apreciar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

O CRIME COMPENSA

Diz-nos a publicidade a “Inside Job” – título perfeito, mas infelizmente intraduzível – que este filme custou mais de 20 triliões de dólares a fazer. O pior é que esse dinheiro é de todos nós, melhor dizendo, de todos os afectados pela profunda crise económico-financeira que estoirou em 2008. Milhões de pessoas perderam os seus empregos, as suas casas e as suas poupanças. Como foi possível essa tragédia? Quais as suas origens? Quais os seus culpados? Algo foi feito para resolvê-la?

Este é um documentário corajoso que responde a estas questões de uma forma clara e acessível e incisiva, com o recurso a entrevistas, gráficos, títulos de jornais e imagens de arquivo. Tudo muito bem montado, em sequências bem ritmadas que nunca se tornam maçadoras e prendem a atenção do espectador e com a narração do actor Matt Damon.

O responsável por este trabalho de verdadeiro serviço público, isento e bem documentado, é Charles Ferguson que o realiza, produz e escreve. Ferguson é formado em Matemática e doutorado em Ciência Política. Profissionalmente foi empresário na área das novas tecnologias e entretanto passou ao cinema, onde se notabilizou com o documentário sobre a guerra do Iraque “No End in Sight” (2007). Para fazer este filme viajou pelo mundo questionando especialistas, políticos e alguns dos responsáveis pelo desastre financeiro, a quem não teve qualquer problema em colocar as perguntas mais difíceis. Alguns recusaram dar entrevistas e essa atitude é referida, outros ficam sem palavras, incomodados, enervados e há até quem peça para desligar a câmara.

Traçando um percurso desde que se abandonou o modelo financeiro tradicional americano, concretamente com a administração Reagan, mostra-nos como a alta finança começou a ser cada vez mais concentrada e poderosa, de tal forma que começou a dominar a política, independentemente de ser republicana ou democrata. Como é dito a determinada altura, o que existe é um “governo de Wall Street”.

Mas o que mais revolta é a impunidade generalizada que verificamos ao ver que os principais responsáveis continuam a fazer uma vida milionária, coleccionando mansões e jactos privados, ao mesmo tempo que recorrem a serviços de prostituição de luxo e ao consumo de cocaína. Tudo vale neste jogo de ganhar dinheiro à custa da miséria alheia.

A parte final do filme é bastante reveladora do que nos guarda o futuro. Apesar das boas intenções anunciadas pelo recém-eleito presidente Obama, a triste realidade é que nada, ou quase nada, se alterou. Aquele que se apresentava como apóstolo da “mudança”, afinal reconduziu ou colocou em lugares de topo vários responsáveis directos por um ‘meltdown’ nunca antes visto. Para reflectir e agir. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]




INSIDE JOB – A VERDADE DA CRISE
Título original: Inside Job
Realização: Charles Ferguson
Com: Matt Damon (narração)
EUA, 2010, 120 min.
Estreia em Portugal: 11 de Novembro de 2010.
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O MOSTEIRO

Quando há uns meses atrás “Dos Deuses e dos Homens” se estreou em França, rapidamente se tornou um fenómeno cultural e um êxito imediato de bilheteira, ultrapassando um milhão de espectadores nas duas primeiras semanas. Apesar de ter vencido o Grande Prémio do Festival de Cannes 2010 e recebido o aplauso da crítica, não deixa de ser surpreendente para um filme austero sobre monges.

No início dos anos 90 do século passado, na sequência da anulação das eleições que anunciavam uma vitória da Frente Islâmica de Salvação, começa a guerra civil argelina, também conhecida como a “década negra”, ou “do terrorismo”, que opôs o exército nacional a grupos islamitas armados. A história do filme situa-se em 1996, no centro desse conflito sangrento, e baseia-se no caso verídico do rapto e assassinato dos cistercienses do mosteiro de Tibhirine, nas montanhas do Atlas. Este enquadramento não é dado, tal como o importante papel desempenhado historicamente pelos mosteiros cristãos na Argélia, mas é essencial para se perceber melhor certas passagens.

Parece que o primeiro motivo da atracção desta obra, é o fascínio pela opção da reclusão monástica, em especial no mundo materialista e egoísta em que vivemos. Ao contrário dos excessos consumistas que nos rodeiam, os ascetas deste mosteiro prezam o silêncio, oram em conjunto, vivem da terra e ajudam a população local. Há algo de sedutor em todo este minimalismo, numa época de grandes efeitos especiais. Nota-se que o realizador deu uma especial atenção ao pormenor nas cenas passadas no mosteiro. Xavier Beauvois, que também foi co-argumentista, esteve sempre acompanhado por um especialista que o aconselhou, afirmando que “a dimensão documental é essencial”. Nas representações, destaque para as prestações de Lambert Wilson, no papel do irmão Christian, o líder, e de Michael Lonsdale, que encarna brilhantemente o terno irmão Luc, o médico que assiste todos sem excepções.

Perante a proximidade crescente da ameaça terrorista, instala-se nesta comunidade pacífica a dúvida sobre a permanência naquele local e o possível martírio. Mas esta esconde uma série de questões mais profundas, como a do papel de cada um no mundo e qual o significado das suas escolhas.

É impossível não pensar também na difícil relação da França com o seu passado colonial, no actual conflito com o islão que se vive agora em território francês e nos ataques de islamitas a cristãos que aumentam hoje em dia em todo o mundo.

Um bom filme que, ao que tudo aponta, poderá ser o representante francês na cerimónia dos Óscares da Academia, em Fevereiro do próximo ano, na nomeação para um Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


DOS HOMENS E DOS DEUSES
Título original: Des Hommes et des Dieux
Realização: Xavier Beauvois
Com: Lambert Wilson, Michael Lonsdale, Olivier Rabourdin, Philippe Laudenbach, Jacques Herlin, Loïc Pichon, Xavier Maly, Jean-Marie Frin
FRA, 2010, 120 min.
Estreia em Portugal: 11 de Novembro de 2010.
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"GOSTO DISTO"

“Tens facebook? Eu procuro e depois adiciono-te como amigo.” Esta é a uma passagem de um diálogo que se tornou habitual nos dias que correm. As chamadas redes sociais na internet entraram nas nossas vidas e, quer queiramos quer não, muitas das nossas relações passam pelos computadores. É por isso que um filme que aborda a maior e mais bem sucedida dessas redes – daí o artigo definido no título, já que o facebook deixou de ser “uma” rede social, para se tornar “a” rede social – atrai sobre si toda a atenção do momento.

Aqui cruzam-se as histórias da génese do facebook e dos processos judiciais que se seguiram ao seu sucesso rápido, extraordinário, e principalmente milionário. Uma “seca”? Longe disso. Felizmente, o talentoso David Fincher está aos comandos. Este realizador norte-americano, que nos trouxe o profundo “Sete Pecados Mortais” (1997), o alucinante “O Jogo” (1995) e o magistral “Clube de Combate” (1999), continuando a mostrar a sua mestria em “Zodiac” (2007), consegue mais uma vez agarrar-nos ao ecrã com um trabalho impecável a um ritmo alucinante, onde tudo acontece à velocidade que Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg) escreve no teclado. Porque esta é a velocidade a que tudo aconteceu e acontece na era da internet e da informação ao momento.
Mas desengane-se que espera um filme documental sobre o facebook, o que aqui está em causa – como em qualquer rede social – são as relações humanas. Bem humanas, cara a cara, longe do relacionamento virtual, com zangas de melhores amigos, traições, desencontros amorosos, desilusões, ressentimentos. Esse é o prato forte e é por isso que, para mim, criticas à veracidade da história ou da personalidade de Zuckerberg não abalam este filme. Ainda por cima porque o argumento, redigido por Aaron Sorkin a partir do livro “The Accidental Billionaires” de Ben Mezrich, está muito bem escrito e alguns dos diálogos são pura e simplesmente notáveis.

Outro ponto muito interessante é a “viagem ao centro de Harvard”, nomeadamente ao choque entre dois mundos que lá co-existem: o dos génios e o dos descendentes das tradicionais famílias da elite norte-americana. Neste confronto as relações estão longe de ser fáceis e uma das coisas mais importante é o acesso a clubes restritos. Para conseguir entrar nesse mundo reservado, os alunos estão dispostos a passar por provas iniciáticas humilhantes. Mas os “nerds” que inventam todas estas novidades informáticas estão longe do estereótipo do “marrão”. Pelo contrário, são adolescentes de capacidades impressionantes, mas que estão muitas vezes bêbados, consumindo drogas ou em festas.

Esta é a nova elite norte-americana. De bilionários cada vez mais novos que ascendem a um patamar financeiro inimaginável num ápice, mas que mantêm uma irreverência infantil, como o demonstra, por exemplo, o cartão de visita de Mark Zuckerberg, que de início dizia “I’m CEO... bitch!”

Quando saí do cinema houve um pensamento que me passou pela cabeça: de certeza que toda a gente na sala tinha conta no facebook... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


A REDE SOCIAL
Título original: The Social Network
Realização: David Fincher
Com: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake, Joseph Mazzello, Armie Hammer, Max Minghella, Rooney Mara, Brenda Song
EUA, 2010, 121 min.
Estreia em Portugal: 4 de Novembro de 2010.
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A OUTRA FILHA

“A Nova Filha” conta-nos a história de John James (Kevin Costner), um escritor que parte com os seus dois filhos menores, Louisa (Ivana Baquero) e Sam (Gattlin Griffith), para a Carolina do Sul, após ter sido abandonado pela mulher. Na esperança de um recomeço, compra uma enorme casa isolada onde tenta reatar uma relação familiar.

A situação é desde logo complicada. A rapariga, que é a mais velha dos dois irmãos, está em plena adolescência e inferniza a vida do pai que não sabe como lidar com ela. O rapaz tenta agradar, mas cedo se nota que o trauma do abandono foi grande e teve as suas repercussões.
Como se tal não bastasse, o comportamento de Louisa começa gradualmente a alterar-se. O pai, de início, convence-se que são atitudes próprias da idade e vai tentar “chegar” a ela. Mas esta mutação está directamente ligada a um estranho monte que existe nas traseiras na casa.
Segundo alguns, esta é uma antiga campa de índios, e há inclusive quem as estude. É o caso de um professor universitário, uma das piores personagens da história, à qual se junta a má prestação do respectivo actor.

Estão reunidos todos os elementos para um filme de terror clássico. No entanto, os ‘clichés’ são tantos que até desesperamos, as actuações são sofríveis e mesmo Kevin Costner fica muito aquém do que já demonstrou. É a pergunta que nos salta automaticamente à cabeça é a seguinte: o que fará com que actores conceituados escolham filmes de tão baixa qualidade?

O espanhol Luis Berdejo, que surpreendeu com [Rec] (2007), realiza este filme com argumento de John Travis baseado num conto de John Connolly. Não conhecia a história original, mas ao que parece o filme é-lhe fiel. Tanto pior para o conto, que também deve ser outra desilusão.
O início até parece prometer, com alguns planos bons e uma boa ideia para um filme, mas rapidamente descamba e apercebemo-nos que vamos ser torturados na sala de cinema. Porque esta é uma película francamente má, há-que dizê-lo.

O desenrolar da acção é de início inexplicavelmente muito lento e de repente acelera como ninguém. Para terminar a pior maneira. A história não funciona, apesar do potencial, os actores vão mal, apesar da presença de uma estrela como protagonista, os lugares-comuns dos filmes de terror repetem-se enjoativamente. Este pesadelo, que parece não acabar, nem chega a ser um filme de terror. Talvez um suspense com aspirações a terror ‘light’…

A nós resta-nos fugir. Não dos inenarráveis seres monstruosos que no final de contas são os responsáveis por tudo, mas de quase duas horas de aborrecimento. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



A NOVA FILHA
Título original: The New Daughter
Realização: Luis Berdejo
Com: Kevin Costner, Ivana Baquero, Samantha Mathis, Gattlin Griffith, Noah Taylor, Erik Palladino
EUA, 2009, 108 min.
Estreia em Portugal: 21 de Outubro de 2010.
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CIDADE DO CRIME

O cartaz promocional deste filme diz-nos “bem-vindos à capital americana dos assaltos a bancos”, para sabermos de antemão aonde vamos. A “cidade” é Charlestown, um bairro operário de Boston onde o crime é uma realidade constante e a arte dos assaltos passa de pais para filhos por tradição familiar.
É o caso de Doug MacRay (Ben Affleck), um filho da terra que não escapou à regra. Lidera uma quadrilha de assaltantes que tem por alvo bancos e carrinhas blindadas de transporte de valores. Ele é o cérebro das operações que correm com rapidez e eficácia, ladeado pelo seu “braço direito”, o violento e implacável “Jem” James Coughlin (Jeremy Renner). São como irmãos nesta vida criminosa, mas para Doug este é um caminho que não quer seguir para sempre e a ideia de um recomeço longe de ‘the town’, confortavelmente assegurado pelo produto de um grande golpe, ganha cada vez mais força na sua cabeça.
Na fuga de um assalto, “Jem” decide levar a gerente bancária que lhes abriu o cofre como refém. O grupo solta-a vendada, mas ele suspeita que ela se possa ter apercebido de algo que os denuncie à polícia. Diz a Doug que vai “tratar do assunto”, ao que este lhe diz que não, pois ele próprio descobrirá se ela os pode realmente comprometer. Claire (Rebecca Hall) é também uma rapariga de Charlestown e acaba por envolver-se numa relação amorosa com um homem que ela nem sonha quem é...
Neste perigoso romance, onde Doug vislumbra o seu desejado recomeço, vão cruzar-se a pressão das autoridades policiais, o incómodo de uma relação anterior, um passado familiar que o atemoriza, as fidelidades ao grupo e ao seu “irmão” e a rede mafiosa organizada que vê com muito maus olhos aqueles que dela tentam escapar.
Affleck sai-se bem nesta que é a sua segunda longa-metragem, depois de “Vista Pela Última Vez...” (2007), ao filmar numa cidade que lhe é bastante familiar, e é eficaz nas rápidas sequências de acção. O elenco é bem dirigido e tem uma boa prestação, mas podemos questionar-nos como seria o filme com outro protagonista. Nota especial para Jon Hamm, conhecido pela excelente série televisiva “Mad Men”, no papel do agente do FBI responsável pela investigação, que de certo veremos mais frequentemente no grande ecrã. Mas é Jeremy Remmer que, depois de “Estado de Guerra” (2008), volta a surpreender. Li que na preparação do seu papel chegou inclusivamente a falar com assaltantes de Charlestown, nomeadamente para apanhar o seu sotaque característico.
Não chega ao magistral “Heat” de Michael Mann, verdadeiro clássico moderno dos ‘heist movies’, e até tinha potencial para tal, mas não deixa de ser um bom filme, bem ritmado e que merece uma ida ao cinema. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

* Em complemento, passa a curta-metragem portuguesa “Shoot Me” (2010), realizada por André Badalo, com Maria João Bastos, Ivo Canelas, Philippe Leroux.


A CIDADE
Título original: The Town
Realização: Ben Affleck
Com: Ben Affleck, Rebecca Hall, Jon Hamm, Jeremy Renner, Blake Lively, Slaine, Owen Burke, Titus Welliver, Pete Postlethwaite, Chris Cooper

EUA, 2010, 125 min.
Estreia em Portugal: 14 de Outubro de 2010.
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doclisboa 2010

NO FIO DA NAVALHA

Quem se lembra dos conturbados tempos de violência étnico-política que marcaram a Irlanda do Norte no último quartel do século XX e ficaram conhecidos como “The Troubles”? Para quem acompanhou esse conflito complexo, recusando as análises simplistas de certa imprensa e opinadores maniqueístas, esta é uma incursão muito interessante num período da História Contemporânea cujos efeitos ainda se fazem sentir.

No final dos anos 80, era prática corrente a Royal Ulster Constabulary (RUC), a polícia de então na Irlanda do Norte, recrutar infiltrados no campo inimigo, conhecido por Irish Republican Army (IRA), o exército republicano irlandês, uma força paramilitar independentista considerada como organização terrorista pelo Reino Unido.

A acção de “Na senda dos condenados” decorre nessa altura, concretamente entre 1987 e 1991, contando-nos uma versão livre da história de Martin MacGartland. Este foi um dos infiltrados mais importantes da altura, considerado um “supergrass”, que devido à delação afirmou ter salvo cinquenta pessoas. Este número inspirou o título de um dos seus livros autobiográficos, publicado em 1997, que agora foi adaptado à sétima arte com o mesmo nome.

Martin, que é brilhantemente representado por Jim Sturgess, é um jovem católico irlandês que vive de vendas de material furtado porta à porta e passa – ou pelo menos tenta passar – ao lado da oposição entre católicos independentistas e protestantes unionistas. É aquilo que a que se chama popularmente um “espertalhão”. Talvez por isso, mas também porque se vê inevitavelmente ligado à situação politica da sua terra, que começa a ser assediado tanto pela RUC como pelo Provisional IRA (apesar de a maior parte das pessoas o conhecer apenas pela sigla histórica IRA). Acaba por conseguir tornar-se um dos “Óglaigh na hÉireann”, ou seja “voluntários da Irlanda”. No entanto, por discordar do seu modo de actuar, acaba por dar informações preciosas ao Special Branch, através do contacto que o recrutou e que usa o nome de código Fergus, evitando vários atentados. No filme essa personagem é bem interpretada pelo veterano Ben Kingsley, que consegue transmitir eficazmente um lado paternal inerente à “conversão” de Martin.

O ambiente da época está muitíssimo bem reproduzido, tanto no guarda-roupa como nos cenários e nos adereços, dos automóveis às armas utilizadas. Está também muito bem conseguida a integração de imagens da altura e a transmissão do estado de tensão que se vivia. Há uma cena memorável em que Martin é detido pelo exército britânico e os transeuntes se revoltam espontaneamente, começando a atirar pedras e a agredir os soldados.

Neste relato pessoal, que nos chega num filme bem ritmado e que nos prende a atenção até ao final, encontramos as dúvidas de um conflito pessoal, das amizades, das fidelidades, das “causas”. Mas no qual a questão central é sempre a da motivação... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]


NA SENDA DOS CONDENADOS
Título original: Fifty Dead Men Walking
Realização: Kari Skogland
Com: Ben Kingsley, Jim Sturgess, Kevin Zegers, Natalie Press, Rose McGowan
RU/CAN, 2008, 117 min.
Estreia em Portugal: 30 de Setembro de 2010.
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À conversa com Pedro Souto, 33 anos, membro da direcção do MOTELx

Pedro Souto entrega o Prémio da Melhor Curta
De onde surgiu a ideia do MOTELx?
De uma reunião de amigos, se bem que já com a ideia de fazer algo para o público. O CTLX foi fundado em 2003 e nesse ano fizemos a primeira sessão experimental. O conceito sempre foi o de uma estadia curta, de alguns dias, como num motel.

Mas em quatro edições este já é um festival de dimensão considerável. Foi um sucesso planeado? Como sente a resposta do público?
O MOTELx tem sido pensado de ano para ano e vai continuar assim. Temos ficado sempre satisfeitos, mas é claro que chegar aqui com esta lista de mestres presentes e filmes, apesar de inexperientes, é reconfortante. Temos tido boas opiniões e um óptimo ‘feedback’.

A presença de Romero este ano é atingir o cume?
É muito importante a presença deste “mestre-vivo”. No entanto, ele já tinha sido convidado para o ciclo de ‘zombies’ que organizámos na Cinemateca em 2005, quando saiu “Land of the Dead”, mas não pode estar presente.

Este é um festival jovem?
É um festival de espírito jovem. Quanto ao público, é muito diverso e de todas as idades. Penso que a grande adesão dos mais jovens se deve em parte aos preços bastante acessíveis dos bilhetes.

Nota-se que este é um festival “de culto”, nos planos futuros está a preservação do culto?
Sim. Mas penso que faltam alguns títulos “comerciais”, no sentido de que podem abrir o MOTELx a um público mais alargado. O principal será sempre apoiar o terror português e manter o espírito de cine-clube.

O sonho seria ter uma competição de longas-metragens de terror nacionais?
Não desprestigiando as curtas-metragens, que têm o seu espaço próprio e um lugar muito importante no cinema, chegar a um prémio desses significava que o terror tinha atingido um desenvolvimento impressionante em Portugal. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]

Noites no MOTELx

Cinema São Jorge
Decorreu entre 7 e 11 de Setembro, no cinema São Jorge, o MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, um evento que com apenas quatro anos de existência se tornou uma referência. O público interessado, sempre participativo e interventivo, proporcionou um óptimo ambiente. Uma das coisas que me agrada é ver um dos cinemas emblemáticos da capital cheio de gente, maioritariamente jovem. A propósito do crescimento deste festival, perguntei a Pedro Souto, um dos directores (ver entrevista abaixo), se havia a ideia de o alargar a outros cinemas. Ele foi categórico e disse-me que a casa do MOTELx é o São Jorge.

Noite Sangrenta (*)
Estava curioso em relação a “Noite Sangrenta", a mini-série em dois episódios da RTP, que retrata a noite brutal da "camioneta fantasma" e que abriu o MOTELx em antestreia nacional. Está bem filmada e produzida, notando-se algum cuidado na recriação da época, tanto nos cenários, como no guarda-roupa. Já no registo oral, desiludiu. Por exemplo, soa logo mal o sotaque lisboeta actual de uma criada ou de um guarda prisional de Coimbra, no início do século XX. Estes pormenores prendem-se, a meu ver, com uma falha em reproduzir (ou reconhecer?) a marcada divisão de classes de então. Mas o pior, como alguns me avisaram, é mesmo a inspiração ideológica desta obra. Apesar de se anunciar como obra de ficção, propõe uma versão da tenebrosa "noite sangrenta" na qual os responsáveis são meros idiotas úteis de uma conspiração "das direitas"... É mais uma celebração de uma República imaginária — um mero acto de propaganda.

Survival of the Dead (***)
George A. Romero e Nuno Markl
George A. Romero é um nome que associamos automaticamente a ‘zombies’ e foi o convidado de honra desta edição do festival. Ao apresentar o seu último filme deste tema, notou-se que sentia o carinho do público e mostrou-se muito contente por estar em Portugal. Lembrou que filmes deste tipo são para ser divertidos e que esperava que dessem umas boas gargalhadas e passassem um bom bocado. “Survival of the Dead” é desenvolvido a partir de uma personagem secundária de “Diary of the Dead” (2007) e há uma questão pertinente a colocar: é possível inovar? A resposta é positiva, ou não estivéssemos a falar do “mestre dos mortos-vivos”. Posso adiantar que, apesar de tudo aquilo que esperamos de um filme deste tipo, há uma evolução nos ‘zombies’, que como reconheceu o realizador, deve abrir portas a uma continuação. No último dia, Romero respondeu a perguntas do público, numa sessão moderada por Nuno Markl.

F (****)
Esta foi uma óptima surpresa neste festival, um belo regresso ao medo nos filmes de terror, como disse Johannes Roberts numa vídeo-mensagem antes da projecção de “F”. Este realizador britânico, que à última hora não pode estar presente no MOTELx, não deixou ainda de saudar os espectadores e dizer que este trabalho era uma “carta de amor” a Carpenter e o seu clássico “Assalto à 13.ª Esquadra” (1976). Realmente, o ambiente claustrofóbico da escola que é atacada por jovens encapuzados, cujo único objectivo é assassinar brutalmente quem encontram, é essencial para a tensão permanente que se sente do início ao fim. Mas a história não se resume ao terror. Explora muito bem o campo das relações humanas, sejam no registo politicamente incorrecto em que é tratada a relação aluno-professor, seja na complicada relação pai-filha. A não perder.

Centurion (***)
Mais um realizador britânico que não pode estar presente, mas que em vídeo deu alguns pormenores interessantes sobre a realização de “Centurion”, rodado em seis semanas nas ilhas escocesas em temperaturas negativas e condições adversas. Esse realismo transparece para o filme e é bom. No entanto, apesar das magníficas paisagens serem irresistíveis, Neil Marshall abusa dos planos aéreos. Apesar de certas personagens e algumas opções da história não serem as melhores, esta é uma boa incursão no mundo guerreiro da Antiguidade.

Sala cheia
Curta vencedora e The Revenant (*)
No último dia, foi entregue o prémio MOTELx para a Melhor Curta de Terror Portuguesa 2010 a “Bats in the Belfry” (Portugal, 2010, 8') de João Alves, atribuído pelo júri constituído por Alan Jones, José de Matos-Cruz e José Nascimento. De seguida, foi projectado “The Revenant” (2009), de D. Kerry Prior, um daqueles penosos exercícios que são as tentativas de humor sem graça. Apesar das gargalhadas de parte do público, não me arrancou um sorriso e foi uma estopada que, para mim, fechou mal um óptimo festival. Para o ano, felizmente, há mais. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]