QUEBRAR A ROTINA

Se há não muito tempo o cinema que se faz noutras paragens raramente chegava a Portugal, agora há que reconhecer que chega cada vez mais. No entanto, uma das características negativas é o tempo que tais filmes demoram a estrear entre nós. É o caso de “Whisky”, uma produção de 2004 – ano em que foi distinguido com o Prémio da Crítica no Festival de Cinema de Cannes –, onde o atraso ultrapassa o limite do razoável.

Este é um filme que nos leva a Montevideo, no Uruguai, mais concretamente a uma fábrica de meias que parece ter parado no tempo. Todos os dias, Jacobo Köller, um dos tantos judeus de apelido germânico que vivem na América do Sul, abre a porta do velho negócio da família na presença da mais antiga das suas três funcionárias. Marta, a sua fiel assistente, acompanha-o nos rituais matinais de pôr a pequena fábrica a trabalhar.

A acção é demorada, com poucos e curtos diálogos e necessariamente repetitiva. Pode até parecer aborrecida, de início, mas é essencial para captar as vidas de pessoas iguais a tantas outras com quem nos podemos cruzar na rua. Para detectar como o dia-a-dia destas formigas humanas se assemelha na sua mecânica ao trabalhar de uma máquina de coser ou de toda uma fábrica.

Mas algo vai perturbar esse regular funcionamento. A visita de Herman, o irmão de Jacobo, a propósito da morte recente da mãe de ambos, vai fazer com que este simule estar casado com Marta. Esta encenação, devida ao sucesso de Herman, que modernizou a sua fábrica do mesmo ramo no Brasil e mostra orgulhoso a fotografia das filhas, vai suscitar várias questões.

O quebrar da rotina, tão desconfortável para Jacobo, levanta as dúvidas sobre as opções de vida de cada um. É um reencontro familiar no verdadeiro sentido, com os fantasmas do passado, os incómodos do presente e as dúvidas do futuro. É ainda possível mudar?

Há uma cena em que Marta mostra a Herman uma habilidade que diz ter desenvolvido quando estava enfadada: a de conseguir dizer as palavras de trás para a frente. Parece que nesta brincadeira engraçada está uma reflexão mais profunda. Será que perante uma vida de aborrecimento podemos ainda inverter as coisas? Mesmo que essa mudança não tenha um significado imediato e que seja inesperada? Mas a interrogação mais importante de todas – e que paira na cabeça de todos nós –, não é a de se podemos mudar, mas antes se realmente o queremos.

Lembro-me daquela história onde, num grupo de amigos, perante a clássica “o que fariam se ganhassem a lotaria?”, um diz que concretizaria um sonho, outro imagina compras extravagantes, mas há um que simplesmente responde que continuaria a trabalhar no mesmo sítio.

* Antecedendo este filme nas salas nacionais, passa em complemento a curta-metragem de animação portuguesa “A Dama da Lapa”, realizada por Joana Toste, em 2004.
[publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



WHISKY
Título original: Whisky
Realização: Juan Pablo Rebella, Pablo Stoll
Com: Jorge Bolani, Mirella Pascual, Andrés Pazos, Ana Katz, Daniel Hendler
URU, ARG, ALE, ESP, 2004, 99 min.
Estreia em Portugal: 1 de Julho de 2010.
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RUMO AO NORTE

“Sem nome” é a estreia nas longas-metragens do jovem realizador californiano Cary Fukunaga, que também escreveu o argumento deste filme que nos leva à América Central pelos trilhos da imigração ilegal e da vida nos gangues.

A acção começa em Chiapas, no sul do México, onde através de Willy (Edgar Flores) somos introduzidos na realidade do gangue a que pertence e onde é conhecido por “El Casper”. Os membros distinguem-se pelas suas tatuagens em todo o corpo, muitos deles até na cara, e estão naturalmente implicados em actividades criminosas. Willy escapa-se por vezes às suas obrigações para estar secretamente com a sua namorada e isso é algo que prontamente percebemos que lhe trará problemas com os seus companheiros. Um dos sítios a que tem que estar atento é a La Bombilla, uma parte da linha férrea onde centenas de imigrantes esperam comboios que os levem para norte, em direcção ao desejado “el dorado”.

O gangue em questão é o Mara Salvatrucha, que não é ficcionado, mas bem real. Nascido nos anos 80 em Los Angeles como gangue étnico salvadorenho, desenvolveu-se até aos nossos dias estendendo a sua influência da América Central à do Norte, após as deportações de vários dos seus membros. As suas principais características são a extrema violência e as vinganças cruéis. Os ritos iniciáticos, as tatuagens, os símbolos feitos com as mãos, as execuções e a exploração dos imigrantes, tais como aparecem no filme, ao que parece estão bem representadas e correspondem às práticas dos “mareros”.

Voltando a La Bombilla, é aí que Sayra (Paulina Gaitán), que vem com o seu pai e o seu tio desde as Honduras com o objectivo de chegar aos EUA, se vai cruzar com Willy e o seu percurso altera-se radicalmente. Através dela e dos seus familiares ficamos a conhecer as árduas condições enfrentadas por estes imigrantes, dispostos a arriscar tudo pelo seu sonho. Viajando em cima de comboios de mercadorias, sempre alerta às autoridades, tanto são agradavelmente surpreendidos por crianças que lhes atiram fruta para comer, quando passam no centro do país, como lhes esperam pedras e insultos quando já estão perto da fronteira do norte, atiradas igualmente por crianças que lhes dizem: “Não vos queremos aqui! Vão-se embora!”

Há um dado curioso a notar. Paulina Gaitán, que interpreta a rapariga hondurenha, é uma actriz mexicana, e Edgar Flores, que interpreta um jovem mexicano, é um actor hondurenho.

Concluindo, apesar da actualidade do tema tratado e das possibilidades desta história, o filme não surpreende. Pelo contrário, é sempre previsível, com os acontecimentos futuros anunciados com demasiada antecedência. As representações também deixam a desejar e a realização, apesar de alguns bons planos e sequências, não traz nada de novo. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



SEM NOME
Título original: Sin Nombre
Realização: Cary Fukunaga
Com: Edgar Flores, Paulina Gaitán, Diana García, Tenoch Huerta, David Serrano, Gerardo Taracena
EUA/MÉX, 2009, 96 min.
Estreia em Portugal: 24 de Junho de 2010.
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UM PAÍS EM MUTAÇÃO

Jia Zhangke é um realizador chinês que não é desconhecido de todo. Os seus filmes, alguns documentários, têm servido de montra às profundas alterações da realidade do seu populoso país. Em especial da forma como a globalização tem afectado esta nação asiática que se tornou o grande produtor do mundo.
A estreia deste filme entre nós tem uma particularidade que é a de ter passado primeiro nos canais televisivos por cabo TVCine, antes de chegar finalmente às salas de cinema. Sinal dos tempos? É exactamente esse sinal que nos transmite “24 City”. A sua pulsação mostra-nos como o gigante chinês está a mudar e a grande velocidade.
Esta é a história da Fábrica 420, em Chengdu, um monstro produtivo que fabricava aviões de combate e seus componentes e era propriedade do Estado, como não podia deixar de ser neste país comunista. Com o fim do esforço de guerra, a fábrica e toda a vida que circulava à sua volta alterou-se radicalmente. Tal coincidiu com a chamada “abertura” chinesa, quer isto dizer, com a entrada da China no mercado globalizado, com os seus produtos baratos e de baixa qualidade.
Podemos dizer que este filme é um semi-documentário. Filmado totalmente em digital, conta a história através de relatos dos que viveram essa transformação. Alguns verdadeiros, outros encenados, mas todos muito bem filmados, com planos demorados, que analisam as expressões e nos levam a pensar toda uma mudança de fundo.
Estas histórias pessoais, que se confundem e misturam com a da própria fábrica, vão desde o saudosismo de um tempo passado, à adaptação a uma nova forma de vida, passando por desgostos – ou desconfortos – amorosos.
A primeira história dentro desta história é a de um operário que recorda com saudade e respeito o seu mestre Wang, que lhe havia passado o salutar princípio da poupança dos materiais e da recusa do desperdício, sempre guiados por uma total dedicação ao trabalho. A última é a de uma mulher que, apesar de não ter aptidão para os estudos, como ela própria diz, consegue vingar na nova realidade comprando coisas para uma classe mais abastada. Os seus rendimentos são bastante elevados, algo reconhecido pelo próprio realizador quando a entrevista. No entanto, depois de nos apresentar feliz uma imagem de sucesso, reconhece que a entristece a precária situação dos pais. Na sua família vemos, como que ao microscópio, a mensagem do filme – o contraste. Passeando o seu Volkswagen Beetle numa paisagem onde observamos trabalhadores rurais, esta rapariga mostra o choque da China hodierna.
A antiga fábrica está a ser desmantelada ao mesmo tempo que vamos ouvindo os testemunhos em primeira mão. Longe vai o espírito da pátria grandiosa que glorifica o combate. Agora o êxito pessoal está nos bens materiais e no consumismo. No local onde antes se produziam máquinas de guerra em nome do povo, está a ser erigido um complexo de apartamentos de luxo, que será vendido a preços proibitivos, acessíveis apenas aos bem sucedidos da nova era. A 24 City que dá nome ao filme. Esta é, agora, a nova forma de afirmação social.
Esta postura e estes comportamentos lembram-nos alguma coisa? Sem dúvida. A diferença é que nós, que vemos no teatro chinês como se passa do comunismo ao capitalismo – como se alterna entre um gémeo e outro – começamos a questionar todo um modelo que constantemente nos é apresentado como inevitável e, por isso, indiscutível – a mundialização. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



24 CITY
Título original: 24 City
Realização: Jia Zhang-ke
Com: Joan Chen, Lu Liping, Zhao Tao, Chen Jian Bin
CHI/HK/JAP, 2008, 112 min.
Estreia em Portugal: 10 de Junho de 2010.
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Ministra diz: Cinemateca-Porto avança

Em entrevista ao jornal Público de hoje, a ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, afirmou que a Cinemateca-Porto vai avançar.


«(...) há também o caso da Cinemateca-Porto. Prometeu ainstalação desse pólo, mas a nova directora da Cinemateca já disse que, para ela, não é uma prioridade. Qual dessas visões antagónicas vai vingar?

Uma coisa é a Maria João Seixas dizer que não considera ser a coisa mais importante a fazer. Outra coisa, que não fez, é comunicar que não irá dar seguimento às prioridades do ministério. Expressou um sentimento íntimo; tem todo o direito. Mas está a envidar todos os esforços para a nossa determinação ser efectivada.

Portanto, a Cinemateca-Porto é para avançar...

Claramente.

Ainda este ano?

Este é um ano atípico, em termos de prazos. Todo o processo de aprovação do orçamento entrou por 2010; os procedimentos estão todos atrasados. Mas no caso da Cinemateca estão a ter seguimento.»


Fonte: Público.

PAISAGEM EUROPEIA

Esqueçam os filmes de Verão, em especial aqueles ligeiros e prontos-a-digerir tão ao gosto norte-americano. Com estreias de fugir, é melhor regressar a uma das boas surpresas em cartaz vindas do nosso continente, a mostrar a qualidade e originalidade do cinema europeu.

Da janela do seu apartamento vazio em Amesterdão, ela observa os transeuntes a vasculharem o recheio da casa deixado na rua. De seguida, tira a aliança e assim começa uma viagem a pé e à boleia, de mochila às costas, até à costa da chuvosa e ventosa Irlanda. Este é o início de “Nada pessoal”, filme apresentado pela primeira vez no Festival de Cinema de Locarno do ano passado, assinado por Urszula Antoniak, que escreve e realiza, na sua estreia nas longas-metragens.

Nesta história, vemos como no seu percurso, aparentemente errático, esta rapariga que parece querer desligar-se do mundo, não falando com ninguém e evitando mesmo qualquer contacto, encontra um homem que vive sozinho numa quinta. O semi-eremita oferece-lhe comida a troco de trabalho na sua propriedade isolada. Ela decide ficar, mediante um pacto de silêncio, iniciando uma relação que o filme, bem dividido, nos mostra em capítulos que não nos levam aos lugares-comuns das histórias de amor. Um trabalho notável sobre a forma como as pessoas se relacionam e se procuram conhecer à medida que a curiosidade um pelo outro aumenta. Uma óptima prestação de uma dupla de actores que não precisa de nada mais que o seu talento e entrega para nos oferecer uma representação sincera e poderosa.

Os campos verdes da Irlanda, as suas praias pedregosas e os seus rochedos escarpados proporcionam uma fotografia maravilhosa, que é bem aproveitada para mostrar as paisagens físicas das terras gaélicas onde a Natureza mostra a sua força. Estas cruzam-se com as paisagens humanas, como a da tez alva polvilhada de sardas e os cabelos ruivos da holandesa Lotte Verbeek, com os seus olhos azuis-esverdeados que parecem reflectir o mar, e as mãos sulcadas pelos anos e pelo trabalho do irlandês Stephen Rea. A temperar tudo isto temos momentos de música tradicional irlandesa, num registo popular, mas também de ópera, num registo erudito. No seu conjunto, todos estes elementos constituem uma paisagem europeia, das suas terras e das suas gentes, da sua cultura e do seu mistério.

Na era do consumismo desenfreado e do bombardeamento mediático, há uma sensação de liberdade ao observar a vida neste recanto, onde o dia é ocupado normalmente com o trabalho da casa e do campo e as pausas com as refeições e a leitura. Não há televisão e é um velho rádio que dá música e por vezes notícias, em som de fundo. O conforto não está no excesso e no comodismo, mas na justa recompensa do esforço diário e no conhecimento da terra e do seu equilíbrio.

Esta é uma viagem – não no sentido de turismo, mas de aventura – não nos deixa indiferentes. Até o enigmático final mantém a questão mais importante levantada durante o filme: “Quem és tu?” [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



NADA PESSOAL
Título original: Nothing personal
Realização: Urszula Antoniak
Com: Stephen Rea, Lotte Verbeek
IRE/HOL, 2009, 85 min.
Estreia em Portugal: 10 de Junho de 2010.
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DE PASSAGEM

A América que nos chega a casa diariamente é a da “terra das oportunidades”, do espectáculo, da abundância e do desperdício. Um novo centro do mundo, a hiperpotência que influencia todo o planeta. No cinema, a imagem desta América é, por excelência, Hollywood e as suas grandes produções. Mas, por detrás desta tela, há um país profundo, um mundo onde também há pobreza e extremas dificuldades. Também há outro cinema – independente –, felizmente cada vez mais divulgado entre nós, onde encontramos boas surpresas. É o caso de “Wendy e Lucy”, cuja estreia foi há dois anos no Festival de Cinema de Cannes.

Wendy (Michelle Williams) é uma rapariga que está “on the road” com a sua cadela Lucy e o pouco dinheiro contado. O seu destino é o Alaska, referido quase como “terra prometida”, onde espera encontrar um emprego. Ainda no Oregon, o seu carro avaria-se forçando-a a parar até tentar resolver o problema, mas as coisas precipitam-se. A sua débil situação financeira leva-a a furtar duas latas de comida para cão num supermercado para alimentar Lucy. É apanhada, detida e forçada a deixar a sua companheira canina presa à porta da loja. Quando regressa da esquadra, ao fim de longas horas, não encontra a sua amiga e começa a desesperar.

A história deste filme é a de uma busca motivada pela amizade. Da forma como esse sentimento se torna um compromisso do qual se não pode desistir, por muito difíceis que se tornem as coisas. Uma jornada por um mundo que funciona a dinheiro, com apenas uns tostões no bolso e que vão desaparecendo rapidamente.

Michelle Williams, que tem um excelente desempenho, é o centro do filme e vai-se cruzando com várias personagens fugazes que preenchem bem toda a acção. Como a sua personagem afirma por várias vezes: está “só de passagem”. O trabalho de Kelly Reichardt, que regressa ao mesmo estado onde filmou “Old Joy” (2006), é bastante bom e são de notar os planos fantásticos no supermercado – uma extraordinariamente bem conseguida oposição consumismo/necessidade.

Esta é uma reflexão norte-americana, a lembrar que momentos como a Grande Depressão também fazem parte daquele país. Uma viagem pessoal sobre a vida, o nosso caminho, a solidariedade, a amizade e as decisões a que somos levados. Em tempos de crise, é bom lembrar que para os gregos antigos “krisis” significava exactamente “decisão”, mas num momento conturbado, especialmente provocado por factores exógenos, onde tudo era possível

Uma estreia a saudar, já que traz o cinema independente norte-americano às salas portuguesas, que só peca por tardia. Uma obra a mostrar que uma história simples também dá um bom filme. Um filme sobre os valores e a sua importância quando tudo o resto falta e que nos obriga a questionar certezas que tínhamos por inabaláveis. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



WENDY & LUCY
Título original: Wendy and Lucy
Realização: Kelly Reichardt
Com: Michelle Williams, Will Patton, Will Oldham, John Robinson
EUA, 2008, 80 min.
Estreia em Portugal: 3 de Junho de 2010.
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MAU TENENTE MAU

Werner Herzog recusou que o seu filme, baptizado com o título original quilométrico “The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans”, fosse um “remake” do excepcional “Bad Lieutenant” realizado em 1992 por Abel Ferrara. No entanto, como facilmente se percebe, é impossível não pensarmos nesse clássico contemporâneo “neo-dark”com a magnífica interpretação de Harvey Keitel. A inspiração é óbvia: um polícia corrupto, que abusa do poder, consome drogas, joga em apostas ilegais e entra numa espiral de decadência. Mas a distância entre os dois filmes é enorme – é a que vai de uma obra-prima a um filme vulgar.

Quando o filme foi anunciado, houve uma “troca de galhardetes” na comunicação social entre os dois realizadores. Ferrara, bastante irritado com a notícia, chegou mesmo a desejar a morte às pessoas que fazem “remakes”. A reacção de Herzog foi afirmar que desconhecia Abel Ferrara e nunca tinha visto qualquer trabalho dele.

Polémica à parte, este “Polícia sem Lei” tem lugar em Nova Orleães e passa-se após a destruição deixada pelo furacão Katrina. Este é um dos aspectos que foram muito mal aproveitados, já que o caos que se gerou na sequência dessa catástrofe natural não é explorado.

A história é a de um polícia que lesiona as costas ao salvar um detido de morrer afogado numa inundação. Dos analgésicos receitados às drogas duras é um instante, talvez até uma passagem demasiado rápida. Promovido a tenente, é nomeado responsável pela investigação de um homicídio múltiplo durante a qual se envolve numa série de situações complicadas. Tudo parece correr mal e precipitar-se: vício, abuso, dívidas, azares, ligações com criminosos, entre outros. Aparentemente num beco sem saída, vemos a sua vida desabar diante os seus olhos e interrogamo-nos: será que tal percurso descendente pode ter um final feliz?

Nicholas Cage representa Terrence McDonagh, a personagem principal, e está bem nas cenas como drogado, mas longe da sua impressionante prestação em “Morrer em Las Vegas” (1995), de Mike Figgis, filme brilhante e tocante sobre o vício e as suas últimas consequências. Cambaleando com o seu Smith & Wesson modelo 29 à cintura – revólver igual ao imortalizado no cinema por Dirty Harry –, desleixadamente enfiado nas calças, falha nas cenas onde parece tentar um lado cómico exagerado. Quanto a outros desempenhos, Eva Mendes não surpreende e Val Kilmer pouco aparece e sempre num tom exaltado.

Um filme ao qual falta a profundidade, a dureza e a tensão exigidas; para além da violência crua e não de espectáculo, como nos é apresentada. Um trabalho ao qual falta a dimensão trágica de uma desgraça pessoal, que acaba tratada com uma ligeireza improvável e, por isso, inadmissível. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



POLÍCIA SEM LEI
Título original: The Bad Lieutenant: Port of Call - New Orleans
Realização: Werner Herzog
Com: Nicolas Cage, Eva Mendes, Val Kilmer, Fairuza Balk, Alvin `Xzibit` Joiner, Shawn Hatosy,Jennifer Coolidge, Brad Dourif
EUA, 2009, 122 min.
Estreia em Portugal: 13 de Maio de 2010.
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O TANQUE

O conflito a que Israel chamou “Operação Paz na Galileia” e os árabes “A Invasão” ficou conhecido como Primeira Guerra do Líbano e iniciou-se a 6 de Junho de 1982, com a invasão do Sul do Líbano por tropas israelitas com o apoio de cristãos libaneses, contra a OLP, forças sírias e libanesas muçulmanas. É exactamente nesse mês que se passa “Líbano”, realizado e escrito por Samuel Maoz, que se baseou nas suas próprias experiências nessa guerra onde foi ferido aos 20 anos de idade.

O filme, que venceu o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza do ano passado, conta a história da tripulação de um tanque que tem que acompanhar um pelotão de pára-quedistas numa operação em território hostil. De início, tudo é apresentado como sendo uma coisa simples, um “passeio” como é dito. Mas cedo se percebe que não vai ser assim, pelo contrário. O destino da missão, um hotel chamado ironicamente Saint Tropez, começa a pouco e pouco a tornar-se uma miragem.

Dentro desse tanque há uma inscrição que diz “o tanque é de ferro, os homens são de aço”, mas o que ninguém disse a estes jovens soldados é que esse aço é temperado pela guerra. E é exactamente a guerra que eles vão encontrar e viver, com todas a suas dúvidas e o seu horror, o que lhes causa uma tremenda confusão e pressão. São novos, inexperientes, ingénuos até. O comandante do tanque não tem autoridade e é constantemente questionado pela sua equipa, na qual uns contam o tempo de comissão que lhes falta e outros sonham com o conforto do lar maternal, numa permanente desautorização. Também não são movidos por um idealismo ou conhecimento dos beligerantes. A determinada altura um deles pergunta: “O que é um falangista?”

Tudo isto se passa num espaço claustrofóbico, para agravar ainda mais a tensão. Esta é aliás uma palavra que define bem este filme. O único momento em que essa tensão parece aliviar-se é quando um dos rapazes conta uma história pessoal que cruza a morte do seu pai e uma situação de cariz sexual com a professora do liceu. A sua expressão mostra-nos como naqueles homens a adolescência está ainda tão perto.

O mundo exterior chega-lhes pela mira do artilheiro – que aqui funciona como uma segunda câmara, um segundo nível do filme –, ou pela escotilha por onde entram o comandante pára-quedista, um camarada de armas morto, um prisioneiro sírio e um falangista libanês.

Por fim, há que referir o trabalho muito bem conseguido de realização dos jogos de reflexos com a água no chão do tanque, talvez a mostrar que esta é a única forma de ultrapassar a exiguidade constrangedora do espaço, para além da mira que anuncia morte e destruição. Aqui, o ambiente confinado entra-nos pelos olhos dentro, com as paredes oleosas e os fumos intoxicantes, para além do desconforto do ruído ensurdecedor. Uma atmosfera que se sente neste filme de tensão constante. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



LÍBANO
Título original: Lebanon
Realização: Samuel Maoz
Com: Oshri Cohen, Zohar Shtrauss, Michael Moshonov, Itay Tiran, Yoav Donat, Reymond Amsalem, Dudu Tassa
ALE/ISR/FRA, 2010, 93 min.
Estreia em Portugal: 6 de Maio de 2010.
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OS DEUSES DEVEM ESTAR LOUCOS

“Choque de Titãs”, realizado em 1981 por Desmond Davies, foi um dos filmes que me marcou na infância. Confirmou o meu gosto pelas aventuras épicas e despertou a minha curiosidade para a mitologia clássica. A luta heróica contra todas as adversidades, em especial contra os monstros criados pelo talentoso Ray Harryhausen, conquistou a minha admiração. Ainda hoje, apesar das devidas distâncias, continuo a tê-lo em consideração, tendo-se tornado de culto.

Foi este precedente que me levou a ver o “remake” dirigido por Louis Leterrier – responsável pela desilusão chamada “O Incrível Hulk” (2008) –, não à espera de grande surpresa, mas quase como obrigação. Apesar de contar com alguns actores de peso, o filme deixa de lado as actuações e quase também a história, a favor dos exagerados efeitos especiais. É uma sina da maior parte do dito cinema de acção que se faz hoje em dia.

Mas mesmo nos efeitos, apesar das possibilidades, esta versão pouco traz de novo, já que insiste nos escorpiões gigantes e no Kraken do original, que aliás nada têm que ver com a mitologia grega. É para recordar, nova e insistentemente, que a tecnologia por mais avançada que seja continua a precisar de imaginação e talento criativo.

Para os fãs do “Choque” de 1981, há um brinde. Antes de Perseu partir na sua demanda, ao escolher o material bélico a levar, pega em Bubo, a coruja mecânica que apareceu nesse filme, e pergunta: “O que é isto?” Um dos soldados diz-lhe simplesmente para a deixar para trás. Trata-se de um “cameo” engraçado, mas que acaba por ser como uma pastilha de menta numa refeição estragada.

Esta história da revolta dos homens contra os deuses e da intriga entre eles, que contará com um semi-deus para finalmente vencer o enorme monstro marinho com o auxílio precioso da cabeça cortada da Medusa, depois de todas as outras provas, é contada de uma forma saltitante e sem um fio condutor.

A prestação dos actores deixa muito a desejar, para não dizer pior. Liam Neeson e Ralph Fiennes, por exemplo, que representam Zeus e Hades, respectivamente, são um desastre. Também a caracterização, em especial dos deuses e do Olimpo, é simplesmente pavorosa, a puxar para o tristemente (tragicamente?) cómico.

É realmente pena que não seja possível transmitir a dimensão intemporal desta história, sem cair na tentação de fazer “entretenimento”. Seria perfeitamente possível e bastante desejável mostrar a importância dos clássicos e do espírito trágico. Essa postura que comandou o homem europeu sempre mais além, mesmo quando conhecia de antemão o seu destino desfavorável.

Lembro-me daquela máxima trágica: “Não é necessário ter esperança para empreender, nem ter êxito para preservar”. Como necessitamos desse espírito hoje… [publicado na secção CineMais da última edição de «O Diabo»]



CONFRONTO DE TITÃS
Título original: Clash of the Titans
Realização: Louis Leterrier
Com: Sam Worthington, Liam Neeson, Ralph Fiennes, Jason Flemyng, Gemma Arterton, Mads Mikkelsen, Luke Evans
EUA/RU, 2010, 106 min.
Estreia em Portugal: 15 de Abril de 2010.
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FANTÁSTICA LUSITÂNIA

“Fantasia Lusitana” abriu o último IndieLisboa e causou alguma sensação. Este documentário, que utiliza material dos anos 40 na sua maioria da autoria de António Lopes Ribeiro, mostra como era retratada vida no nosso país durante a Segunda Guerra Mundial, com a paz da neutralidade e o trânsito dos refugiados em fuga. Em “off” podemos ouvir discursos de Salazar e a leitura dos testemunhos, escritos na altura, de Alfred Döblin, Erika Mann (filha de Thomas Mann) e Saint-Exupéry.

O objectivo do filme é atacar o Estado Novo através da sua própria propaganda, mostrando o “ridículo” e a “fantasia” – como o título indica – de um Portugal neutral salvo da guerra pelo seu “messias”. A questão da nossa neutralidade está longe de se confinar a esse período histórico. Ocorre-me prontamente outro que também parece de fantasia, os jogos diplomáticos de D. João VI, com franceses e ingleses, que culminou na transferência de uma capital europeia para o Brasil. A nossa História tem realmente coisas fantásticas.

Por falar em fantasia, não posso deixar de referir que vi o filme na única sala que o projecta em Lisboa e que tem a particularidade de ter as paredes decoradas com personagens da Disney e as cadeiras estampadas com a cara do Rato Mickey. Para tornar a experiência ainda mais “fantástica”, dois lugares à minha direita, um sujeito mascava pipocas de boca aberta…

Voltando ao filme, apesar das intenções, devo dizer que parece um daqueles álbuns sobre a Mocidade Portuguesa, bastante ilustrados e que foram sucessos de venda: um verdadeiro deleite gráfico. Uma oportunidade para ver imagens deste período, onde se destacam as da Exposição do Mundo Português. Sobre a “fantasia” podemos considerar que é a da época. Há que dizer que, nos mesmos termos, era possível fazer uma “fantasia americana”, “cubana”, ou mesmo uma “fantasia socrática”, com o actual primeiro-ministro de computador Magalhães em punho.

Foi por isso que gostei e a classificação tem a seguinte explicação: uma estrela pelo trabalho técnico e de montagem; outra pela ausência de um narrador politicamente correcto a “explicar” os perigos do “fascismo”; e, por fim, uma pela pesquisa que trouxe a público estas imagens de arquivo.

Sobre o património sonoro, por exemplo, o realizador disse numa entrevista que grande parte se havia perdido, incluindo as gravações das crónicas de Fernando Pessa, das quais utilizou a única existente. Mesmo os discursos de Salazar, segundo ele, foram retirados de um site salazarista na internet. Sinal dos tempos?

Que exemplos como este sirvam para lembrar a necessidade da preservação da memória, mesmo de períodos que a alguns parecem ridículos. Principalmente em alturas como hoje, onde perante a falta de um projecto nacional – esteja este certo ou errado –, se navega à vista, sendo por isso ainda mais necessário saber de onde viemos. A bem da Nação... [publicado na secção CineMais da edição desta de «O Diabo»]




FANTASIA LUSITANA
Realização: João Canijo
POR, 2010, 65 min.
Estreia em Portugal: 29 de Abril de 2010.
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QUEM QUER SER SUPER-HERÓI?

Sempre fui um grande apreciador de banda desenhada. Durante a minha adolescência devorava os “comics” norte-americanos e, como qualquer outro miúdo, imaginava o que seria ter super-poderes, ser um super-herói, ou o que aconteceria se essas personagens existissem de facto.

Este filme debruça-se exactamente sobre essa questão, mas não como seria de esperar. Dave Lizewski (Aaron Johnson) é um rapaz como tantos outros que atravessa os dilemas da sua idade, reúne-se com os amigos numa loja de banda desenhada a apreciar os heróis dos quadradinhos e cujo único super-poder, reconhecido pelo próprio, é “ser invisível para as raparigas”. Vivendo num mundo em que o crime violento é habitual, não deixa por isso de se preocupar com os outros e começa a achar que os paladinos do bem não deviam apenas existir nas histórias que lê. Certo dia, chocado pela violência contra as pessoas e principalmente com a falta de solidariedade e auxílio mútuo, decide tornar-se um super-herói.

Encomenda um fato justo e assim que o recebe inicia uma tentativa de treinos pessoais. Desta forma nasce Kick-Ass, um super-herói que não tem poderes, mas está decidido a assegurar uma vida tranquila aos cidadãos por mero sentido de serviço à comunidade. Quando se sente preparado, arrisca saindo à rua armado com dois bastões e tenta evitar um assalto. O pior acontece: é espancado, esfaqueado e atropelado por um carro. Depois de uma intervenção cirúrgica que o recupera e ao descobrir que tem uma sensibilidade nervosa muito menor, o que lhe permite resistir mais à dor, decide que o seu alter ego não morreu.

É finalmente catapultado para o estrelato quando alguém coloca na internet um vídeo de uma das suas intervenções. Ganha a simpatia popular, mas vê-se envolvido no perigoso mundo do crime organizado, acabando por descobrir uma dupla de justiceiros mascarados – pai e filha –, que considera verdadeiros super-heróis.

“Kick-Ass” é uma adaptação ao cinema do “comic” homónimo escrito por Mark Millar e desenhado por John Romita Jr., cuja publicação se iniciou em 2008. Se na BD não foi nada do outro mundo, em filme é ainda pior. Apesar de mais infantil, mantém a ultra-violência excessiva e sangrenta, mas que com certeza será ao gosto do público-alvo. Esta mistura de crianças e adolescentes em fatos carnavalescos com combates mortais que envolvem todo o tipo de armas produz simplesmente um aborrecimento durante grande parte do filme, agravado pela prestação penosa de Nicolas Cage.

Também qualquer mensagem a transmitir – se é que havia alguma – se perde no banho de sangue folclórico e no fogo-de-artifício dos tiros e explosões.

Como se não bastasse, a cena final é um anúncio à sequela. Não, obrigado. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



O NOVO SUPER-HERÓI
Título original: Kick-Ass
Realização: Matthew Vaughn
Com: Aaron Johnson, Chloe Grace Moretz, Nicolas Cage, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Elizabeth McGovern
EUA/RU, 2010, 117 min.
Estreia em Portugal: 22 de Abril de 2010.
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O TEMPO QUE RESTA

O conflito israelo-árabe, concretamente a forma como foram submetidos os palestinos, é um assunto quase sempre tratado com grande alarido e exaltação, marcado por convicções extremadas normalmente sem lugar a ironias. Elia Suleiman opta pelo contrário e, no seu registo habitual, projecta a tensão israelo-palestina numa comédia trágica.

“O Tempo que Resta” vem fechar a trilogia palestina iniciada com “Crónica de um Desaparecimento” (1996) e “Intervenção Divina” (2002), com um percurso semi-autobiográfico do realizador, que é também actor e narrador. O filme foi nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, em 2009, sendo premiado no festival argentino de Mar del Plata no mesmo ano, altura em que foi exibido entre nós pela primeira vez no DocLisboa.

A história começa por transportar-nos para 1948, na altura em que as tropas israelitas ocuparam Nazaré. O pai de Suleiman vive aqueles tempos conturbados e, através dele e da sua família, apercebemo-nos da alteração profunda que esta ocupação provocou. A partir desse choque inicial, acompanhamos a vida daqueles árabes israelitas que vivem num mundo dirigido e controlado por judeus até aos nossos dias. Vemos os que não querem resistir e os que resistem passivamente, os que se submetem e os que continuam enfrentar a tensão permanente, tudo através de um mosaico de episódios do dia-a-dia, onde não faltam vizinhos loucos e outras peripécias.

Não vemos grandes batalhas, nem grandes discursos. Aqui reinam os pormenores, as pequenas coisas, as situações caricatas, que mesmo em alturas como esta acontecem. Há planos prolongados, de uma melancolia contemplativa, e os diálogos são poucos, talvez porque o diálogo nesta tensão seja muito difícil.

O estilo de Suleiman recorda facilmente Buster Keaton e Jacques Tati, mas o realizador disse por várias vezes que não o influenciaram, já que não lhes conhecia a obra quando começou a filmar. Seja como for, o humor negro (bem) conseguido pelo absurdo e o burlesco oferecem uma experiência que vale a pena.

E qual será a mensagem deste filme? Tudo parece indicar, até pelo próprio título, que se trata da dúvida sobre o que fazer, ou o que se passará, no tempo que ainda temos. A ser assim, como interpretar a cena no final onde vemos adolescentes vestidos como se pertencessem a um gangue norte-americano, ao som de uma versão “techno” de “Stayin’ Alive”? Talvez o “nonsense” não esteja apenas no filme, mas também cá fora – na realidade.

Elia Suleiman fez um filme pessoal – seu – para todos, mas que não deixa de ser um filme pelos seus. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



O TEMPO QUE RESTA
Título original: The Time That Remains /Le temps qu’il Reste
Realização: Elia Suleiman
Com: Elia Suleiman, Saleh Bakri, Leila Muammar, Yasmine Haj, Tarek Qubti
França/Bélgica/Itália, 2010, 109 min.
Estreia em Portugal: 15 de Abril de 2010.
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Para hoje



Na conclusão do ciclo “Visões do deserto”, a Cinemateca projecta hoje “A Bandeira”, de 1935, um filme inspirado no romance de Pierre MacOrlan, realizado por Julien Duvivier, com o grande actor francês Jean Gabin no papel do legionário Pierre Gillieth, às 21:30 na Sala Dr. Félix Ribeiro. [Cinemateca Portuguesa: R. Barata Salgueiro, 39, Lisboa; tel. 21 359 62 00; www.cinemateca.pt.]

Bourne em Bagdade

Em 2003 os EUA invadem o Iraque na sua “guerra contra o terrorismo”, justificando esta acção militar com a existência de armas de destruição maciça naquele país e o objectivo de levar a “democracia” e a paz ao povo iraquiano. O resultado é hoje bem conhecido de todos: armas nem vê-las e o caos instala-se.

É neste cenário que decorre a acção de “Green Zone”, que entre nós recebe o nome de “Combate pela Verdade”, onde se conta a história do sargento Roy Miller (Matt Damon) que com a sua unidade de inspectores do exército procura armas de destruição maciça, mas, pelo contrário, descobre um intrincado plano que se propõe revelar.

Este “thriller” explora bem as guerras internas no seio das forças americanas, os seus conflitos de interesses, rivalidades e diferentes objectivos. Neste turbilhão surge um paladino da verdade, o sargento Miller, disposto a desobecer e contrariar regras e ordens para atingir o seu propósito superior. Para além da cena onde Miller é desautorizado e mesmo agredido pelo chefe de uma equipa das forças especiais, há um diálogo que espelha bem tudo isto. O sargento pergunta a um responsável da CIA: “Não estamos todos do mesmo lado?”, ao que ele responde: “É um pouco mais complicado que isso...”

Este diálogo passa-se num ambiente que, longe de um cenário de guerra, mais parece um “resort” de férias. A esplanada junto a uma piscina onde passeiam raparigas em biquini e se pode comer churrasco e beber cerveja gelada não é um exagero. É baseada no relato feito pelo jornalista do Washington Post Rajiv Chandrasekaran, no seu livro de investigação “Imperial Life in the Emerald City”, publicado em 2006, que inspirou este filme.

Perante as acusações de “anti-americano” e “anti-guerra”, Richard “Monty” Gonzales, antigo militar em que se baseia a personagem do sargento Miller e que foi consultor neste filme, lembrou que esta história de conspiração se trata de ficção e que não é um retrato fiel do trabalho da sua equipa no Iraque.

O britânico Paul Greengrass filma com o mesmo estilo movimentado e ritmo ofegante com que fez nos dois filmes da trilogia Bourne que realizou, respectivamente “Supremacia” (2004) e “Ultimato” (2007). Com Matt Damon como protagonista, as semelhanças com essa série são ainda maiores. Mas não, apesar deste ser um bom filme de acção, não é “Bourne no Iraque”, e o seu final moralista e previsível – bem à americana – deixa a desejar. [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



COMBATE PELA VERDADE
Título original: Green Zone
Realização: Paul Greengrass
Com: Matt Damon, Greg Kinnear, Amy Ryan, Brendan Gleeson, Jason Isaacs, Yigal Naor, Khalid Abdalla
EUA/GB/FRA/ESP, 2010, 115 min.
Estreia em Portugal: 8 de Abril de 2010.
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Indie Lisboa 2010


Começa hoje o IndieLisboa’10, a 7.ª edição do festival de cinema independente, que se prolongará até dia 2 de Maio com a exibição de 276 filmes, divididos em várias secções, para além de outras actividades. Mais informações em: http://www.indielisboa.com/

Paremos

Quando me apresentam decisões precipitadas, apressadas, impensadas, irresponsáveis, tenho por hábito dizer que é melhor fazer como indicam os sinais das passagens de caminho de ferro: “Pare, Escute, Olhe”. Reflectir para só depois agir. É esse o conselho de Jorge Pelicano num documentário militante que alerta para a morte anunciada da linha férrea do Tua, em risco de ficar submersa devido à construção de uma barragem.

Este jovem realizador, repórter de imagem da SIC, cujo primeiro filme “Ainda há pastores” foi bastante premiado, conseguiu desta vez vencer o prémio do Melhor Documentário Português no DocLisboa 2009 entre outras distinções. Nesse festival, aquando da sua estreia, foi alvo de algumas críticas, nomeadamente por quem o considerou uma reportagem de televisão. Mas este filme – porque é um filme documentário – é um manifesto político em defesa de um património e de uma gente. Para tal não tem pudor (felizmente!) de mostrar os políticos, as suas contradições e de lhes apontar o dedo. Porque estes, movidos pela ganância, estão dispostos a destruir irresponsavelmente uma “identidade”, como afirma a determinada altura um professor universitário espanhol.

Há nesta obra o retrato de uma região esquecida, de um interior deixado para trás. Parte de um país onde a população idosa vê emigrar os mais jovens e verá a sua agricultura submergida pelas águas da barragem. Portugueses que vêem desaparecer o seu povo e a sua terra. Tudo em nome do “progresso”, esse perigoso mito arrasador e uniformizador, cujos efeitos nefastos são muitas vezes irreversíveis.

Que este excelente filme seja um despertar. Que gere uma mobilização, não só pelo Tua, mas por Portugal. Para que, perante as mentiras dos (des)governantes, ou o desejo de cimento afirmado pelo primeiro-ministro José Sócrates no estaleiro de construção da barragem, digamos não! E estejamos dispostos a contrariar a voracidade do lucro e o primado da economia, recordando que são as pessoas e suas vidas que formam uma nação.

São exactamente essas pessoas a quem é dada voz neste trabalho, que tem como tela uma das paisagens mais belas do nosso país. As suas reivindicações provocam tanto a revolta e a indignação, como a melancolia e por vezes até um sorriso.

“Pare, Escute, Olhe” é também um livro, um blogue, um sítio na internet (http://www.pareescuteolhe.com/), um movimento de intervenção cívica. É uma postura diferente do habitual conformismo português.

Paremos para ver este filme. Paremos para depois agir. Paremos para salvar uma identidade. Paremos... [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



PARE, ESCUTE, OLHE
Realização: Jorge Pelicano
Portugal, 2010, 102 min.
Estreia em Portugal: 8 de Abril de 2010
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Pare, Escute, Olhe

Um filme a não perder. Uma causa a apoiar.

Uma história americana

Os americanos adoram histórias inspiradoras, enternecedoras e bastante cor-de-rosa. De preferência sobre situações fora do comum onde, contra todas as expectativas, tudo corre extraordinariamente bem. Lições de vida prontas a servir de exemplo prático do sonho americano. É isso que é “Um Sonho Possível”. É uma história americana, mais concretamente da América conservadora dos estados do Sul.

Parece outra historieta inverosímil, até mesmo fantasiosa, mas não. O filme é baseado no livro “The Blind Side: Evolution of a Game”, escrito pelo jornalista Michael Lewis, que conta a história real da família Tuohy que adoptou, caridosa e cristãmente, um jovem negro de 16 anos que nunca conheceu o pai e foi retirado muito novo à sua mãe toxicodependente. Apoiando-o nos estudos feitos num colégio privado e iniciando-o no futebol americano, levaram-no a uma bolsa de estudo desportiva universitária que lhe proporcionou a entrada como nova estrela numa equipa da National Football League.

Michael Oher (Quinton Aaron) é um gigante simpático que tem como característica fundamental o instinto protector. Vai enfrentando com dificuldade o mundo tão diferente onde é inserido pelos Tuohy mas, reconhecido pelo seu gesto, descobre neles a sua nova família.

Sandra Bullock representa muito bem neste trabalho que lhe garantiu o almejado Óscar, num papel que veste como se fosse um fato à medida. No entanto, está muito acima dos restantes, fazendo com que o filme gire à sua volta. A sua personagem é uma mulher de força: um verdadeiro tufão no feminino. Republicana, cristã, membro da National Rifle Association e uma das figuras da classe rica de Memphis, Leigh Anne Tuohy é activa, decidida e sem papas na língua. Sempre de resposta pronta, com carregado sotaque sulista, enfrenta “gangsters” negros, professores, “rednecks”, entre outros, na defesa do seu novo menino.

Como não podia deixar de ser, “Um Sonho Possível” foi criticado por alguns como tempo de antena do partido republicano e por outros considerado paternalista por passar a imagem da necessidade da ajuda dos brancos aos negros que, ainda por cima, apenas vingam no desporto. Críticas à parte, este filme mostra-nos uma América sulista onde, longe das leis de segregação e das tensões raciais de outros tempos, continuam a existir dois mundos separados, mesmo apesar da discriminação positiva e políticas afins.

Suscitando alguma curiosidade, não passa de um filme ligeiro, realizado sem qualquer surpresa ou novidade e muito (demasiado) americano. Das tiradas cómicas, há uma que me ficou na cabeça. Quando Sean Tuohy observa o seu novo filho a estudar com a recém-contratada explicadora, diz para a sua mulher: “Quem diria que teríamos um filho negro antes de conhecermos uma democrata?” [publicado na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]



UM SONHO POSSÍVEL
Título original: The Blind Side
Realização: John Lee Hancock
Com: Sandra Bullock, Tim McGraw, Quinton Aaron, Jae Head, Lily Collins, Ray McKinnon, Kathy Bates
EUA, 2009, 129 min.
Estreia em Portugal: 25 de Março de 2010.
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Tintin no país dos piratas


Para os apreciadores do mais famoso repórter do mundo, "Tintin au pays des pirates" é um sítio na internet onde é possível encontrar muitos dos álbuns piratas, pastiches e paródias desta personagem incontornável da banda desenhada franco-belga.

O Regresso de Mel Gibson

Do surpreendente mundo pós-apocalíptico de Mad Max (1979), Mel Gibson deu o salto para o cinema de acção dos anos 80. Experimentou depois com sucesso a realização, nomeadamente com a excelente incursão histórica “Braveheart” (1995) e, mais recentemente, com “A Paixão de Cristo” (2004) e “Apocalypto” (2006), que geraram certa polémica, tal como algumas das suas acções e afirmações. Agora decidiu regressar ao grande ecrã, infelizmente no que parece uma involução.

“Edge of Darkness”, que em português recebe a tradução livre “Fora de Controlo”, é a adaptação ao cinema de uma mini-série televisiva britânica homónima de 1985. Realizada pelo mesmo Martin Campbell, que depois se tornaria mais conhecido por dirigir duas aventuras do famoso agente secreto James Bond, era um “thriller” ecológico em seis episódios que recebeu vários prémios e foi um êxito junto do público.

Em filme a coisa já não funciona tão bem. O ritmo é bom, mas a história perde muito nesta versão. Tudo tresanda a filme ultrapassado com um cenário actual. [continua na secção CineMais da edição desta semana de «O Diabo»]




FORA DE CONTROLO
Título original: Edge of Darkness
Realização: Martin Campbell
Com: Mel Gibson, Ray Winstone, Danny Huston, Bojana Novakovic
EUA, 2010, 117 min.
Estreia em Portugal: 18 de Março de 2010.
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